brasil

Revolta da Vacina

Rebelião civil-militar em 1904, Rio de Janeiro

7 min01/01/2024
Anúncio

Em novembro de 1904, o Rio de Janeiro, então capital de uma república com apenas quinze anos de existência, irrompeu em revolta. Nas ruas da cidade, barricadas foram erguidas, bondes tombados, pedras arrancadas do calçamento e disparos trocados com a polícia. O estopim imediato foi uma lei que tornava obrigatória a vacinação contra a varíola, mas o que explodiu naqueles dias agitados era uma tensão muito mais profunda, acumulada há anos nos porões de uma modernização que modernizava a cidade sem modernizar a vida de seus habitantes mais pobres.

O Rio de Janeiro que chegou ao início do século XX era uma cidade em contradição consigo mesma. A capital da República exibia uma fachada de civilização europeia nas suas largas avenidas e nos seus palacetes neoclássicos, mas escondia nos cortiços do centro e nos morros ao redor uma massa de população que havia crescido com velocidade impressionante: de 522.651 habitantes em 1890 para 811.444 em 1906. Essa explosão demográfica foi alimentada por dois fluxos simultâneos — a chegada de imigrantes europeus e a migração de ex-escravizados e trabalhadores expulsos das zonas cafeeiras em decadência. Todos precisavam morar em algum lugar, e os lugares que encontraram foram os velhos casarões imperiais repartidos em cubículos alugados por paredes inteiras de famílias.

As condições sanitárias dos cortiços eram calamitosas. A varíola, a febre amarela e a peste bubônica grassavam especialmente nas regiões mais pobres, conferindo ao Rio a sinistra reputação de cidade empesteada que afastava investimentos e viajantes estrangeiros. Quando Rodrigues Alves assumiu a presidência em novembro de 1902, declarou publicamente que os problemas da capital prejudicavam o desenvolvimento nacional e elegeu o saneamento como prioridade máxima de seu governo.

Para executar a transformação, Rodrigues Alves designou três homens. Ao engenheiro Francisco Pereira Passos, nomeado prefeito do Distrito Federal, coube reformar a estrutura urbana da cidade: ruas foram alargadas, cortiços demolidos, morros parcialmente removidos, uma nova avenida rasgou o centro da cidade de ponta a ponta. Ao ministro Lauro Müller foi confiada a modernização do porto. Ao médico Oswaldo Cruz, que assumiu a Diretoria Geral de Saúde Pública em 1903, coube a missão mais ambiciosa de todas: erradicar a febre amarela, a peste bubônica e a varíola da capital federal.

A campanha de Oswaldo Cruz foi eficaz mas autoritária. Brigadas sanitárias invadiam casas para desinfetar ambientes, agentes destruíam focos de mosquito, vacinas eram aplicadas de forma compulsória. A população pobre, que já havia sido expulsa de seus cortiços pelas obras de Pereira Passos e que via na ação do Estado a continuidade de décadas de violência institucional, reagia com crescente hostilidade. Quando, em junho de 1904, o governo propôs a lei de vacinação obrigatória, o debate nos jornais e no Congresso foi explosivo, mas a lei acabou aprovada em 31 de outubro.

O estopim chegou em 9 de novembro de 1904, quando o jornal A Notícia publicou um projeto de regulamentação da lei. O documento exigia comprovantes de vacinação para matrícula escolar, obtenção de empregos, viagens, hospedagens e até casamentos. Previa multas severas para os recalcitrantes. A notícia foi o rastilho numa polvorinha que já estava pronta para explodir. Na noite do dia 9, começaram as primeiras manifestações; ao longo dos dias seguintes, a revolta cresceu e se alastrou por vários bairros.

O conflito entre 10 e 16 de novembro foi intenso. Barricadas bloquearam ruas, bondes foram destruídos, disparos foram trocados. Um grupo de militares florianistas e positivistas tentou aproveitar o caos popular para dar um golpe de Estado na madrugada de 14 para 15 de novembro, mas a tentativa foi derrotada pelas forças governamentais. No dia 16, o presidente Rodrigues Alves decretou estado de sítio e suspendeu a vacinação obrigatória. A revolta perdeu seu principal combustível e foi se dissipando.

O saldo foi pesado. Trinta pessoas morreram, 110 ficaram feridas. Cerca de 945 pessoas foram presas na Ilha das Cobras, e 461 foram deportadas para o distante estado do Acre — uma punição que mostrava o caráter deliberadamente brutal da repressão, enviando cidadãos para uma fronteira ainda pouco desbravada como forma de expurgo social. A vacinação obrigatória foi restabelecida no ano seguinte e a campanha sanitária continuou, mas o episódio deixou uma ferida que demorou décadas para cicatrizar na memória carioca.

A Revolta da Vacina revelou as contradições de uma modernização que transformava a cidade física sem transformar as relações de poder. Pereira Passos demoliu os cortiços mas não construiu habitações populares; os moradores expulsos subiram os morros e fundaram as favelas que definem o Rio até hoje. Oswaldo Cruz combateu as doenças com métodos eficazes mas sem nenhuma consideração pela autonomia corporal dos mais pobres. A República proclamada em 1889 ainda não havia aprendido que modernizar um país exige não apenas obras e vacinas, mas o consentimento e a dignidade dos que as recebem.

Anúncio
Anúncio

Coming soon to the World in Stories app

Audio, offline download, no ads and more.

Learn about Premium

Related Stories