Uagadugu, capital de Burquina Fasso, é uma cidade localizada no coração da África Ocidental, em um país que historicamente viveu ciclos alternados de regimes civis e golpes militares desde a independência da França em 1960. No início de 2016, o país atravessava um momento de transição política sensível: o presidente de longa data Blaise Compaoré havia sido derrubado por uma insurreição popular em outubro de 2014, e um governo de transição preparava eleições democráticas. Era nesse contexto de fragilidade institucional que, na noite de 15 de janeiro de 2016, um grupo de homens fortemente armados tomou de assalto o restaurante Cappuccino, localizado no interior do Hotel Splendid, no coração do centro comercial de Uagadugu.
O ataque foi planejado e executado com uma coordenação que revelava preparo militar. Os assaltantes entraram no estabelecimento armados e fizeram dezenas de pessoas reféns, desencadeando pânico no entorno imediato. A área ao redor do Hotel Splendid, que é frequentada por estrangeiros, empresários e membros da elite local, foi rapidamente isolada pelas forças de segurança burquinabesas. Intensos tiroteios foram travados entre os terroristas entrincheirados e os agentes governamentais que cercavam o perímetro. Ataques simultâneos a outros pontos da cidade, incluindo o hotel YIBI, foram reportados ao longo da mesma noite, indicando que a operação não se limitava a um único alvo.
O saldo de mortos foi crescendo ao longo das horas. Ao final das primeiras vinte e quatro horas de violência, pelo menos 23 pessoas haviam sido mortas, pertencentes a 18 nacionalidades diferentes — o que evidenciava que Uagadugu é ponto de passagem e residência de muitos expatriados, diplomatas e trabalhadores de organizações internacionais. No dia seguinte, o número de vítimas fatais saltou para 30. Outras vinte pessoas foram feridas. Aproximadamente 176 reféns que haviam sido capturados durante a invasão inicial foram progressivamente libertados pelas forças policiais de Uagadugu ao longo do cerco, que foi declarado oficialmente encerrado em 16 de janeiro.
A gestão da crise pelas forças de segurança burquinabesas foi assistida por elementos externos. Ao menos quatro terroristas foram mortos durante os confrontos. A identidade dos responsáveis pelos ataques não demorou a ser atribuída: as autoridades locais apontaram para a Al-Qaeda no Magrebe Islâmico, conhecida pela sigla AQMI, como organização por trás da operação. A AQMI é um grupo jihadista de origem argelina, afiliado à Al-Qaeda central, que desde os anos 2000 expandiu suas operações para o Sahel africano, explorando as fragilidades estatais dos países da região para recrutar, financiar-se e realizar ataques de grande visibilidade.
O atentado em Uagadugu chegou num momento em que o Sahel se tornava progressivamente o epicentro do jihadismo na África. Mali, Níger, Burkina Fasso e Chade enfrentavam pressão crescente de grupos armados que misturavam motivações religiosas com disputas étnicas, tráfico de armas e influência sobre rotas de contrabando. O ataque ao Hotel Splendid foi comparado a ataques similares perpetrados em Bamako, no Mali, e em Grand-Bassam, na Costa do Marfim, nos meses seguintes, sugerindo uma estratégia regional coordenada de atingir alvos simbólicos frequentados por ocidentais e pela elite local para maximizar o impacto midiático e a pressão sobre governos frágeis.
A repercussão internacional foi imediata. Vários países condenaram os ataques em declarações oficiais, e parceiros internacionais de Burquina Fasso, tanto ocidentais quanto africanos, expressaram solidariedade ao governo e à população do país. Para Uagadugu e para todo o Sahel, o atentado de janeiro de 2016 marcou um ponto de inflexão: a ameaça jihadista, que por anos parecia confinada às regiões desérticas do norte, havia chegado ao coração das cidades. Nos anos seguintes, Burquina Fasso mergulharia em uma espiral de violência que culminaria em novos golpes de Estado e na presença cada vez mais intensa de grupos armados em partes crescentes do território nacional, confirmando os temores que aquela noite de janeiro havia acendido.

