Nascido em Dijon a 31 de julho de 1396, Filipe III da Borgonha — que a posteridade chamaria de Filipe, o Bom — herdou um ducado e uma tragédia que moldaria toda a sua vida política. Era filho único de João I da Borgonha, o temido João sem Medo, e de Margarida da Baviera. Ainda jovem, Filipe foi casado em 1409, aos treze anos, com Michelle de Valois, filha do rei Carlos VI de França, enlace que o inseria no centro das complexas rivalidades dinásticas que dilaceravam a França da época. Mas seria um assassinato, e não um casamento, que definiria os primeiros e decisivos passos de seu reinado.
Em 10 de setembro de 1419, João sem Medo foi apunhalado durante um encontro na ponte de Montereau, com o delfim Carlos — o futuro Carlos VII de França. Para Filipe, que acabava de tornar-se duque, a morte do pai não foi apenas uma perda pessoal devastadora; foi um evento político que reorientou completamente sua política externa. Consumido pela sede de vingança e convencido de que o delfim era o responsável pelo assassinato, Filipe voltou-se para a Inglaterra e selou uma aliança com Henrique V, que travava sua própria guerra contra a França.
O resultado foi o Tratado de Troyes, assinado em 21 de maio de 1421 na catedral da cidade homônima. O documento reorganizava radicalmente a questão dinástica francesa: Carlos VI e sua esposa Isabel da Baviera — que alegavam que o delfim Carlos era filho ilegítimo, fruto de uma aventura da rainha com Luís de Orleães — apoiaram o genro Filipe e o cunhado inglês. Henrique V de Inglaterra casou-se com Catarina de Valois, irmã da esposa de Filipe, e foi reconhecido como herdeiro da coroa francesa. O delfim Carlos ficava praticamente banido da sucessão. Filipe também recuperou os restos mortais do pai para um enterro digno na capela de Champmol, em Dijon, ao lado do avô Filipe, o Audaz.
O cenário político mudou rapidamente nos anos seguintes. Em agosto de 1422, Henrique V morreu sem ter chegado a sentar-se no trono francês; meses depois, em outubro, Carlos VI também faleceu. O trono inglês passou ao infante Henrique VI, com menos de um ano de idade, ficando a regência com o duque de Bedford, irmão do rei inglês. A partir desse momento, Filipe o Bom manteve formalmente a aliança com a Inglaterra, mas foi progressivamente redirecionando sua energia para a consolidação territorial de seus próprios domínios, objetivo que se revelaria a verdadeira obsessão estratégica de seu longo reinado.
Através de uma combinação de herança, compra, casamento e conquista, Filipe construiu o maior conjunto territorial da Europa ocidental de seu tempo. Em 1429, adquiriu o Condado de Namur; em 1430, os ducados de Brabante e Limburgo; em 1432, os condados de Hainaut, Holanda e Zelândia. Nesse mesmo ano de 1430, casou-se pela terceira vez — Michelle de Valois havia morrido em 1422 e Bonne de Artois, segunda esposa, falecera um ano após o casamento, em 1424 — com Isabel de Portugal, filha de Dom João I, numa cerimônia em Bruges que se tornou ocasião para uma das demonstrações mais espetaculares de poder e cultura da época. Para celebrar o casamento, Filipe fundou a Ordem do Tosão de Ouro, confraria de cavalaria que reuniria os mais poderosos nobres dos domínios borgonheses e se tornaria símbolo duradouro do prestígio da dinastia.
Em 1435, o Tratado de Arras marcou uma reviravolta diplomática fundamental. Filipe reconciliou-se com Carlos VII de França — o mesmo delfim cujo papel na morte de João sem Medo ele tanto reprovara — reconhecendo-o como rei legítimo em troca de concessões substanciais: uma virtual independência da Borgonha em relação à coroa francesa e a confirmação de todas as suas aquisições territoriais. Em 1443, adquiriu ainda o Ducado do Luxemburgo, completando o impressionante mosaico de territórios que formariam o núcleo do Estado Borgonhês.
A corte de Filipe o Bom era, por consenso de observadores contemporâneos e historiadores modernos, o mais esplêndido centro cultural da Europa do século XV. Itinerante entre Bruxelas, Bruges e Lille, ela atraía os maiores artistas e músicos do continente. Filipe patrocinou Jan van Eyck, o gênio flamengo que revolucionou a pintura europeia com o uso da tinta a óleo; Rogier van der Weyden, de expressividade dramática inigualável; os músicos Gilles Binchois e Guillaume Dufay, que definiram o estilo polifônico borgonhês; e uma indústria de manuscritos iluminados de luxo que produzia algumas das obras mais belas do gótico tardio. O fausto das festas borgonhesas, como o lendário Banquete do Faisão em 1454 — organizado ostensivamente para preparar uma cruzada contra os turcos que haviam tomado Constantinopla —, tornou-se modelo para as cortes europeias nos séculos seguintes.
O epíteto "o Bom" que a tradição atribuiu a Filipe é, no mínimo, equívoco. Seu governo enfrentou rebeliões urbanas severas, como as de Bruges entre 1436 e 1438 e a de Gante entre 1449 e 1453, que ele suprimiu com punições exemplares. Sua vida pessoal foi marcada por inúmeras amantes e filhos bastardos — estima-se mais de vinte descendentes ilegítimos. Isabel de Portugal, sua terceira esposa, provou-se uma companheira política hábil e uma gestora eficaz dos domínios borgonheses, destacando-se na corte que seria considerada a mais rica e refinada da Europa.
Nos últimos anos de vida, a saúde de Filipe deteriorou-se progressivamente, e seu filho Carlos — que ficaria na história como Carlos o Temerário — foi assumindo as responsabilidades do governo. Filipe morreu em Bruges em 15 de junho de 1467, deixando para o filho um Estado vastíssimo, próspero e culturalmente brilhante, mas geopoliticamente instável: uma potência interposta entre a França e o Sacro Império Romano-Germânico, sem a coesão dinástica que um reino unificado teria. Carlos o Temerário sonharia em transformar essa herança num reino independente, mas morreria em combate em 1477 sem concretizar o projeto que o pai, com toda sua prudência, nunca ousara formalmente declarar.

