Jean Cabut nasceu em 13 de janeiro de 1938, em Châlons-en-Champagne, uma cidade no nordeste da França, e desde cedo demonstrou uma inclinação natural para o desenho e para a arte da caricatura. Ainda jovem, ele desenvolveu um traço singular, ao mesmo tempo simples e cortante, capaz de capturar a essência de uma pessoa ou de uma situação política com poucas linhas. Esse talento o conduziu a uma carreira que duraria mais de cinco décadas, tornando-o uma das vozes visuais mais reconhecíveis da imprensa satírica francesa.
Profissionalmente, Cabu — como ficou universalmente conhecido — construiu sua reputação ao longo dos anos colaborando com publicações que faziam da irreverência e da crítica política sua razão de ser. Tornou-se um dos pilares do semanário satírico Charlie Hebdo, uma revista que desafiava tabus, ironizava poderosos e recusava qualquer forma de autocensura. Para Cabu, o lápis era uma arma de resistência cultural, um instrumento de questionamento permanente da autoridade e da hipocrisia social.
Sua criação mais emblemática foi a série de histórias em quadrinhos Le Grand Duduche, cujo primeiro álbum foi lançado em 1972 pela editora Dargaud. O personagem, um adolescente desengonçado, ingênuo e frequentemente perdido diante das convenções do mundo adulto, tornou-se um símbolo da geração jovem francesa dos anos 1970. Duduche não era um herói convencional; ele era um observador desconcertado da realidade, exatamente como o próprio Cabu encarava a sociedade que o cercava.
Ao longo dos anos, a série reuniu múltiplos volumes: Duduche foi para as férias, disputou o bac, enfrentou a moda, a escola e os adultos ao redor. Cabu criou também outros personagens memoráveis, como Mon Beauf, uma caricatura do francês médio conservador e preconceituoso, que se tornou um retrato impiedoso da mediocridade burguesa. Personagens como a Catherinha e o Inspetor la Bavure completavam um universo criativo coerente, marcado pela ironia fina e pelo humanismo subjacente.
Além das histórias em quadrinhos, Cabu deixou centenas de caricaturas políticas que documentam décadas da história francesa, da era Pompidou ao governo Chirac, passando por Jospin e pelas transformações da esquerda francesa. Suas caricaturas de figuras como Jacques Chirac e Lionel Jospin, reunidas em álbuns publicados pela Albin Michel nos anos 1990, revelam um artista comprometido com o debate público, mas nunca panfletário. Havia sempre uma dose de ternura mesmo em seus retratos mais corrosivos.
Na vida pessoal, Cabu foi pai do cantor Mano Solo, nascido em 1963 e falecido em 2010, que herdou algo da sensibilidade artística do pai, embora tenha escolhido a música como forma de expressão. A perda do filho marcou profundamente os últimos anos de Cabu, mas não o afastou do trabalho criativo nem das reuniões de redação do Charlie Hebdo, onde continuava a ser uma presença essencial.
Em 7 de janeiro de 2015, onze pessoas foram assassinadas dentro da sede do Charlie Hebdo em Paris, em um ataque terrorista que chocou a França e o mundo inteiro. Cabu estava entre as vítimas, morto poucos dias antes de completar 77 anos. Junto com ele perderam a vida outros cartunistas e colaboradores da publicação, entre eles Charb, Wolinski e Tignous, figuras igualmente centrais da tradição satírica francesa.
A repercussão do massacre foi imediata e global. Nos dias seguintes, manifestações de solidariedade eclodiram em dezenas de países, com milhões de pessoas carregando cartazes com a frase "Je suis Charlie" — uma declaração de identidade com os valores de liberdade de expressão que aqueles profissionais defendiam. Em Paris, uma marcha reuniu cerca de um milhão e meio de pessoas nas ruas, em um dos maiores eventos públicos da história recente do país.
O legado de Cabu vai além da tragédia que encerrou sua vida. Ele representa uma tradição francesa de sátira política que remonta ao século XVIII, uma arte de dizer verdades incômodas sob o disfarce do humor. Seu traço inconfundível, seus personagens populares e sua recusa em se calar diante dos poderosos fizeram dele um símbolo não apenas da liberdade de imprensa, mas da coragem de continuar desenhando mesmo quando o mundo ao redor se tornava mais perigoso. A história de Cabu é, em última análise, a história de um artista que acreditou que o riso e o lápis podiam ser mais fortes do que o medo.