Dōgen Zenji (道元禅師; também conhecido como Dōgen Kigen 道元希玄, Eihei Dōgen 永平道元, Koso Joyo Daishi ou simplesmente Dogen) (19 de janeiro de 1200 – 22 de setembro de 1253) foi um mestre zen-budista japonês nascido em Kyōto. Dogen fundou a escola Soto de zen. Ele foi uma figura religiosa proeminente em seu tempo, bem como um filósofo importante. Dogen é conhecido pelo sua obra "Tesouro do Olho do Dharma verdadeiro" (Shōbōgenzō), uma coleção de 95 fascículos relacionados à prática budista e à iluminação.
O mestre zen-budista Eihei Dogen nasceu em 1200, em Kyoto, então capital imperial do Japão. Filho de nobres, perdeu o pai aos três anos e a mãe aos oito. A perda de sua mãe parece ter causado forte impressão sobre ele, fazendo-o entrar em contato com o conceito budista da impermanência (無常 mujō) e iniciar o curso de suas questões sobre a natureza da existência. Aos 13 anos, foi para um monastério no Monte Hiei, onde foi ordenado monge budista da escola Tendai. Ao dedicar-se com afinco ao estudo das escrituras budistas, defrontou-se com uma questão que, para ele, teve papel fundamental em suas escolhas:
Esta questão foi originada em grande parte pelo conceito tendai de "iluminação original" (本覚 hongaku), que atesta que todos os seres humanos são iluminados por natureza e que, consequentemente, toda ideia de se atingir a iluminação através da prática é fundamentalmente errônea.
Como Dogen não encontrou uma resposta para esta questão no Monte Hiei, decidiu visitar outros mestres. Visitou o mestre Koin, abade tendai do Templo Onjōji (園城寺). Koin lhe disse que, para encontrar uma resposta, Dogen deveria considerar estudar chan na China. Kōin mandou Dogen a Myōan Eisai, em Kyoto, um famoso monge tendai que havia estado na China e trazido a prática da escola zen rinzai em 1191. Em 1214, Dōgen foi estudar com Eisai no Templo Kennin-ji (建仁寺) e, após a morte de Eisai no ano seguinte, ele continuou seu estudo sob o sucessor de Eisai, Myōzen (明全). Em 1221, Myōzen conferiu a Transmissão do dharma para Dōgen, reconhecendo que ele havia compreendido os ensinamentos. Dois anos depois, Dogen decidiu fazer a perigosa travessia através do Mar da China Oriental até a China para tentar encontrar uma resposta. Seu mestre Myōzen o acompanhou nessa viagem.
Na China, Dogen foi inicialmente aos principais monastérios chan na província de Zhèjiāng. Naquela época, a maior parte dos mestres de chan baseavam seu treinamento no uso de gōng-àns (Japonês: kōan). Embora Dogen tenha estudado os koan assiduamente, ele ficou desencantado devido à grande ênfase dada a eles, e começou a se perguntar por que os sutras não eram mais estudados. Dogen chegou mesmo a recusar-se a receber a transmissão do darma de um mestre devido a este desencanto. Então, em 1225, ele decidiu retornar ao Japão e, em seu caminho de retorno, voltou ao primeiro local de peregrinação na China para despedir-se de seu mestre Myozen. Foi lá que conheceu e tornou-se discípulo do mestre Rújìng (如淨; Japonês, Nyōjo), o décimo-terceiro patriarca da escola Cáodòng (japonês, Sōtō)de budismo zen, no monte Tiāntóng (天童山 Tiāntóngshān; J. Tendōzan) em Níngbō. Rujing era famoso por ter um estilo de zen diferente dos outros mestres que Dogen havia até então visitado.
Rujing era um mestre muito rigoroso, o treinamento levado a cabo no mosteiro era referido como sendo muito duro e difícil. Os monges dormiam pouco e se dedicavam durante muitas horas do dia à pratica da meditação sentada silenciosa (zazen). A principal instrução recebida por Dogen foi para que abandonasse corpo e mente ao caminho, significando um abandono completo de si mesmo e de toda e qualquer ideia de identidade ou preconcepções acerca dos próprios ensinamentos, dedicando-se à prática central da meditação silenciosa com todo o seu ser:
O abandono da compreensão intelectual através da absorção meditativa e do corpo através da disciplina foram decisivos para realizar o completo desapego. O mestre Rujing participava de todos os momentos de prática junto com os monges, e revelava com sua forma de viver a realização dos ensinamentos oferecidos.
Sob Rujing, Dōgen atingiu a libertação do corpo e da mente, guardando cuidadosamente as palavras de seu mestre, "Jogue fora o corpo e a mente" (身心脱落 shēn xīn tuō luò). Esta frase continuaria a ter grande importância durante a vida de Dogen e pode ser encontrada em vários lugares em seus escritos, como por exemplo na seção famosa de seu "Genjōkōan" (現成公案):
Logo após Dogen chegar ao monte Tiantong, Myōzen morre. Em 1227, Dōgen recebeu a Transmissão do dharma e inka de Rujing, e comentou como finalmente ele havia resolvido sua "busca de uma vida da grande questão".
Dogen retornou ao Japão em 1227 ou 1228, para o templo Kennin (Kennin-ji), onde ele havia treinado sob Eisai. Uma de suas primeiras ações ao voltar foi escrever o Fukan Zazengi (普観坐禅儀; "Instruções Universalmente Recomendadas para a Prática de Zazen"), um texto curto mostrando a importância e dando instruções para a prática do zazen, ou "meditação sentada".
Tensões começaram a surgir quando a comunidade tendai tentou suprimir tanto o zen quanto a escola Jōdo Shinshū, as novas formas de budismo no Japão. Devido a esta tensão, Dogen deixou os domínios tendais de Kyoto em 1230 e se estabeleceu num templo abandonado na hoje cidade de Uji, ao sul de Kyoto. Em 1233, Dōgen fundou o Kannon-dōri-in, um pequeno centro de prática, em Uji; mais tarde, ele expandiu este templo para formar o templo Kōshō-hōrinji (興聖法林寺). Em 1243, Hatano Yoshishige (波多野義重) ofereceu realocar a comunidade de Dogen para a província Echizen, bem ao norte de Kyoto. Dōgen aceitou devido às tensões com a comunidade tendai e seus seguidores construíram um centro de prática nesta localidade, chamando-o de Daibutsuji (大仏寺), "templo do Grande Buda". Enquanto a construção ocorria, Dogen vivia e ensinava no templo Yoshimine-dera (Kippōji, 吉峯寺), próximo a Daibutsuji. Em 1246, Dōgen mudou o nome de Daibutsuji, passando a chamá-lo Eihei-ji. Este continua a ser um dos dois templos-chefe da seita sōtō zen no Japão atual, o outro sendo Sōji-ji.
Dogen passou o resto de sua vida ensinando e escrevendo em Eiheiji. Em 1247, o novo regente, Hōjō Tokiyori, convidou Dōgen a vir a Kamakura ensiná-lo. Dōgen fez a longa viagem, ordenou o regente como leigo e voltou a Eiheiji em 1248. No outono de 1252, Dōgen adoeceu. Ele transmitiu seu manto ao principal aprendiz, Koun Ejō (孤雲懐弉), fazendo-o abade de Eiheiji. A convite de Hatano Yoshishige, Dōgen foi a Kyoto em busca de uma cura para sua doença. Em 1253, pouco depois de chegar a Kyoto, Dogen faleceu. Pouco antes de sua morte, ele havia escrito o poema:
Cinquenta e quatro anos iluminando os céus.
Um salto trêmulo arrebenta com bilhões de palavras.
Vivendo, eu mergulho nas Fontes Amarelas.
No cerne da variação de zen que Dogen ensinava, existe uma série de conceitos-chave, enfatizados diversas vezes nos seus escritos. Todos estes conceitos, entretanto, estão intimamente relacionados no sentido de que todos estão conectados diretamente com o zazen, ou "meditação sentada", que Dogen considerava idêntico ao zen, como pode ser visto claramente na primeira sentença do manual de instruções de 1243 Zazen-gi (坐禪儀; "Princípios do Zazen"): "Estudar zen... é zazen". Ao se referir ao zazen, Dogen, na maioria das vezes, está se referindo especificamente ao shikantaza, ou "apenas sentar-se", que é um tipo de meditação na qual senta-se "num estado totalmente alerta, livre de pensamentos, dirigido a nenhum objeto e ligado a nenhum conteúdo em particular".
