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Gumercindo Saraiva

Gumercindo Saraiva (Arroio Grande, 13 de janeiro de 1852 — Carovi, Capão do Cipó, 10 de ag

6 min de leitura01/01/2024
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Gumercindo Saraiva nasceu em Arroio Grande, no Rio Grande do Sul, em 13 de janeiro de 1852, filho de Francisco Saraiva, descendente de portugueses de diversas regiões de Portugal e dos Açores, e de Propícia da Rosa, natural de Jaguarão. Desde os primeiros anos de vida, Saraiva cresceu imerso na cultura fronteiriça que caracterizava o extremo sul do Brasil, um mundo onde os limites entre países eram porosos, onde o espanhol e o português se misturavam, onde as lealdades pessoais e os códigos de honra do pampa tinham mais peso do que as leis distantes da capital federal.

Aos dezoito anos, Gumercindo se juntou à sua primeira montonera ainda vivendo no Uruguai, onde passaria os seus primeiros trinta anos de vida. Ali adquiriu a habilidade extraordinária com o cavalo que o tornaria uma lenda viva, e constituiu uma rede de relações pessoais que posteriormente seria o núcleo de sua tropa na Revolução Federalista. Muitos dos homens que o seguiriam naquele conflito eram falantes de espanhol que ele conhecera nessa época, provenientes da região de San José, no Uruguai. Esses combatentes se autodenominavam maragatos, em referência à origem dos primeiros colonos da região, e o apelido acabaria designando todo o movimento federalista durante as hostilidades.

Antes da revolução, Gumercindo havia construído uma posição sólida na região de Santa Vitória do Palmar, onde atuava como estancieiro e caudilho, controlando quinze mil hectares de terra e milhares de cabeças de gado que se estendiam pela fronteira sul. Exerceu funções de autoridade local, chegando a ser comissário de polícia, e nutria uma relação política próxima com Gaspar da Silveira Martins, um dos políticos mais influentes do Império nos anos finais do regime monárquico. Durante os últimos anos do Império, chegou a simpatizar com a causa republicana, mas os partidários locais o decepcionaram, e a desilusão o afastou da política castilhista que dominaria o Rio Grande do Sul após a Proclamação da República.

Em 1883, Gumercindo retornou ao Brasil fugindo da justiça uruguaia, estabelecendo-se de vez no território gaúcho. Quando o governo de Júlio de Castilhos entrou em ebulição política em 1892, com os federalistas exigindo uma reforma constitucional parlamentarista, Gumercindo recusou-se a aderir ao castilhismo e passou a ser perseguido. Para levar adiante a causa de seu patrão político Silveira Martins, então exilado, ele cruzou de volta ao Uruguai, onde as tropas rebeldes se organizavam.

Em 2 de fevereiro de 1893, Gumercindo atravessou a fronteira liderando cerca de quatrocentos cavaleiros pelo povoado da Serrilhada, junto com seu irmão Aparício Saraiva. Reunindo-se aos homens do general João Nunes da Silva Tavares, o Joca Tavares, formou o chamado Exército Libertador, que rapidamente cresceu de três para doze mil homens com as adesões que chegavam de várias partes do estado. Em 4 de abril de 1893 ocorreu a primeira batalha com as forças legalistas.

Percebendo que se tratava de um exército governamental melhor armado e equipado para combates convencionais, Gumercindo adotou uma tática que se revelaria eficiente: a guerrilha. Em vez de engajar o inimigo em batalhas frontais, ele dispersava as tropas legalistas, atacava em pontos diferentes e imprevisíveis, e depois procurava vencê-las em confrontos parciais. Essa flexibilidade tática, combinada com a mobilidade excepcional de sua cavalaria e com o profundo conhecimento que ele e seus homens tinham do território, compensava as desvantagens materiais dos federalistas.

Os maragatos de Gumercindo foram de Dom Pedrito em direção ao norte, executando ataques relâmpagos que desestabilizavam as posições inimigas. Em novembro de 1893, avançaram sobre Santa Catarina e chegaram ao Paraná. Na cidade da Lapa, sessenta quilômetros a sudoeste de Curitiba, encontraram uma resistência imprevista: o coronel Gomes Carneiro defendeu a cidade de maneira heróica, morrendo em fevereiro de 1894 sem entregar suas posições, no episódio que ficou conhecido como o Cerco da Lapa. Esse sacrifício foi fundamental para impedir o avanço da revolução.

Nesse mesmo período, o almirante Custódio de Melo, que havia chefiado a Revolta da Armada contra Floriano Peixoto, aliou-se aos federalistas, ocupou Desterro, atual Florianópolis, e chegou a Curitiba ao encontro de Gumercindo. Por alguns momentos, a revolução parecia ter possibilidades reais de alterar os rumos do país.

A resistência da Lapa, porém, impediu o avanço decisivo. Gumercindo iniciou a retirada para o Rio Grande do Sul, pressionado pelas tropas governamentais que receberam reforços de São Paulo. A coluna maragata percorreu mais de três mil quilômetros a cavalo desde Jaguarão até o retorno ao sul, atravessando os três estados do sul do Brasil em marchas que misturavam combates, esquivas e negociações. Em Curitiba e em Desterro, a elite local, para evitar saques e violências, negociou acordos com Gumercindo, pagando tributos de guerra em troca de que seus homens respeitassem a população civil.

Em 27 de junho de 1894, Gumercindo enfrentou sua última grande batalha. No dia 10 de agosto daquele mesmo ano, enquanto reconhecia o terreno na véspera da Batalha do Carovi, foi atingido por um tiro de tocaia no tórax e morreu no lugar que ficaria conhecido como Capão da Batalha, no atual município de Capão do Cipó, no Rio Grande do Sul. Tinha 42 anos.

A barbárie que marcou aquela guerra não poupou nem o corpo do inimigo morto. Dois dias após o sepultamento no cemitério Santo Antônio de Capuchinhos, seu cadáver foi desenterrado, a cabeça decepada e enviada numa caixa de chapéus ao governador Júlio de Castilhos. O restante do corpo foi sepultado mais tarde no cemitério municipal de Santa Vitória do Palmar, sem a cabeça. Esse ato sinistro revelava o quanto aquela guerra havia sido brutal de ambos os lados, e transformou Gumercindo Saraiva numa figura ainda mais mítica na memória dos federalistas e na cultura gaúcha.

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