Poucos eventos na história moderna transformaram o mapa da Europa e os fundamentos do poder político com a velocidade e a intensidade das Guerras Revolucionárias Francesas. Entre 1792 e 1802, a jovem República Francesa enfrentou uma série de coalizões formadas pelas principais monarquias do continente, saindo do conflito não apenas de pé, mas com um território consideravelmente ampliado e um legado ideológico que continuaria abalando as estruturas do Antigo Regime por décadas. Esse período de guerra quase ininterrupta foi também o palco de ascensão de Napoleão Bonaparte ao poder supremo.
O contexto que gerou as guerras era explosivo. Após destituir Luís XVI e caminhar irreversivelmente em direção à república, a França revolucionária encontrou-se cercada por monarquias que viam nos acontecimentos parisienses uma ameaça direta à sua própria estabilidade interna. O Sacro Imperador Romano Leopoldo II, irmão da rainha francesa Maria Antonieta, e o rei prussiano Frederico Guilherme II emitiram em agosto de 1791 a Declaração de Pilnitz, sinalizando interesse no bem-estar de Luís XVI e ameaçando com consequências caso algo de mau acontecesse à família real. Os revolucionários franceses interpretaram a declaração como uma ameaça direta e responderam com a declaração de guerra contra a Áustria em 20 de abril de 1792.
O início da campanha foi catastrófico para os franceses. O exército havia sido desorganizado pelas reformas revolucionárias, muitos oficiais aristocráticos haviam deseritado ou fugido para o exterior, e as novas tropas recrutadas careciam de treinamento e disciplina. A invasão planejada dos Países Baixos austríacos fracassou e foi seguida de uma deserção em massa. Um exército aliado predominantemente prussiano, sob o comando do Duque de Brunsvique, avançou em direção à França com o objetivo declarado de restaurar a monarquia.
A virada decisiva da Primeira Coalizão veio na Batalha de Valmy, em setembro de 1792. Numa série de colinas cobertas de névoa, as tropas francesas não apenas detiveram o avanço prussiano como forçaram o recuo dos invasores. A vitória foi mais moral do que militar, mas seu impacto político foi imenso: revigorou os revolucionários, que aproveitaram o momento para abolir definitivamente a monarquia e proclamar a Primeira República Francesa. A Convenção Nacional ganhou impulso para consolidar o novo regime.
A guerra, porém, estava longe do fim. Uma grande derrota na Batalha de Neerwinden na primavera de 1793 inverteu novamente o quadro, permitindo que os jacobinos assumissem o controle da Convenção e impusessem o período conhecido como Reino do Terror. O Terror não foi apenas uma onda de execuções políticas: foi também uma tentativa desesperada de mobilizar e unificar a nação em face de uma ameaça existencial. O recrutamento em massa, a militarização da economia e a eliminação dos oponentes internos foram instrumentos de uma política de sobrevivência nacional.
A partir de 1794, a sorte voltou a sorrir para os franceses. Vitórias sucessivas, como a Batalha de Fleurus contra os austríacos e a Batalha da Montanha Negra contra os espanhóis, transformaram a dinâmica do conflito. Em 1795, os franceses conquistaram os Países Baixos e negociaram a Paz da Basileia, retirando da guerra a Espanha e a Prússia. Foi nesse cenário em transformação que emergiu a figura de Napoleão Bonaparte, então um jovem general corsicano de reputação em ascensão, que recebeu o comando da campanha italiana em abril de 1796.
A campanha italiana de Napoleão foi uma obra de gênio militar. Em menos de um ano, seus exércitos expulsaram as tropas austríacas de praticamente toda a península, vencendo batalha após batalha com uma combinação de velocidade, surpresa e concentração de forças que desconcertou seus adversários. Mais de 150 mil prisioneiros foram feitos. Com os franceses marchando em direção a Viena, a Áustria não teve escolha senão buscar a paz, assinando o Tratado de Campoformio em 1797 e encerrando a Primeira Coalizão.
A Segunda Coalizão começou quando Napoleão, numa decisão estrategicamente questionável, conduziu uma expedição ao Egito em 1798. As monarquias europeias viram na ausência do general uma chance de recuperar o terreno perdido. Os aliados obtiveram vitórias significativas na Suíça e na Itália nos primeiros meses, expulsando os franceses da península com triunfos em Magnano, Cassano e Novi. Mas os franceses conseguiram uma vitória crucial em Zurique em setembro de 1799, forçando a Rússia a abandonar a coalizão.
Enquanto isso, no Oriente Médio e no norte da África, Napoleão acumulava vitórias impressionantes nas Batalhas das Pirâmides, de Monte Tabor e em Abukir, destruindo as forças egípcias e otomanas. Porém a Marinha Real Britânica infligiu aos franceses um golpe devastador na Batalha do Nilo em 1798, destruindo a frota napoleônica e cortando sua ligação com a Europa. Isolado no Egito, Napoleão abandonou o exército e retornou à França em outubro de 1799, onde foi recebido como herói.
De volta à França fragmentada por divisões políticas e instabilidade institucional, Napoleão aproveitou o descontentamento com o Diretório para executar o Golpe de 18 de Brumário, em novembro de 1799, assumindo o controle do país como Primeiro Cônsul. Reorganizou o Estado e o exército com eficiência notável e retornou à Itália na primavera de 1800, obtendo a vitória decisiva de Marengo em junho daquele ano. Outra grande vitória em Hohenlinden obrigou a Áustria a negociar novamente, resultando no Tratado de Lunéville em 1801. Com russos e austríacos fora do conflito, o Reino Unido concordou com o Tratado de Amiens em 1802, encerrando formalmente as Guerras Revolucionárias Francesas.
O saldo de dez anos de guerras era extraordinário: a França havia conquistado ou criado estados satélites da Península Italiana até os Países Baixos, espalhado os princípios revolucionários por grande parte da Europa e consolidado um aparato militar e estatal que seria a base para as Guerras Napoleônicas que logo viriam. As tensões nunca desapareceram de fato, e em menos de dois anos uma terceira coalizão se formaria, dando início a um novo e ainda mais sangrento ciclo de conflitos.


