Na imensidão árida da caatinga nordestina, entre pedras que parecem guardadas pelo sol e vegetação que sobrevive ao impossível, floresceu por mais de um século um fenômeno que misturava brutalidade e fascínio, violência e uma estranha forma de justiça poética. O cangaço foi muito mais do que banditismo: foi uma resposta armada às condições específicas do sertão nordestino, ao coronelismo, à seca endêmica, à ausência do Estado e à concentração de terra e poder nas mãos de poucos. Seus protagonistas, os cangaceiros, tornaram-se personagens mitológicos da cultura popular brasileira.
As raízes do cangaço mergulham na história colonial do Nordeste. Na economia pecuarista do século XVII, especialmente no vale do Rio São Francisco na Bahia, havia vaqueiros armados encarregados de proteger fazendas e rebanhos. Esses homens, trajando couro da cabeça aos pés para se proteger dos espinhos da caatinga, são considerados os primeiros jagunços do sertão — um ancestral direto do cangaceiro que viria séculos depois. A própria palavra "cangaceiro" já circulava em meados do século XIX: por volta de 1834, o termo designava os bandos de camponeses pobres que habitavam o interior nordestino, armados de carabinas, espingardas, revólveres e peixeiras, vivendo fora da lei estabelecida pelos grandes proprietários.
O termo "cangaço" vem de "canga", a peça de madeira que prende os bois ao arado — uma metáfora que os próprios sertanejos usavam para descrever o peso das obrigações sociais e econômicas que oprimiam o pobre do campo. Os que rompiam essa canga, que saíam da estrutura de servidão ao coronel para viver pela própria força, eram os cangaceiros. A palavra carregava inicialmente um sentido pejorativo — designava quem não conseguia se adaptar à vida "civilizada" do litoral —, mas foi gradualmente reapropriada como insígnia de bravura e autonomia.
O primeiro bando registrado pela história foi o de Jesuíno Brilhante, que atuou por volta de 1870 entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba, embora alguns historiadores atribuam a Lucas Evangelista a formação do primeiro grupo característico do cangaço, nos arredores de Feira de Santana, em 1828. Ao longo do século XIX e início do XX, o cangaço se estruturou em três modalidades distintas: os cangaceiros a serviço dos latifundiários, que funcionavam como braço armado dos coronéis; os que expressavam o poder dos grandes fazendeiros como sinal de prestígio; e os independentes, que agiam por conta própria, atacando e fugindo pela caatinga com uma mobilidade que as forças policiais raramente conseguiam igualar.
O maior de todos foi Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, também chamado de Rei do Cangaço e Senhor do Sertão. Atuou nas décadas de 1920 e 1930 em praticamente todos os estados do Nordeste, tornando-se uma figura que a elite republicana detestava e parte da população pobre admirava com uma devoção próxima do culto. Lampião conheceu em Santa Brígida, na Bahia, Maria Gomes de Oliveira, então casada com um sapateiro, que se tornaria sua companheira inseparável como Maria Bonita — a primeira mulher a integrar plenamente as fileiras de um bando cangaceiro.
O cangaço chegou ao fim por decreto. Getúlio Vargas, que assumiu o poder em 1930 e consolidou sua ditadura com o Estado Novo em 1937, incluiu os cangaceiros na categoria de extremistas e subversivos da ordem nacional. A sentença era a morte ou a rendição. Em 28 de julho de 1938, na localidade de Angico, no estado de Sergipe, Lampião foi cercado em uma emboscada preparada pela polícia com base em informações de um delator chamado Pedro de Cândida. Na ofensiva, onze membros do bando foram mortos: Lampião, Maria Bonita, Luís Pedro, Mergulhão, Enedina, Elétrico, Quinta-Feira, Moeda, Alecrim, Colchete e Macela.
Os cangaceiros foram degolados e suas cabeças preservadas em aguardente e cal, exibidas por todo o Nordeste para demonstrar que o Estado havia triunfado. O último chefe famoso, Corisco, foi morto em 25 de maio de 1940. O impacto da morte de Lampião foi tão avassalador que os líderes dos demais bandos foram se entregando às autoridades. O cangaço, como fenômeno organizado, deixou de existir.
O legado do cangaço na cultura brasileira é imenso e persistente. Lampião tornou-se personagem de cordéis, filmes, músicas, quadrinhos, peças de teatro e obras de arte. Sua imagem — o chapéu de couro adornado de estrelas e medalhas, a estrela de couro, o gibão cravejado — é imediatamente reconhecida em qualquer canto do Brasil. O cangaço continua sendo lido como símbolo de resistência popular, de uma justiça que o Estado nunca proveu, de homens que escolheram a liberdade violenta da caatinga à servidão pacífica do latifúndio.

