Na manhã de 24 de janeiro de 2024, por volta das 11 horas e 15 minutos no horário de Moscou, um avião de transporte militar Ilyushin Il-76 da Força Aérea Russa caiu num campo próximo à localidade de Yablonovo, no distrito de Korochansky, no Oblast de Belgorod, região da Rússia que faz fronteira com a Ucrânia. Todos os que estavam a bordo morreram. O acidente, ocorrido no contexto da invasão russa da Ucrânia iniciada em 2022, rapidamente se transformou numa disputa de narrativas entre Moscou e Kiev, cada lado apontando o dedo em direção ao outro numa tragédia cujas circunstâncias reais permaneceram obscuras por longo tempo.
O pano de fundo do acidente é o conflito devastador que já consumia a vida de dezenas de milhares de pessoas. A sede de coordenação ucraniana sobre o tratamento de prisioneiros de guerra estimava que mais de 8 mil civis e militares ucranianos estavam mantidos cativos pela Rússia desde o início da invasão, com dezenas de milhares ainda desaparecidos. Apenas dias antes do desastre, em 3 de janeiro de 2024, havia sido realizada a maior troca de prisioneiros do conflito até então: a Ucrânia devolveu 248 prisioneiros russos e recebeu de volta 230 de seus cidadãos, num acordo mediado pelos Emirados Árabes Unidos.
A aeronave acidentada era um Ilyushin Il-76, avião polivalente de transporte militar com versão para tropas, equipamentos e munições. O Ministério da Defesa russo afirmou que a bordo estavam 65 prisioneiros de guerra ucranianos que seriam trocados, seis tripulantes e três guardas. Segundo as autoridades russas, o voo havia partido da Base Aérea de Chkalovsky, próxima a Moscou, e tinha como destino a passagem de fronteira de Kolotilovka, a cerca de 100 quilômetros a oeste de Belgorod, onde a troca ocorreria.
Pouco antes da queda, o governador do Oblast de Belgorod, Vyacheslav Gladkov, havia emitido um alerta de mísseis para a região e pedido que os moradores se abrigassem. Os sistemas de defesa aérea russos foram ativados por volta das 10 horas e 35 minutos, horário local, e um drone teria sido abatido na aldeia de Blizhne, a 60 quilômetros a sudoeste do local do acidente. Victor Brugarev, ex-comandante das forças aeroespaciais russas, afirmou que a tripulação reportou um impacto externo antes da queda.
A reação do governo russo foi imediata e acusatória. O Ministério das Relações Exteriores chamou o abatimento da aeronave de ato bárbaro da Ucrânia, sugerindo que mísseis do tipo Patriot ou IRIS teriam sido usados. O ministro Sergey Lavrov classificou o evento como ato criminoso e convocou uma sessão urgente do Conselho de Segurança das Nações Unidas para o dia seguinte, 25 de janeiro. O presidente da Duma Federal, Vyacheslav Volodin, foi além e anunciou que o parlamento enviaria comunicados formais ao Congresso norte-americano e ao Bundestag alemão exigindo reconhecimento de responsabilidade.
A Ucrânia, por sua vez, apresentou uma versão completamente distinta. A Diretoria Principal de Inteligência ucraniana, conhecida pela sigla HUR, afirmou que seus homólogos russos não os informaram previamente sobre a necessidade de garantir a segurança do espaço aéreo da região, contrariando as práticas adotadas em trocas anteriores. Fontes do Estado-Maior ucraniano chegaram a indicar inicialmente que a aeronave transportava mísseis S-300, sugerindo que teria sido abatida por forças ucranianas, mas essa informação foi posteriormente retificada para afirmar que não indicava envolvimento direto de Kiev.
A HUR levantou ainda a hipótese de que o avião poderia ter sido atingido por fogo amigo das próprias defesas aéreas russas enquanto tentavam interceptar um drone. Também afirmou ter recebido informações de que altos escalões militares e políticos russos que deveriam estar a bordo foram instruídos pelo Serviço Federal de Segurança a usar outros meios de transporte. A agência ucraniana ainda acusou a Rússia de usar possivelmente os prisioneiros de guerra como escudos humanos para o transporte de armamentos.
O acidente expôs a complexidade moral de um conflito em que até os mecanismos humanitários se tornaram campo de batalha narrativa. Se os prisioneiros de guerra ucranianos realmente estavam a bordo, sua morte representou uma tragédia dentro da tragédia. As famílias dos soldados cativos, que aguardavam notícias de seus entes queridos, viram-se diante de uma incerteza cruel: seus filhos e pais poderiam ter morrido naquele campo gelado de Belgorod, sem que jamais se soubesse com certeza quem disparou o primeiro projétil ou se havia outros que poderiam ter sido salvos.
O episódio ressaltou a necessidade urgente de mecanismos de comunicação e proteção para voos humanitários em zonas de conflito, uma lição amarga colhida ao custo de vidas cujo número exato, como tantas outras coisas nessa guerra, permanece envolto em névoa de disputas e contradições.