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Força Nacional de Segurança Pública

Programa de cooperação de Segurança Pública brasileiro

6 min de leitura01/01/2024
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A Força Nacional de Segurança Pública nasceu de uma constatação que se tornara evidente para os gestores de segurança do Brasil no início do século XXI: os crimes graves, especialmente aqueles ligados ao crime organizado, há muito haviam superado as fronteiras estaduais, mas os instrumentos do estado ainda operavam segundo uma lógica estritamente local. Criada em 2004 por iniciativa do ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, durante o governo Lula, a Força Nacional representou uma resposta federal à fragmentação do sistema de segurança pública brasileiro.

A ideia central era que as redes criminosas operavam de forma interligada por todo o território nacional — e em alguns casos além dele —, enquanto as polícias estaduais respondiam apenas dentro de seus limites geográficos. Essa assimetria gerava buracos de cobertura que o crime organizado explorava com eficiência. A FNSP foi concebida para preencher exatamente esses buracos, funcionando como uma força de reforço que poderia ser deslocada a qualquer ponto do país onde a situação de segurança exigisse apoio federal.

Juridicamente, a Força Nacional não é um órgão policial permanente no sentido convencional. É um programa de cooperação federativa coordenado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública, vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. Sua composição é variada: policiais militares, policiais civis, bombeiros militares e peritos cedidos pelos estados membros da Federação e pelo Distrito Federal. Essa natureza híbrida exige que cada estado designe voluntariamente seus profissionais para integrarem a força quando acionada.

O treinamento dos agentes da FNSP é padronizado e conduzido em módulos intensivos de aproximadamente cem horas distribuídas em quinze dias. As disciplinas cobrem direitos humanos, controle de distúrbios civis, policiamento ostensivo, gerenciamento de crise e técnicas de tiro. Esse currículo reflete a diversidade de cenários em que a força pode ser empregada, desde manifestações de rua até operações de combate ao crime violento em regiões de alta periculosidade.

Um dos componentes mais importantes da estrutura da FNSP é o Batalhão de Pronta Resposta, criado com o objetivo de ser a unidade de elite da força. Sediado em Gama, no Distrito Federal, o BPR mantém um efetivo permanente e não desmobilizável, diferentemente do restante da força, que é convocado conforme a necessidade. Seus integrantes treinam regularmente com unidades de elite brasileiras e estrangeiras, estando aptos tanto para o policiamento ostensivo convencional quanto para operações policiais especiais de alta complexidade.

A Polícia Judiciária se incorporou à estrutura da FNSP em 2010, por ocasião da Operação Jaraguá em Maceió, Alagoas, voltada à investigação de crimes de homicídio. A operação foi considerada bem-sucedida e o modelo foi replicado em estados como Paraíba, Rio Grande do Norte, Goiás e, a partir de 2015, no Piauí. Nessas missões, delegados, agentes e escrivães cedidos pelos estados conduzem inquéritos policiais com autonomia, focados especificamente nos crimes de homicídio e na identificação de autores e provas materiais.

A Perícia Forense passou a integrar formalmente o Departamento da FNSP durante a catástrofe das enchentes na região serrana do Rio de Janeiro em 2011, quando a demanda por identificação de vítimas fatais exigiu a mobilização de especialistas de todo o país. Desde então, peritos criminais, médico-legistas, odonto-legistas e papiloscopistas dos estados compõem esse componente, atuando em locais de crime, exames balísticos, necropapiloscopia e levantamento de impressões papilares em diferentes operações pelo Brasil.

As regras de acionamento da FNSP passaram por uma alteração relevante em março de 2013, quando o Decreto Presidencial n.º 7.957 expandiu as hipóteses de mobilização. Antes, era necessária a solicitação formal do governador do estado. Com o novo decreto, qualquer ministro de Estado passou a poder requisitar a força em matérias relacionadas à proteção do meio ambiente, permitindo a intervenção federal mesmo sem pedido do governo estadual — dispositivo que gerou debates sobre a repartição constitucional de competências entre União e estados.

Ao longo de sua existência, a FNSP foi acionada em situações de grande repercussão nacional, incluindo crises de segurança nos estados do Espírito Santo e do Mato Grosso do Sul, além de diversas missões de apoio eleitoral, proteção de eventos internacionais e reforço em territórios sob pressão do crime organizado. O modelo brasileiro de força nacional de segurança inspirou discussões sobre a possibilidade de criação de uma Guarda Nacional, ideia que permanece no horizonte do debate político sobre reforma institucional da segurança pública no país.

O grande mérito da FNSP está em ter institucionalizado uma lógica de cooperação federativa na segurança pública que antes inexistia de forma sistemática. Ao reunir sob um comando unificado profissionais de diferentes estados, submetidos a treinamento comum e voltados a objetivos definidos pelo governo federal, a força criou um precedente para uma abordagem mais integrada dos desafios de segurança em um país de dimensões continentais e com tamanha heterogeneidade regional.

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