A história do zen-budismo japonês dificilmente pode ser contada sem que o nome de Eihei Dogen ocupe um lugar central. Nascido em 19 de janeiro de 1200 em Kyoto, então capital imperial do Japão, Dogen cresceu sob a sombra da aristocracia e da impermanência que o budismo ensina a reconhecer em todas as coisas. Filho de nobres, perdeu o pai quando tinha apenas três anos de idade e a mãe quando completava oito. A morte prematura da mãe parece ter sido um acontecimento de efeito profundo sobre o menino, colocando-o em contato precoce com o conceito budista da impermanência — a compreensão de que nada neste mundo possui existência permanente — e lançando as sementes das grandes questões que orientariam sua vida inteira.
Aos 13 anos, Dogen partiu para o Mosteiro do Monte Hiei, centro do budismo da escola Tendai e principal polo de estudo religioso do Japão de sua época, onde foi ordenado monge. A imersão nas escrituras e nos ensinamentos Tendai foi intensa e sincera, mas gerou também um problema que não o deixaria em paz. A escola Tendai ensinava o conceito de "iluminação original" — a ideia de que todos os seres humanos já são iluminados por natureza, e que portanto a busca pela iluminação através da prática seria, em última análise, desnecessária ou mesmo contraditória. Se todos já somos iluminados, por que praticar? A questão parecia simples, mas nenhum mestre do Monte Hiei conseguiu oferecer a Dogen uma resposta que o satisfizesse.
A busca por uma resposta levou Dogen a percorrer diferentes mestres. Visitou Koin, abade tendai do Templo Onjoji, que o aconselhou a buscar na China, berço do budismo chan — a tradição de onde derivaria o zen japonês. Por indicação de Koin, Dogen procurou Myoan Eisai em Kyoto, monge tendai que havia viajado à China e retornado com os ensinamentos da escola rinzai do zen. Em 1214, Dogen passou a estudar com Eisai no Templo Kennin-ji, e após a morte do mestre no ano seguinte continuou sob a orientação de Myozen, sucessor de Eisai. Em 1221, Myozen conferiu a Dogen a Transmissão do dharma, reconhecendo formalmente sua compreensão dos ensinamentos.
Dois anos depois, em 1223, Dogen tomou a difícil decisão de cruzar o Mar da China Oriental para buscar a resposta que ainda o eludia. Myozen o acompanhou na viagem, gesto que demonstrava tanto a confiança do mestre no discípulo quanto a seriedade com que ambos encaravam a jornada espiritual que empreendiam. Na China, Dogen visitou os principais monastérios chan da província de Zhejiang, onde o método predominante de treinamento baseava-se no uso intensivo dos koan — paradoxos e questões cujas respostas transcendem a lógica ordinária. Embora Dogen tenha estudado os koan com dedicação, foi gradualmente perdendo o entusiasmo com o que percebia como uma ênfase excessiva naquele método, questionando por que os sutras recebiam tão pouca atenção.
A virada decisiva ocorreu quando Dogen conheceu o mestre Rujing no monte Tiantong, em Ningbo. Rujing era o décimo-terceiro patriarca da escola Caodong — que em japonês se tornaria Soto — e praticava um zen distinto dos demais mestres que Dogen havia encontrado até então. O monastério de Rujing era regido por uma disciplina rigorosa: os monges dormiam pouco e dedicavam longas horas ao zazen, a meditação sentada silenciosa, que Rujing colocava no centro absoluto da prática. A instrução fundamental que Dogen recebeu desse mestre foi abandonar completamente o corpo e a mente — uma orientação que apontava para um desapego total de si mesmo e de qualquer concepção prévia sobre o que seria a iluminação.
Sob a guia de Rujing, Dogen experimentou o que descreveu como a liberação do corpo e da mente. A frase do mestre — "Jogue fora o corpo e a mente" — tornou-se uma das mais citadas em seus escritos posteriores e continuaria a aparecer em textos centrais de sua obra, como o famoso Genjokoan. Em 1227, Dogen recebeu a Transmissão do dharma e o reconhecimento formal de Rujing, encerrando a busca que havia definido anos de sua vida. Retornou ao Japão naquele mesmo ano ou no seguinte, carregando os ensinamentos da escola Soto que fundariam uma nova vertente do budismo no arquipélago.
De volta ao Japão, Dogen começou a ensinar e a escrever com uma produtividade notável. Seu primeiro texto após o retorno foi o Fukan Zazengi, um breve guia com instruções universalmente recomendadas para a prática do zazen, demonstrando que a meditação sentada seria o eixo central do que pretendia transmitir. As tensões com a comunidade budista estabelecida não tardaram: o movimento tendai do Monte Hiei buscava suprimir as novas formas de budismo que ganhavam espaço no Japão, e Dogen deixou Kyoto em 1230 para se estabelecer em um templo abandonado ao sul da capital. Em 1233, fundou o Kannon-dori-in em Uji, pequeno centro de prática que mais tarde expandiria para formar o Templo Koshohorinji.
O templo que se tornaria o mais duradouro testemunho de sua obra foi fundado em 1243, quando Dogen aceitou o convite de Hatano Yoshishige para realocar sua comunidade na província Echizen, ao norte de Kyoto. O centro de prática recebeu o nome de Daibutsuji — o Templo do Grande Buda — e em 1246 Dogen mudou sua denominação para Eihei-ji, nome que carrega até hoje. O Eihei-ji continua sendo um dos dois mosteiros-chefe da escola Soto zen no Japão, patrimônio vivo de uma tradição que Dogen trouxe da China e adaptou com profundidade ao contexto espiritual japonês.
A obra escrita de Dogen concentra-se principalmente no Shobogenzo, ou Tesouro do Olho do Dharma Verdadeiro, uma coleção de noventa e cinco fascículos que abordam com densidade filosófica e clareza contemplativa os fundamentos da prática budista e da iluminação. O texto é considerado um dos documentos mais importantes da literatura religiosa japonesa e continua sendo estudado por estudiosos do budismo em todo o mundo. No outono de 1252, Dogen adoeceu gravemente e transmitiu o manto abacial a seu principal discípulo, Koun Ejo, tornando-o abade do Eihei-ji. Faleceu em 22 de setembro de 1253, aos 53 anos de idade, deixando uma tradição que sobreviveria por séculos e que hoje conta com centenas de milhares de praticantes ao redor do planeta.
