José Tomás de Sousa Martins é uma das figuras mais singulares da história da medicina portuguesa e, possivelmente, uma das personalidades que mais profundamente marcou o imaginário popular do país. Sua trajetória vai do humilde interior do Ribatejo às cátedras da mais importante escola médica de Lisboa, passando por um caminho de esforço, talento e determinação que ainda hoje inspira.
Nasceu em 7 de março de 1843, em Alhandra, pequena vila situada na zona ribeirinha de Vila Franca de Xira. Os pais — Caetano Martins, carpinteiro, e Maria das Dores de Sousa Martins, doméstica — viviam de recursos escassos, situação que se agravou quando o menino ficou órfão de pai aos sete anos. A pobreza não era, contudo, obstáculo intransponível para quem tinha determinação e contasse com o apoio certo. Completou o ensino primário em Alhandra, o único nível de instrução então disponível naquela localidade.
Aos doze anos, por orientação da mãe, partiu para Lisboa. Um tio materno, Lázaro Joaquim de Sousa Pereira, trabalhava como farmacêutico e era proprietário da Farmácia Ultramarina, na Rua de São Paulo. Instalado na casa do tio, o jovem Sousa Martins conciliou os estudos no Liceu Nacional de Lisboa com o trabalho de aprendiz na farmácia. Em 1 de abril de 1856, iniciou oficialmente as funções de praticante de botica, adquirindo habilidade na manipulação de produtos naturais que se revelaria fundamental em sua formação médica posterior.
A trajetória acadêmica foi notável tanto pela velocidade quanto pelo desempenho. Concluídos os preparatórios na Escola Politécnica de Lisboa em 1861, ingressou no curso de Medicina da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, instituição que seria a antecessora tanto da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa quanto da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. Cursou simultaneamente Farmácia, obtendo essa graduação em 1864, aos vinte e um anos, com excelente classificação.
Apenas dois anos depois, em 1866, aos vinte e três anos, conquista o diploma de Medicina. A tese de licenciatura — intitulada O Pneumogástrico Preside à Tonicidade da Fibra Muscular do Coração — já revelava o interesse por questões fisiológicas complexas e a disposição para o trabalho científico rigoroso. A formação simultânea em duas áreas das ciências da saúde e a rapidez com que concluiu os dois cursos eram marcas de uma inteligência fora do comum.
Tornou-se professor catedrático da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, posição que ocupou durante décadas e da qual exerceu influência decisiva sobre gerações de médicos portugueses. Paralelamente ao ensino, dedicou grande parte de sua vida ao combate à tuberculose, doença que assolava Portugal e grande parte da Europa no século XIX. Atendia os doentes muitas vezes de forma gratuita, revelando um compromisso com a medicina que transcendia os interesses financeiros.
A personalidade de Sousa Martins era tão marcante quanto sua capacidade intelectual. Orador talentoso, dotado de humor vivo e inteligência reconhecida por todos os que o conheceram, exerceu uma influência que ultrapassou os limites formais do consultório e da cátedra. Em 13 de julho de 1864, foi eleito sócio efetivo da Sociedade Farmacêutica Lusitana; mais tarde, tornou-se sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa, reconhecimento formal de uma contribuição científica de primeira grandeza.
Faleceu em 18 de agosto de 1897, em Alhandra, a mesma cidade que o vira nascer e partir para Lisboa décadas antes. Tinha cinquenta e quatro anos. A morte de Sousa Martins foi sentida como uma perda pública em Portugal, e o que aconteceu depois é um fenômeno de difícil explicação racional, mas de enorme significado cultural.
Sua figura assumiu contornos de santo laico. Um culto informal — e extremamente vivo — desenvolveu-se em torno de sua memória. A estátua erigida no Campo dos Mártires da Pátria, em Lisboa, em frente à sede da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, acumula permanentemente ex-votos: flores, fotografias, mensagens escritas à mão e objetos pessoais deixados por pessoas que lhe pedem graças para doenças, problemas de saúde e outras aflições. O mesmo fenômeno ocorre no cemitério de Alhandra.
O culto a Sousa Martins não é promovido pela Igreja Católica e não tem amparo em qualquer canonização formal. É uma expressão espontânea de devoção popular que se perpetuou e cresceu ao longo do século XX, atravessando gerações sem perder força. Esse fenômeno transforma Sousa Martins em algo mais do que um médico ilustre: ele representa, para os portugueses, a figura do homem que dedicou a vida a curar os outros sem distinção de classe ou condição, e cuja memória continua sendo convocada nas horas de maior vulnerabilidade humana.

