civilizacoes perdidas

Diego de Almagro, o Velho

Conquistador espanhol

4 min de leitura01/01/2024
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A história da conquista da América do Sul tem muitos protagonistas, mas poucos tiveram uma trajetória tão marcada pelo paradoxo quanto Diego de Almagro. Guerreiro temível, explorador destemido e pioneiro de expedições que nenhum europeu havia jamais tentado, morreu executado por ordem do mesmo homem com quem havia dividido os maiores riscos e as maiores glórias de sua vida. Sua história é uma das mais reveladoras sobre a brutalidade e as contradições inerentes ao processo de conquista espanhola nas Américas.

Diego de Almagro nasceu por volta de 1475, possivelmente na vila de Almagro ou na próxima Malagón, na atual província de Ciudad Real, na Espanha. Era filho ilegítimo de Juan Montenegro e Elvira Gutiérrez, e seu nascimento fora do casamento determinou desde cedo seu lugar na sociedade. Para preservar a honra da família, o menino foi levado a Bolaños de Calatrava, onde foi criado por Sancha López del Peral, e depois transferido para Aldea del Rey. Aos quatro anos retornou a Almagro, para viver sob a tutela de um tio chamado Hernán Gutiérrez, homem de caráter rígido com quem o jovem Diego jamais se entendeu bem.

Aos quinze anos, cansado da dureza do tio, fugiu. Voltou à casa da mãe, que já vivia com outro homem, pediu pão e algumas moedas, e partiu para Sevilha com a vaga intenção de "viajar pelo mundo". A mãe, angustiada, despediu-se com as palavras que a história registrou: "Aqui, meu filho, e não me dês mais problemas, e vai, que Deus te ajude na tua aventura." Em Sevilha, sobreviveu como pôde — provavelmente roubando, segundo alguns relatos —, até tornar-se criado de Luís de Polanco, um dos quatro alcaides dos Reis Católicos. A vida na casa de Polanco teve um episódio sombrio: Almagro esfaqueou outro criado numa briga, ferindo-o com gravidade suficiente para ser levado a julgamento. Foi o próprio Dom Luís quem usou sua influência para livrar o servo do processo e, ao mesmo tempo, garantir que ele embarcasse em uma das frotas que se preparavam para o Novo Mundo.

Em 30 de junho de 1514, Diego de Almagro pisou pela primeira vez em solo americano, chegando a Santa María la Antigua del Darién, no Panamá, com a expedição enviada por Fernando II de Aragão sob o comando de Pedro Arias Dávila. Tinha pouco mais de trinta anos. Em Darién, encontrou-se com Francisco Pizarro — um encontro que selaria o destino de ambos. Nos anos seguintes, participou de diversas campanhas menores, recebeu uma encomienda, construiu casa e estabeleceu negócios. Em novembro de 1515, comandou sua primeira expedição independente com 260 homens e fundou Villa del Acla, embora uma doença o tenha forçado a passar o comando a Gaspar de Espinosa.

A parceria com Pizarro e com o clérigo Hernando de Luque tornou-se o eixo central da vida de Almagro a partir daí. Durante uma expedição de quatorze meses que partiu em dezembro de 1515, os três homens firmaram uma amizade profunda. Foi também nesse período que Almagro conviveu com Vasco Núñez de Balboa, o descobridor europeu do Oceano Pacífico, e que se envolveu nos planos de exploração marítima do "Grande Mar do Sul". Na cidade do Panamá, Almagro cuidou das propriedades de Pizarro durante as ausências do sócio e teve um filho com Ana Martínez, uma mulher indígena que viveu com ele como esposa de fato. Esse filho se chamaria Diego de Almagro, o Moço — e herdaria o destino trágico do pai.

A associação entre Almagro e Pizarro tomou forma definitiva com a conquista do Peru. As duas primeiras expedições ao longo da costa sul-americana foram penosas e mal-sucedidas. A terceira, que partiu em 1531, atingiu o objetivo: o Império Inca, enfraquecido por uma devastadora guerra civil entre os príncipes Huáscar e Atahualpa, ruiu com uma velocidade assombrosa. Almagro participou ativamente da campanha, chegou a Cuzco e esteve presente nas fases mais decisivas da conquista. No processo, contribuiu para a fundação de cidades que persistem até hoje: Quito, no atual Equador, e Trujillo, no Peru.

Coube a Almagro a missão de explorar o sul do continente. Em 1535, liderou a primeira expedição europeia ao Chile central — uma jornada épica e brutal que atravessou o deserto de Atacama e os Andes, e na qual homens e cavalos morreram de frio e de fome. O Chile não ofereceu o ouro que os espanhóis esperavam encontrar, e Almagro retornou ao Peru em 1536 com as tropas exauridas e a decepção de quem havia apostado tudo numa promessa que não se confirmou.

De volta ao Peru, encontrou uma situação explosiva. A distribuição das riquezas da conquista — em especial o controle de Cuzco, a antiga capital inca — tornou-se um pomo de discórdia irreversível entre os dois sócios. Almagro capturou temporariamente Hernando Pizarro, irmão de Francisco, mas acabou libertando-o em troca de negociações que não levaram a lugar algum. A tensão escalou até o confronto armado. Em abril de 1538, as forças de Almagro e as dos irmãos Pizarro se encontraram na Batalha de Las Salinas, nos arredores de Cuzco. As tropas de Francisco Pizarro, melhor armadas e numerosas, derrotaram os homens de Almagro. O velho conquistador foi capturado, julgado sumariamente por rebelião e estrangulado em julho de 1538, no mesmo Cuzco que havia ajudado a conquistar. Tinha aproximadamente 63 anos.

O legado de Diego de Almagro é o de um homem que chegou do nada e atingiu os limites do mundo conhecido, apenas para ser destruído pelo sistema que ajudou a construir. Sem herança familiar nem títulos de nascimento, construiu sua posição pelo talento militar e pela lealdade — virtudes que não serviram de escudo quando o poder estava em jogo. Seu filho, Diego de Almagro, o Moço, tentaria vingar a morte do pai e encontraria o mesmo fim anos depois. A história dos Almagro é, em miniatura, a história de toda a conquista: audaciosa, sangrenta e, ao fim, devorada por suas próprias ambições.

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