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Carlota Joaquina de Bourbon

Rainha Consorte do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1816–1822)

7 min de leitura01/01/2024
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Carlota Joaquina Teresa Caetana de Bourbon nasceu em 25 de abril de 1775 no Palácio Real de Aranjuez, filha do então Príncipe das Astúrias Carlos, futuro Rei Carlos IV da Espanha, e de Maria Luísa de Parma. Era a filha mais velha a sobreviver entre os filhos do casal, e desde cedo foi tratada como peça central de uma estratégia diplomática que buscava estreitar os laços entre as coroas ibéricas. O rei Carlos III, seu avô paterno, considerava-a sua neta favorita, e os laços afetivos que nutria por ela contrastavam com a frieza calculada que marcava a política matrimonial das casas reais do período.

A infância de Carlota foi vivida na rigidez da corte espanhola, com educação católica severa que incluía religião, geografia, pintura e equitação, esta última sua atividade preferida. Os padrões austeros da monarquia espanhola impunham regras estritas de comportamento e etiqueta a toda a família real, mas o ambiente doméstico era perturbado pela reputação crescentemente controversa de sua mãe, Maria Luísa de Parma. A rainha assumiu papel ativo nas festividades da corte e foi associada a rumores de infidelidade e relações com diferentes homens, incluindo possivelmente o primeiro-ministro Manuel Godoy. Essa reputação manchada teve impacto direto sobre Carlota, que cresceu num ambiente de duplos padrões morais e intrigas constantes.

As negociações para o casamento de Carlota foram realizadas entre o rei Carlos III da Espanha e Mariana Vitória, rainha viúva de Portugal, durante visita desta à Espanha no final da década de 1770. O objetivo era claro: revitalizar os laços diplomáticos entre os dois reinos ibéricos que haviam permanecido distantes por longo período. Ficou acordado que Carlota se casaria com o infante João, duque de Beja, neto mais novo da rainha viúva portuguesa, enquanto o infante Gabriel da Espanha, tio paterno de Carlota, se casaria com a infanta Mariana Vitória de Portugal. Era uma troca equilibrada que servia aos interesses geopolíticos de ambas as coroas.

Antes da celebração do casamento, Carlota foi submetida a uma série de exames públicos diante da corte espanhola e dos embaixadores portugueses enviados pela rainha Maria I de Portugal para avaliar as qualidades da noiva escolhida para seu filho. Em outubro de 1785, a Gazeta de Lisboa registrou os resultados com elogios entusiasmados, destacando o vasto saber demonstrado pela princesa para uma idade tão tenra. Com apenas dez anos, Carlota demonstrou domínio suficiente de diferentes disciplinas para satisfazer as mais altas expectativas. Um casamento por procuração foi celebrado em 8 de maio de 1785, e três dias depois a jovem infanta partiu da Espanha para Lisboa, acompanhada de seu séquito que incluía um teólogo renomado, uma dama de companhia e sua criada pessoal. A cerimônia oficial de casamento com o infante João ocorreu em 9 de junho de 1785, quando a noiva tinha apenas dez anos e o noivo dezoito. Dado a tenra idade de Carlota, a consumação do casamento foi adiada até janeiro de 1790.

Em Portugal, Carlota encontrou um ambiente muito diferente da animada corte espanhola. A influência da Igreja Católica era mais pesada, proibindo a encenação de comédias, danças e muitas formas de entretenimento cortesão. O reinado da rainha Maria I era marcado por uma atmosfera sombria acentuada pela fragilidade mental da monarca, que a tornava cada vez mais incapaz de governar. Nesse contexto, Carlota foi frequentemente descrita como travessa, contrariando as expectativas de comportamento reservado que a corte portuguesa impunha. A animosidade entre ela e a corte cresceu gradualmente, e com o passar do tempo passou a ser chamada por apelidos pouco lisonjeiros, incluindo "a Megera de Queluz".

Com o agravamento da saúde mental de Maria I, o marido de Carlota assumiu a regência e, posteriormente, com a morte da rainha, o trono como João VI. Carlota nunca aceitou um papel puramente decorativo. Ao longo dos anos, desenvolveu ambições políticas próprias, incluindo o projeto de usurpar o trono espanhol, que havia sido ocupado pelo irmão de Napoleão, José Bonaparte, após as invasões francesas. Alegava ter direitos dinásticos à coroa espanhola e tentou, por diversas ocasiões, mobilizar apoio político e militar para afirmar esses direitos, sem sucesso.

Após a transferência da corte portuguesa para o Brasil em 1808, durante as invasões napoleônicas, Carlota manteve suas intrigas no Rio de Janeiro. Chegou a conspirar abertamente contra o próprio marido, alegando que João VI não tinha capacidade mental para governar Portugal e seus territórios e buscando estabelecer uma regência que lhe permitisse exercer poder efetivo. A relação entre o casal deteriorou-se progressivamente, transformando-se numa rivalidade política aberta que escapou aos limites domésticos e tornou-se parte da política imperial.

Com o retorno da família real a Portugal em 1821 e as convulsões constitucionais que se seguiram, Carlota apoiou energicamente o filho Dom Miguel em seus esforços para usurpar o trono e restaurar o absolutismo, contrapondo-se ao constitucionalismo liberal que Dom Pedro, o filho que havia permanecido no Brasil e fundado o Império Brasileiro, procurava estabelecer. A aliança com Miguel pareceu por um tempo oferecer a Carlota a realização póstuma de suas ambições políticas, mas a relação entre ambos também se deteriorou com o passar do tempo, deixando-a progressivamente isolada.

Carlota Joaquina morreu em 7 de janeiro de 1830, confinada ao Palácio Real de Queluz, abandonada pelos filhos e pelos aliados políticos que haviam gravitado em torno de suas ambições. Tinha cinquenta e quatro anos. Sua vida foi a de uma mulher de inteligência e vontade notáveis que viveu num sistema onde o papel político das rainhas consortes era ao mesmo tempo essencial e negado, e que respondeu a essa contradição com a única ferramenta que lhe restava: a intriga permanente. A historiografia portuguesa e espanhola nunca chegou a um consenso sobre seu legado, e ela permanece uma das figuras mais controversas da história ibérica do final do Antigo Regime.

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