biografias

Galileu Galilei

Polímata florentino (1564–1642)

7 min de leitura01/01/2024
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Numa tarde tranquila na catedral de Pisa, por volta de 1581, um jovem de dezessete anos chamado Galileo di Vincenzo Bonaulti de Galilei observava um lustre balançando suavemente movido por uma corrente de ar. Em vez de simplesmente admirar o movimento, ele comparou o ritmo das oscilações ao próprio pulso cardíaco e percebeu algo notável: o lustro levava sempre o mesmo tempo para completar cada balanço, independentemente da amplitude do arco descrito. Aquele momento de observação curiosa, dentro de uma catedral toscana, plantou a semente de uma das carreiras científicas mais revolucionárias da história.

Galileu nasceu em 15 de fevereiro de 1564, em Pisa, então parte do Ducado de Florença. Era o primogênito de Vincenzo Galilei, músico, compositor e teórico musical notável, e de Giulia Ammannati. A influência paterna foi determinante: do pai, Galileu herdou não apenas o talento para o alaúde, mas também uma postura de ceticismo saudável diante das autoridades estabelecidas, disposição que marcaria toda a sua trajetória intelectual.

Quando tinha oito anos, a família se mudou para Florença, mas Galileu ficou temporariamente aos cuidados de um tutor antes de ser enviado à Abadia de Vallombrosa para estudar. Em 1580, por insistência do pai, matriculou-se na Universidade de Pisa para cursar medicina. Foi durante esses estudos que aconteceu a observação do lustro, e foi também nesse período que um acidente o direcionou para a matemática: tendo assistido quase por acaso a uma palestra sobre geometria euclidiana, descobriu uma paixão que nunca mais o abandonaria.

Sem se formar em medicina, Galileu dedicou-se à física e à matemática com fervor crescente. Em 1589 tornou-se professor de matemática em Pisa e, três anos depois, assumiu a cátedra de matemática em Pádua, onde permaneceria por dezoito anos produtivos. Foi em Pádua que estudou o movimento de projéteis, a queda livre dos corpos e os princípios da inércia, lançando as bases do que hoje chamamos de mecânica clássica. Suas experiências com planos inclinados desmontaram a velha ideia aristotélica de que corpos mais pesados caíam mais rapidamente que corpos mais leves.

Por volta de 1609, Galileu soube da existência de um instrumento óptico desenvolvido na Holanda que permitia ver objetos distantes com mais clareza. Rapidamente construiu sua própria versão aperfeiçoada e apontou-a para o céu, tornando-se um dos primeiros a usar o telescópio para observação astronômica sistemática. O que viu mudou para sempre a visão humana do universo: montanhas e crateras na Lua, quatro luas orbitando Júpiter, as fases de Vênus, as manchas solares e os anéis de Saturno, ainda que este último lhe parecesse uma forma estranha não totalmente compreendida.

As observações das fases de Vênus foram particularmente devastadoras para o modelo geocêntrico herdado de Ptolomeu: o padrão que Galileu registrou só era compatível com o modelo heliocêntrico proposto por Nicolau Copérnico décadas antes. Com entusiasmo e determinação, Galileu passou a defender publicamente o heliocentrismo, posição que colocava o Sol, e não a Terra, no centro do sistema planetário.

A Igreja Católica, guardiã do saber estabelecido em matéria de cosmologia, encarou essas ideias como uma afronta às Escrituras. Em 1615, a Inquisição Romana investigou o assunto e concluiu que o heliocentrismo era tolo, absurdo e formalmente herético. Galileu foi advertido a não defender nem ensinar tais posições. Por alguns anos, ele se conteve. Mas em 1632 publicou o Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas Mundiais, obra na qual um personagem chamado Simplício, claramente um defensor do geocentrismo, saia em posição ridícula nos debates. O papa Urbano VIII, que antes tinha sido amigo e protetor de Galileu, identificou-se com Simplício e ficou profundamente ofendido.

O julgamento da Inquisição foi inevitável. Em 1633, Galileu foi levado a Roma, interrogado, ameaçado e considerado veementemente suspeito de heresia. Para escapar da fogueira, recantou formalmente suas crenças científicas. A lenda afirma que, após a recantação, ele teria murmurado baixinho "e pur si muove", ou seja, "e no entanto ela se move", referindo-se à Terra, mas os historiadores consideram essa frase apócrifa, criada posteriormente para dramatizar o episódio.

Galileu foi condenado à prisão domiciliar pelo restante de sua vida, primeiro em Siena e depois em sua propriedade em Arcetri, nos arredores de Florença. Apesar da humilhação e do confinamento, não parou de trabalhar. Durante esse período produziu as Duas Novas Ciências, obra na qual sistematizou décadas de pesquisa sobre cinemática e resistência dos materiais, publicada em 1638 nos Países Baixos, fora do alcance da censura romana.

A filha Virginia, que entrou para o convento com o nome de Maria Celeste, foi sua grande companheira espiritual durante os anos finais, trocando com ele uma correspondência intensa e carinhosa que revelou um lado íntimo pouco conhecido do cientista. Ela morreu em 2 de abril de 1634, um golpe do qual Galileu jamais se recuperou completamente. Ele próprio morreu em 8 de janeiro de 1642, em Arcetri, aos 77 anos, praticamente cego e ainda sob arresto.

A reabilitação oficial de Galileu pela Igreja só viria em 1992, quando o papa João Paulo II reconheceu formalmente o erro cometido no julgamento de 1633. Mas o verdadeiro tributo ao astrônomo pisano não depende de cerimônias: cada vez que uma sonda espacial é enviada a Júpiter, cada vez que um estudante aprende sobre inércia ou queda livre, a herança de Galileu está presente. Ele não apenas descobriu fatos novos sobre o universo: fundou uma maneira de conhecê-lo baseada em observação, experimento e razão, o método que sustenta toda a ciência moderna.

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