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Carlos I, Conde de Anjou

Filho de Branca de Castela e do rei Luís VIII da França

8 min de leitura01/01/2024
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Carlos nasceu em 1226 ou 1227, filho mais novo do rei Luís VIII da França e de Branca de Castela, e desde cedo seu destino parecia traçado não para o trono, mas para a Igreja. Os filhos mais novos das dinastias medievais frequentemente seguiam a carreira eclesiástica, e Carlos, batizado com o nome do imperador Carlos Magno numa novidade para os capetingos, cresceu sob a sombra de irmãos mais velhos que herdavam títulos, terras e responsabilidades políticas. Sua educação foi sólida, compreendendo as doutrinas católicas e o latim com uma proficiência que o cronista contemporâneo Mateus de Paris registrou em sua obra, mas o destino reservava a Carlos um caminho muito diferente do altar.

A virada em sua trajetória veio na década de 1240, quando sua participação nas campanhas militares dos irmãos tornou claro que ele havia abandonado qualquer perspectiva de carreira eclesiástica. Em maio de 1246, seu irmão, o rei Luís IX da França, o armou cavaleiro em Melun e três meses depois lhe concedeu os condados de Anjou e Maine como apanágio. Com territórios próprios e um título, Carlos entrava oficialmente no jogo político da Europa medieval com todas as ambições que um príncipe capetingo poderia acalentar.

O caminho para a Provença abriu-se por circunstâncias que misturavam morte, herança disputada e política papal. Raimundo Berengário IV da Provença morreu em agosto de 1245, deixando o condado para sua filha mais nova, Beatriz. Suas outras três filhas, que haviam contraído casamentos ilustres, acreditavam ter sido deserdadas, e suas pretensões geravam instabilidade na região. Carlos correu para Aix-en-Provence à frente de um exército para evitar que pretendentes rivais se apoderassem do condado, e em 31 de janeiro de 1246 casou-se com Beatriz, tornando-se assim Conde de Provença e Forcalquier. O casamento era ao mesmo tempo uma conquista militar e uma aliança política, pois o papa Inocêncio IV, buscando apoio contra o imperador Frederico II, havia dado sua bênção à união.

Carlos acompanhou seu irmão Luís IX na Sétima Cruzada ao Egito, uma experiência que o inseriu no contexto das grandes empresas militares cristãs do século XIII e aprofundou suas ambições além das fronteiras da França. Ao retornar à Provença, por volta de 1250, agiu com a determinação de quem pretendia construir um poder sólido e incontestável. Forçou três ricas cidades que mantinham autonomia — Marselha, Arles e Avinhão — a reconhecerem sua suserania, consolidando o controle sobre o território mediterrâneo que seria a base de lançamento para suas aspirações futuras.

Sua ambição não tinha fronteiras fáceis de definir. Em 1253, apoiou Margarida II, condessa de Flandres e Hainaut, em seu conflito com o filho mais velho, em troca da concessão do condado de Hainaut. Dois anos depois, cedeu às pressões de Luís IX e renunciou ao condado, mas foi compensado com uma indenização de 160 mil marcos, demonstrando uma habilidade para transformar renúncias políticas em ganhos materiais que caracterizaria toda a sua carreira. Enquanto isso, expandia sua influência em mais de uma dezena de cidades e senhorios no Reino de Arles, construindo uma rede de dependências que aumentava continuamente seu peso no xadrez político europeu.

O passo decisivo de sua carreira veio em 1263, quando, após anos de negociações, Carlos aceitou a oferta da Santa Sé de tomar o Reino da Sicília das mãos dos Hohenstaufens. O reino incluía não apenas a ilha da Sicília, mas também o sul da Itália até o norte de Nápoles, um vasto território conhecido simplesmente como "il Regno". O papa Urbano IV declarou uma cruzada contra o incumbente Manfredo da Sicília e ajudou Carlos a reunir recursos financeiros para a campanha, criando uma aliança entre o poder espiritual e o poder temporal que seria o sustento da empresa italiana.

Carlos foi coroado rei em Roma em 5 de janeiro de 1266. A campanha que se seguiu foi de uma eficácia devastadora. O exército de Manfredo foi aniquilado e o reino caiu nas mãos do novo rei quase sem resistência. Dois anos depois, em 1268, Carlos reforçou sua posição com a vitória sobre Conradino, jovem sobrinho do rei siciliano, na Batalha de Tagliacozzo. Essa segunda vitória eliminou a última ameaça dinástica imediata ao seu governo no sul da Itália, consolidando uma posição de poder sem igual entre os príncipes italianos.

As vitórias no sul tornaram Carlos o líder indiscutível dos guelfos, os partidários do papado na complexa política italiana, onde guelfos e gibelinos travavam conflitos que se entrelaçavam com as rivalidades locais e as ambições das potências externas. Sua força militar e influência política nos assuntos da Igreja perturbavam, contudo, os próprios papas que o haviam elevado. Os pontífices tentaram canalizar suas energias para outros territórios, ajudando-o a obter reivindicações sobre a Acaia, Jerusalém e Arles mediante tratados que ampliavam seu domínio nominal sem concentrar demasiado poder em um único ponto da Itália central.

Em 1270, Carlos participou da Oitava Cruzada organizada por Luís IX, e as circunstâncias da campanha voltaram-se a seu favor quando, após a morte de Luís durante o cerco de Túnis, o califa haféssida foi forçado a pagar um tributo anual ao rei de Nápoles e Sicília. Em 1272, foi proclamado rei da Albânia, acrescentando mais um título a uma coleção que já era extraordinária. Em 1277, iniciou uma reivindicação formal ao Reino de Jerusalém, estendendo suas pretensões até o Oriente.

O auge de suas ambições parecia estar prestes a se concretizar em 1281, quando o papa Martinho IV autorizou Carlos a lançar uma cruzada contra o Império Bizantino. Seus navios reuniram-se em Messina, preparados para uma campanha que poderia transformar Carlos no maior potentado do Mediterrâneo. Mas os acontecimentos tomaram um rumo que nenhum estratega poderia ter previsto. Em 30 de março de 1282, um motim eclodiu em Palermo, na véspera das festividades da Páscoa. O episódio ficaria conhecido como as Vésperas Sicilianas, um levante popular em que os habitantes da ilha massacraram soldados e funcionários franceses, expulsando a presença angevina da Sicília com uma violência que chocou a Europa.

As Vésperas Sicilianas marcaram o fim do domínio de Carlos sobre a ilha, mas não o fim de seu governo. Ele conseguiu defender os territórios continentais, o que viria a ser chamado de Reino de Nápoles, com o apoio da França e da Santa Sé, travando uma guerra prolongada para tentar reconquistar a Sicília. Essa guerra o consumiu nos últimos anos de sua vida, quando o jovem Filipe I de Aragão, que havia desembarcado na ilha em resposta ao convite dos revoltosos, passou a contrariar militarmente suas tentativas de retomada.

Carlos morreu em Foggia, em 7 de janeiro de 1285, enquanto ainda planejava a invasão da Sicília que nunca conseguiria concretizar. Sua trajetória havia abarcado um arco extraordinário: de jovem príncipe destinado à Igreja a fundador da Segunda Casa de Anjou, de cruzado a rei de múltiplos reinos, de líder dos guelfos italianos a aspirante ao trono byzantino. O fracasso final das Vésperas Sicilianas não apaga a escala de suas conquistas, mas serve como lembrete de que mesmo o poder mais vasto tem limites impostos pela vontade dos povos que se recusam a ser governados como objetos de conquista.

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