Públio Sétimo Geta foi um dos imperadores romanos mais infelizes que a história registra — não por incompetência ou crueldade, mas por ter nascido no momento e no lugar errados, ao lado do irmão errado. Sua trajetória, do nascimento augusto ao assassinato brutal, condensa em poucos anos uma das histórias mais dramáticas da dinastia Severa.
Nasceu em 7 de março de 189, filho do imperador Septímio Severo e de sua segunda esposa, Júlia Domna, síria de grande cultura e influência política. Naquele momento, o pai ainda atuava como governador provincial sob o reinado de Cômodo, mas a ascensão ao poder supremo estava próxima. À medida que Septímio Severo consolidou sua posição como imperador, os filhos foram gradualmente integrados à estrutura do governo imperial, sendo preparados para dar continuidade à dinastia.
O irmão mais velho, Caracala, recebeu o título de César em 196 e o de Augusto em 198. Geta, por sua vez, foi designado César também em 198, ocupando posição formal dentro da hierarquia imperial desde a infância. A propaganda oficial insistia na imagem de uma família coesa e unida no exercício do poder, com os irmãos dividindo responsabilidades complementares: Caracala nas operações militares, Geta nas funções administrativas e burocráticas.
A realidade, porém, era radicalmente diferente. A antipatia entre os dois irmãos era profunda e crescente desde cedo, alimentada por ciúmes, disputas de prestígio e temperamentos opostos. A morte do pai, ocorrida em 211 em Ebóraco, na Grã-Bretanha, onde o exército imperial conduzia uma campanha, agravou o problema ao retirar o único árbitro de autoridade suficiente para conter a hostilidade mútua. Caracala e Geta foram proclamados imperadores conjuntos e retornaram juntos a Roma.
O governo conjunto que se seguiu foi um espetáculo de disfunção política. O Palácio Imperial foi fisicamente dividido em duas seções separadas, com serviçais distintos para cada imperador. Os irmãos se recusavam a sequer se hospedar sob o mesmo teto durante a viagem de volta da Grã-Bretanha ou a compartilhar uma refeição. Quando precisavam se encontrar, faziam-no apenas na presença de Júlia Domna e sempre com escolta militar reforçada, vivendo em mútua desconfiança e temendo atentados.
O historiador Herodiano registrou que os dois imperadores chegaram a discutir seriamente a divisão do Império Romano em duas metades, com cada um governando sua parte separadamente. Júlia Domna opôs-se com firmeza à ideia, argumentando que era mais fácil dividir o império do que dividir a própria mãe — epísódio revelador tanto da gravidade da ruptura quanto do papel central que ela desempenhava como único elo entre os filhos.
Caracala agiu primeiro. Em 17 de dezembro de 211, durante as festividades do Saturnália, tentou assassinar Geta, mas fracassou. Dias depois, em 26 de dezembro do mesmo ano, tramou com mais cuidado. Convenceu a mãe a organizar um encontro de aparente reconciliação em seus próprios aposentos. Geta compareceu sem a guarda-costas, acreditando estar em ambiente seguro. Soldados enviados por Caracala entraram e o assassinaram nos braços de Júlia Domna, que ficou ferida na mão ao tentar proteger o filho.
O que se seguiu foi uma das mais violentas perseguições post mortem da história romana. Caracala ordenou a damnatio memoriae de Geta, condenação da memória que implicava a erradicação sistemática de seu nome, imagem e existência dos registros oficiais. A execução foi meticulosa a ponto de ser impressionante: inscrições foram raspadas, rostos esculpidos foram desfigurados, moedas foram retiradas de circulação. O historiador Cassius Dio estimou que cerca de 20.000 pessoas ligadas a Geta foram perseguidas e mortas nos meses seguintes.
A damnatio memoriae de Geta é, paradoxalmente, um dos motivos pelos quais sua história é tão bem documentada. Os arqueólogos identificaram dezenas de artefatos com as marcas da apagação sistemática — retratos imperiais adulterados, papiros com passagens riscadas, placas com nomes parcialmente destruídos. Cada rastro da tentativa de apagar Geta é, na verdade, uma prova de sua existência e de que alguém se esforçou muito para que ele fosse esquecido. Morreu aos vinte e dois anos, tendo sido imperador por menos de um ano.
