Na história do esporte brasileiro, poucos nomes transitaram com tanta naturalidade entre a grandeza da quadra e os bastidores dos clubes como Paulo Roberto de Freitas, o Bebeto de Freitas. Nascido no Rio de Janeiro em 16 de janeiro de 1950, ele foi ao mesmo tempo atleta olímpico, treinador revolucionário e gestor incansável, construindo ao longo de seis décadas uma carreira que deixou marcas profundas no voleibol e no futebol do país. Sua morte precoce, em 13 de março de 2018, aos 68 anos, surpreendeu o mundo esportivo e encerrou uma trajetória singular.
Bebeto vinha de uma família com raízes no esporte e na cultura. Era sobrinho do jornalista e treinador de futebol João Saldanha, figura mítica do futebol brasileiro, e primo em primeiro grau do atacante Heleno de Freitas, lendário jogador dos anos 1940. Essa herança cultural e esportiva parecia ter moldado seu caráter, formando um homem que compreendia o esporte não apenas como jogo, mas como expressão humana e como projeto coletivo. Desde jovem, o voleibol encontrou nele um devoto.
A carreira como jogador foi notável. Bebeto vestiu a camisa do Botafogo por mais de uma década, sendo um dos pilares de uma equipe que dominou o voleibol carioca de maneira absoluta. Entre 1965 e 1975, ele e seus companheiros conquistaram onze campeonatos estaduais consecutivos, uma sequência de vitórias que dificilmente seria igualada. Sua habilidade também o levou à seleção brasileira, onde representou o país nos Jogos Olímpicos de Munique em 1972 e, quatro anos depois, em Montreal, em 1976. Naquela época, o Brasil ainda não era a potência do voleibol que viria a ser, mas as sementes de uma revolução estavam sendo plantadas.
A transição para o banco de reservas revelou em Bebeto de Freitas um talento ainda maior do que o que havia demonstrado em quadra. No início da década de 1980, ele assumiu o comando da seleção masculina brasileira em um momento de reconstrução e passou a imprimir uma identidade tática própria ao voleibol nacional. Seu trabalho foi fundamental para transformar o estilo de jogo do Brasil, combinando disciplina física com criatividade e velocidade, elementos que se tornariam marcas registradas da chamada Geração de Prata. Esse grupo de atletas, que ele comandou nos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 1984 e nos de Seul em 1988, conquistou a medalha de prata em ambas as edições, resultados que mudaram o status do voleibol brasileiro no cenário mundial.
Após os êxitos olímpicos, Bebeto transferiu sua experiência para o exterior. Entre 1990 e 1995, dirigiu o Maxicono Parma, clube italiano que se tornaria o atual Pallavolo Parma, e construiu um dos ciclos mais vitoriosos da história da equipe. Naquele período, conquistou o Campeonato Italiano duas vezes, uma Copa Itália e duas Copa CEV, consolidando sua reputação como um dos melhores treinadores do mundo. O voleibol italiano, já muito desenvolvido tecnicamente, encontrou no brasileiro um profissional que soube agregar valor ao já elevado nível europeu.
O reconhecimento internacional culminou em dois títulos de enorme prestígio à frente da seleção italiana. Em 1997, em Moscou, Bebeto de Freitas conduziu a Azzurra ao título da Liga Mundial de Voleibol. No ano seguinte, em Tóquio, sagrou-se campeão mundial ao vencer a Iugoslávia por três sets a zero na final do Campeonato Mundial de Voleibol Masculino de 1998. Tornar-se campeão do mundo treinando uma seleção estrangeira é uma distinção que pouquíssimos técnicos brasileiros conquistaram na história de qualquer modalidade.
A volta ao Brasil trouxe uma nova fase na carreira de Bebeto, agora na gestão esportiva. Suas duas passagens pelo Atlético Mineiro como manager, em 1999 e 2001, renderam um título estadual e um vice-campeonato brasileiro. Mas foi no Botafogo, clube que havia moldado sua formação como jogador, que ele deixaria a marca mais profunda como dirigente. Eleito presidente entre 2003 e 2005 e reeleito até 2008, Bebeto conduziu uma reestruturação institucional que devolveu o clube à Série A do Campeonato Brasileiro e ainda somou títulos cariocas ao palmarès do Estrela Solitária, incluindo a Taça Guanabara e o Campeonato Carioca de 2006, além da Taça Rio em 2007 e 2008.
Em sua gestão, o Botafogo também obteve a concessão do Estádio Nilton Santos, em 2007, por meio da Cia. Botafogo, empresa criada pela diretoria. Era o tipo de vitória administrativa que Bebeto valorizava tanto quanto os troféus conquistados em quadra. Em 2009, retornou ao Atlético Mineiro como diretor-executivo, a convite de Alexandre Kalil, e mais tarde, em 2016, aceitou o cargo de Secretário Municipal de Esportes e Lazer de Belo Horizonte no mesmo governo Kalil, criando programas de esporte e convivência urbana na capital mineira.
A morte chegou de forma súbita, no dia 13 de março de 2018, durante uma cerimônia de apresentação do time de futebol americano do Atlético Mineiro, na Cidade do Galo, em Vespasiano, Minas Gerais. Bebeto de Freitas sofreu uma parada cardíaca e não resistiu. Tinha voltado ao Galo poucos meses antes, como Diretor de Administração e Controle. O esporte, que havia sido o centro de toda a sua existência, foi também o palco de sua última aparição. Sua morte deixou um vazio no mundo esportivo brasileiro, mas o legado de quem ajudou a colocar o voleibol do Brasil entre os maiores do mundo permanece vivo em cada conquista das gerações que vieram depois dele.



