Georges Wolinski nasceu em 28 de junho de 1934 na cidade de Túnis, então sob protetorado francês, e cresceu para se tornar uma das vozes mais marcantes do cartunismo francês do século vinte. Sua trajetória percorreu décadas de transformações políticas e culturais na França, deixando uma marca indelével no jornalismo satírico e nos quadrinhos eróticos europeus. A vida que começou no norte da África terminaria de forma trágica no coração de Paris, interrompida por um dos ataques terroristas mais chocantes da história francesa contemporânea.
Após deixar os estudos de arquitetura que havia iniciado, Wolinski encontrou seu verdadeiro caminho nas artes gráficas. A partir de 1960, passou a contribuir com cartuns para a revista mensal Hara-Kiri, publicação que se tornou referência na sátira política e no humor corrosivo na França. Naquela época, o ambiente cultural europeu fervilhava com debates sobre liberdade de expressão, moralidade e contestação política, e Wolinski mergulhou nesse universo com entusiasmo e talento incomuns.
O ano de 1968 marcou uma virada tanto na história da França quanto na carreira do cartunista. Durante os movimentos estudantis que sacudiram o país em maio daquele ano, Wolinski foi um dos fundadores de L'Enragé, publicação satírica criada ao lado do cartunista Siné para cobrir e alimentar o espírito de rebeldia que tomou conta das ruas de Paris. O engajamento político não era para ele uma postura superficial, mas uma convicção refletida em cada traço e em cada legenda que criava.
No início da década de 1970, Wolinski se uniu ao quadrinista Georges Pichard para criar Paulette, personagem que circulou pelas páginas de Charlie Mensuel e gerou reações expressivas entre o público francês. A personagem combinava humor, erotismo e crítica social de maneira que desafiava os limites do que era considerado aceitável na imprensa daquele período. Os sete volumes de Paulette foram publicados em parceria com Pichard entre 1971 e 1984, consolidando uma colaboração criativa memorável.
Ao longo das décadas seguintes, o trabalho de Wolinski ganhou presença constante nos principais veículos de comunicação franceses. Publicava cartuns diários no jornal Libération, colaborava semanalmente com o Paris-Match, com L'Écho des savanes e com o Charlie Hebdo. Essa presença multimídia transformou-o numa figura familiar para gerações de leitores franceses, que encontravam em seus desenhos uma combinação rara de inteligência, ironia e ousadia gráfica.
Entre seus títulos mais conhecidos está a trilogia Je ne pense qu'à ça!, publicada entre 1969 e 1972, que explorava de forma irreverente a sexualidade e os costumes da sociedade francesa. Também se destacou La Reine des pommes, publicada em 1979 e baseada num romance de Chester Himes, demonstrando a versatilidade de Wolinski ao adaptar narrativas literárias para o universo dos quadrinhos. Ao longo da carreira, produziu coleções de cartuns políticos, séries em quadrinhos e álbuns autorais que somam uma obra vasta e coerente.
O humor de Wolinski nunca foi gentil com o poder. Seus cartuns políticos desafiavam presidentes, ministros e instituições com a mesma irreverência que dirigia a questões religiosas e morais. Essa postura não o tornava popular entre os alvos de suas charges, mas garantia-lhe a admiração duradoura de um público que via na sátira uma das formas mais honestas de exercer o pensamento crítico numa sociedade democrática.
No dia 7 de janeiro de 2015, dois homens armados invadiram a redação do Charlie Hebdo em Paris e abriram fogo contra os jornalistas e cartunistas que se encontravam reunidos. O ataque resultou na morte de doze pessoas, entre elas alguns dos cartunistas mais importantes da França: Cabu, Charb, Tignous e Honoré, além do próprio Wolinski. Ironicamente, a tragédia ocorreu exatamente no dia em que Wolinski completaria 81 anos, transformando o que seria uma data de celebração em luto coletivo nacional.
O impacto do ataque ultrapassou as fronteiras da França e provocou uma onda de solidariedade em todo o mundo. A expressão Je suis Charlie tornou-se símbolo da defesa da liberdade de imprensa e da resistência ao extremismo. Milhões de pessoas foram às ruas em Paris e em outras cidades para manifestar apoio à liberdade de expressão e repudio ao terrorismo.
O legado de Wolinski transcende seus desenhos. Ele representava uma tradição francesa de sátira intransigente, que considerava a irreverência não um luxo, mas uma necessidade democrática. Sua morte e a de seus colegas tornaram-se um marco doloroso na história do jornalismo ocidental, lembrando que a liberdade de expressão, longe de ser uma conquista definitiva, precisa ser defendida a cada dia por aqueles que a exercem com coragem.