Anna Marguerite McCann nasceu em 11 de maio de 1933 e dedicou sua vida inteira ao estudo do mundo antigo por meio de uma disciplina que, quando ela iniciou sua carreira, mal havia se formado como campo acadêmico reconhecido: a arqueologia subaquática. Quando mergulhou pela primeira vez no início dos anos 1960, o fundo dos mares ainda era um território quase inexplorado pela ciência, dominado por aventureiros e pela novidade tecnológica dos equipamentos de mergulho que começavam a se tornar acessíveis. McCann transformaria esse território em ciência.
Sua formação foi rigorosa e diversificada. Estudou no Rye Country Day School, em Nova York, e em 1954 concluiu a graduação em história da arte com especialização em Grego Clássico no Wellesley College. Dali, uma bolsa Fulbright a levou à Escola Americana de Estudos Clássicos em Atenas, primeiro contato com o ambiente mediterrâneo que dominaria sua pesquisa pelo resto da vida. Completou o mestrado em 1957 na Universidade de Nova York com uma tese sobre escultura romana em relevos históricos, e em 1965 obteve o doutorado na Universidade de Indiana, especializando-se em história da arte e estudos clássicos.
Entre 1964 e 1966, foi professora-visitante com o Rome Prize da Academia Americana em Roma, onde expandiu sua pesquisa de mestrado para produzir "The Portraits of Septimius Severus, A.D. 193–211", obra que décadas depois ainda seria reconhecida por seus colegas como o trabalho acadêmico definitivo sobre o retrato daquele imperador. Roma não era apenas um símbolo: era o centro de onde irradiava o interesse arqueológico que guiaria suas expedições subaquáticas, pois eram navios romanos que jaziam no fundo do Mediterrâneo aguardando alguém com coragem e conhecimento suficientes para estudá-los.
A grande aventura arqueológica de McCann começou no início dos anos 1960, quando ela começou a mergulhar com o oceanógrafo Jacques Cousteau, explorando naufrágios romanos antigos próximos a Marselha. A arqueologia subaquática era então uma nova disciplina, dominada quase inteiramente por homens, e a presença de uma jovem pesquisadora americana naquele ambiente era, no mínimo, incomum. Entre 1961 e 1962, ela foi ainda mais longe ao escavar o naufrágio de Yassi Ada, datado do século VII, em Bodrum, na Turquia, em colaboração com a National Geographic Society e a Universidade da Pensilvânia, tornando-se pioneira e a primeira mulher norte-americana nessa área.
A carreira acadêmica convencional correu em paralelo com as expedições de campo. McCann ensinou na Universidade de Missouri entre 1966 e 1971, depois na Universidade da Califórnia em Berkeley até 1974, quando se juntou à equipe curatorial do Museu Metropolitano de Arte em Nova York. Ali conduziu programas de palestras e publicou "Roman Sarcophagi in the Metropolitan Museum of Art", obra premiada pela Associação Americana de Editoras Universitárias e reconhecida como excelente pela Biblioteca Thomas J. Watson em 1978. Suas escavações em Cosa, colônia latina na Toscana, realizadas entre 1965 e 1987, resultaram no trabalho colaborativo "The Roman Port and Fishery of Cosa: A Center of Ancient Trade", publicado em 1987, que também recebeu o prêmio da Associação Americana de Editoras Universitárias.
Em 1985, McCann fundou a Comissão de Arqueologia Subaquática do Instituto Arqueológico da América, do qual era membro do Conselho de Curadores. Quatro anos depois, em 1989, tornou-se diretora arqueológica do Projeto JASON, parceria com o oceanógrafo Robert Ballard para o levantamento de naufrágios no Banco Skerki, no Estreito da Sicília, em profundidades inéditas para a arqueologia da época. Em 1994, publicou o que é considerado a primeira pesquisa detalhada de arqueologia realizada em águas profundas, resultado direto dessas expedições. Em 1997, ela e Ballard retornaram ao Banco Skerki e descobriram mais naufrágios, ampliando o corpus de conhecimento sobre as rotas comerciais do Mediterrâneo antigo.
A Medalha de Ouro do Instituto Arqueológico da América, recebida em 1998, coroou décadas de contribuições que haviam expandido as fronteiras do conhecimento arqueológico para o fundo do mar. Depois, McCann lecionou na Universidade de Boston entre 1997 e 2001 e foi pesquisadora visitante no Instituto de Tecnologia de Massachusetts de 2001 a 2007. Em sua vida pessoal, casou-se em 1973 com seu amigo de infância Robert Dorsett Taggart, e os dois dividiram o tempo entre Nova York e sua fazenda em Pawlet, Vermont.
Anna Marguerite McCann faleceu em 12 de fevereiro de 2017. Seu legado é o de uma mulher que entrou em um mundo dominado por homens e por convenções, mergulhou fundo — literal e figurativamente — e trouxe à superfície não apenas artefatos, mas uma disciplina inteira. O que hoje é arqueologia subaquática deve muito à coragem e ao rigor intelectual de uma pesquisadora que nunca considerou as profundezas do mar como obstáculo, mas como extensão natural do conhecimento humano sobre o passado.


