Cleo Pires Ayrosa Galvão é uma das artistas mais versáteis do Brasil, transitando com naturalidade entre a atuação, a música e a produção cultural. Nascida no Rio de Janeiro em 1982, ela é filha do cantor Fábio Júnior e da atriz Glória Pires, o que faz dela parte de uma das famílias mais influentes do meio artístico brasileiro. Sua herança cultural é igualmente rica: descendente de espanhóis, indígenas e portugueses, ela carrega em si uma miscigenação que se reflete tanto em sua trajetória pessoal quanto profissional. Aos olhos do público, Cleo é uma figura que desafia rótulos, construindo uma carreira marcada pela escolha criteriosa de projetos e pela recusa a se limitar a fórmulas prontas, mesmo quando a fama precoce a rondava desde a infância.
Apesar de ter nascido em um ambiente repleto de holofotes, Cleo resistiu, na infância e adolescência, à ideia de seguir os passos dos pais. A invasão da imprensa na vida familiar a afastou temporariamente do desejo de se tornar artista, levando-a a buscar refúgio na música. Entre 1999 e 2000, ela integrou a banda de rock Seedless, participando de festivais e apresentações em bares. Essa fase, embora breve, revelou um lado criativo e rebelde, características que mais tarde se manifestariam em sua atuação, especialmente em personagens complexas e desafiadoras. A música, contudo, não foi o caminho definitivo, mas sim o cinema, que a resgatou para as artes cênicas de uma forma que ela jamais imaginaria.
Sua estreia no cinema aconteceu em 2003, quando a cineasta Monique Gardenberg a convidou para o teste do filme *Benjamim*, baseado na obra de Chico Buarque. O papel não apenas a lançou como atriz profissional, como também lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival do Rio, um marco inicial que consolidou seu talento diante das câmeras. No entanto, Cleo optou por trilhar um caminho menos convencional, recusando propostas que poderiam reduzir sua carreira a meras comparações com os trabalhos de seus pais. Em 2004, por exemplo, ela recusou o remake de *A Escrava Isaura* na RecordTV, justificando que não queria ser comparada à icônica interpretação de Lucélia Santos. Essa postura, embora arriscada, demonstrou sua maturidade profissional e o desejo de construir uma identidade própria no meio artístico.
Nos anos seguintes, Cleo alternou entre televisão e cinema, sempre em busca de personagens que a desafiassem. Em 2005, após duas recusas, aceitou o convite de Glória Perez para integrar a telenovela *América*, onde interpretou Lurdinha, uma adolescente sedutora que causava rebuliço entre os adultos. O papel, embora não fosse o protagonista, ganhou destaque e chamou a atenção da mídia, inclusive a nomeando como a mulher mais sexy do país pela revista *Istoé Gente*. Ainda naquele ano, ela participou do especial *Clara e o Chuveiro do Tempo* como Cleópatra, mostrando sua versatilidade em projetos fora do convencional. Esses trabalhos iniciais foram essenciais para que ela fosse reconhecida não apenas como a "filha de", mas como uma artista capaz de brilhar por si mesma.
A década de 2000 também foi marcada por sua incursão no cinema nacional, com participações em produções como *Meu Nome Não é Johnny* (2008) e *Lula, o Filho do Brasil* (2009), onde interpretou Maria Lurdes, primeira esposa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Esses papéis demonstraram sua capacidade de mergulhar em personagens históricas e contemporâneas, sempre com profundidade e dedicação. Em 2009, em *Caminho das Índias*, ela interpretou Surya, sua primeira vilã na televisão, um marco que expandiu ainda mais seu repertório e a mostrou como uma atriz completa, capaz de transitar entre mocinhas e antagonistas com igual competência.
Em 2010, Cleo surpreendeu ao posar para a *Playboy Brasil*, não apenas pela ousadia da decisão, mas pelo momento escolhido: uma edição comemorativa aos 35 anos da revista. Essa escolha, longe de ser um mero capricho midiático, refletiu sua vontade de se reinventar e de mostrar que não temia explorar novos territórios. Nos anos seguintes, ela continuou a se destacar em projetos variados, como a novela *Araguaia* (2010-2011), onde interpretou a índia Estela, e o filme *O Tempo e o Vento* (2013), no qual deu vida à jovem Ana Terra, personagem que sua mãe havia interpretado anos antes. Essa decisão de revisitar um papel icônico, mas de forma independente, reforçou sua determinação em não ser definida por legado familiar.
A partir de 2014, Cleo iniciou uma nova fase, ampliando suas fronteiras para além da atuação. Em 2016, ela participou da novela *Haja Coração*, interpretando Tamara, e no ano seguinte esteve em *Supermax*, contracenando com Mariana Ximenes. Paralelamente, em 2017, ela adotou o monônimo "Cleo" como nome artístico, uma mudança simbólica que representou uma ruptura com o passado e uma afirmação de sua identidade adulta. Nesse mesmo ano, ela participou do clipe *Eu Vou Te Buscar* do cantor Gusttavo Lima, ao lado do rapper Hungria Hip-Hop, mostrando sua conexão com a música contemporânea brasileira. Essas experiências musicais culminaram no lançamento de seus primeiros *extended plays*, *Jungle Kid* e *Melhor Que Eu*, em 2018, marcando sua estreia como cantora e compositora.
Nos últimos anos, Cleo tem se dedicado também à produção de conteúdos independentes, lançando projetos inovadores por meio de plataformas digitais. Em 2019, ela criou o *Cleo On Demand*, um canal no Instagram voltado para lançamentos de produções independentes, onde atuou como produtora executiva. Entre os projetos lançados estavam a série *Onde Está Mariana?*, a animação *Free Girls* e o documentário *Expressão*. Durante a pandemia de COVID-19, ela ainda produziu e estrelou a websérie *Reflexos*, interpretando uma médica na linha de frente contra o vírus, ao lado de Vera Fischer e Viih Tube. Essa fase demonstrou sua capacidade de se adaptar às novas mídias e de criar narrativas que dialogam diretamente com o público contemporâneo.
Cleo também explorou a literatura e o suspense, expandindo ainda mais seu universo criativo. Em 2021, ela produziu a audiossérie *A Febre de Kuru*, inspirada em crimes históricos ocorridos em Porto Alegre, e a série *Todos Merecem o Céu*. Ainda naquele ano, ela estrelou *Terapia do Medo* para a Netflix, interpretando as irmãs Clara e Fernanda em um suspense psicológico. Em 2022, consolidou sua presença no streaming com *O Segundo Homem*, onde interpretou Márcia em um drama distópico, e *Me Tira da Mira*, uma comédia ao lado de Sergio Guizé. Esses trabalhos mostram que, mesmo em um mercado cada vez mais competitivo, Cleo consegue se destacar pela diversidade de seus projetos e pela ousadia em escolher gêneros distintos.
Hoje, Cleo Pires é muito mais do que a filha de dois ícones da cultura brasileira: ela é uma artista multifacetada, que constrói sua carreira com inteligência, coragem e uma visão contemporânea do entretenimento. Seja como atriz, cantora, produtora ou escritora, ela continua a surpreender, sempre em busca de novos desafios que ampliem não apenas sua trajetória, mas também o universo cultural do país.