tragedias

Enchentes e deslizamentos no litoral norte de São Paulo em 2023

Desastre climático

4 min de leitura01/01/2024
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O litoral norte paulista carrega em sua geografia uma beleza exuberante e uma vulnerabilidade histórica às intempéries tropicais. Encravado entre a Serra do Mar e o oceano Atlântico, esse trecho da costa do estado de São Paulo sempre conviveu com chuvas intensas, mas o que aconteceu em fevereiro de 2023 ultrapassou qualquer registro moderno e deixou uma marca irreversível na memória da região e do país.

O episódio se desenvolveu ao longo do fim de semana de 18 e 19 de fevereiro, datas que coincidiram com os festejos do carnaval. Turistas de todo o Brasil tinham escolhido municípios como São Sebastião, Ubatuba, Ilhabela, Guarujá, Caraguatatuba e Bertioga para celebrar o feriado. Em menos de 24 horas, a região recebeu um volume acumulado de chuva superior a 600 milímetros, um dos maiores índices já registrados no Brasil em um intervalo tão curto de tempo.

As causas meteorológicas foram investigadas por especialistas da Metsul e do Instituto Nacional de Meteorologia. Um sistema de baixa pressão atmosférica se instalou sobre o litoral de São Paulo e do Rio de Janeiro, sugando a umidade do oceano em direção ao continente. Ao encontrar as encostas íngremes da Serra do Mar, o ar marinho carregado de vapor colidiu com massas de ar continental mais quente, gerando o fenômeno conhecido como precipitação orográfica, que pode elevar drasticamente a intensidade das chuvas em poucos quilômetros de distância.

Durante a semana anterior, as previsões já apontavam acumulados em torno de 500 milímetros para aquele fim de semana. Na tarde da sexta-feira, dia 17, os modelos meteorológicos foram revisados para cima, prevendo até 700 milímetros. Alertas foram emitidos pelo INMET, mas a velocidade com que a situação se agravou superou a capacidade de resposta das autoridades e da população.

As consequências foram devastadoras. Deslizamentos de terra varreram bairros inteiros nas encostas, destruindo casas, soterram ruas e cortando estradas. O cenário foi descrito por socorristas e moradores como um autêntico campo de batalha, com lama, entulho e destroços ocupando o lugar onde havia residências. A Vila Sahy, bairro localizado em São Sebastião, concentrou a maior parte das vítimas fatais. Ao todo, 65 pessoas morreram: 64 em São Sebastião e 1 em Ubatuba. O corpo do último desaparecido foi localizado pelas equipes de busca em 26 de fevereiro, encerrando formalmente a fase de resgate de vítimas fatais.

Além das mortes, o desastre deslocou centenas de famílias. Segundo o governo estadual, 560 pessoas precisaram deixar suas casas na região afetada, das quais 228 ficaram desalojadas e outras 338 foram classificadas como desabrigadas, sem local definitivo para onde ir. A rodovia SP-98, também chamada de Mogi-Bertioga, sofreu danos severos, com estimativa inicial de que sua liberação total levaria de dois a seis meses. Outros acessos rodoviários também foram comprometidos, prendendo turistas que desejavam abandonar as cidades e dificultando o ingresso de equipes de socorro.

Todos os municípios afetados decretaram estado de calamidade pública. As festividades de carnaval foram canceladas em toda a região. A resposta do governo federal foi imediata: o Ministério da Saúde enviou três kits de medicamentos com capacidade para atender 4,5 mil pessoas, e o Ministério dos Transportes coordenou operações com a Agência Nacional de Transportes Terrestres, a Polícia Rodoviária Federal e a Defesa Civil para monitorar o tráfego e prestar socorro.

A força mais visível da ação federal veio pelos ares. Seis helicópteros da Aviação do Exército Brasileiro foram transferidos da Base de Aviação de Taubaté para São Sebastião, entre eles três modelos HM-1 Pantera, dois HM-3 Cougar e um HM-4 Jaguar, somando mais de 450 militares em campo. As aeronaves foram essenciais para alcançar comunidades isoladas pelo corte de estradas, transportando equipes de bombeiros e policiais para locais de difícil acesso terrestre. Em 22 de fevereiro, a Marinha do Brasil deslocou o navio aeródromo multipropósito NAM Atlântico A140 para a região, atuando como base de apoio para aeronaves e como hospital de campanha flutuante.

No dia 20 de fevereiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou na Base Aérea de São José dos Campos e seguiu de helicóptero até São Sebastião, acompanhado de uma comitiva de ministros que incluía os titulares das pastas de Integração e Desenvolvimento Regional, Portos e Aeroportos, Esporte, Cidades, Transportes, além de secretários da Presidência. Em visita ao local, Lula afirmou o compromisso do governo federal em apoiar a reconstrução da região e compartilhar esforços com o governo estadual. O prefeito de São Sebastião, Felipe Augusto, destacou que bairros ainda permaneciam isolados e que o foco naquele momento continuava sendo encontrar sobreviventes entre os escombros.

A Petrobras também se mobilizou, com seu presidente anunciando nas redes sociais que a estatal estava enviando maquinário e equipes de apoio para auxiliar nas operações de resgate e limpeza.

A tragédia de fevereiro de 2023 não foi um evento isolado na história do litoral norte paulista. Registros históricos apontam episódios recordes de precipitação em 1967 e 1997. No entanto, o que diferiu em 2023 foi a magnitude sem precedente e a velocidade com que tudo ocorreu. Especialistas foram unânimes ao categorizar o evento como um episódio climático extremo, possivelmente ligado ao agravamento da crise climática global, que tem tornado esse tipo de ocorrência cada vez mais frequente e mais intensa no Brasil e em todo o mundo.

O legado da catástrofe passou a alimentar debates urgentes sobre o planejamento urbano em zonas de risco, a adequação dos sistemas de alerta precoce, e a necessidade de políticas públicas robustas de adaptação climática. A tragédia expôs as contradições de um litoral que concentra populações vulneráveis nas encostas da Serra do Mar, ao mesmo tempo em que atrai milhões de visitantes anualmente. A memória dos 65 mortos e das centenas de desabrigados permanece como um chamado inadiável por transformações estruturais.

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