O ano de 1926 chegou ao mundo como um ano comum do calendário gregoriano, começando numa sexta-feira e encerrando também nesse mesmo dia da semana, com sua letra dominical registrada como C. Marcado pela numeração romana MCMXXVI, aquele ano reservava acontecimentos que atravessariam fronteiras e deixariam marcas profundas tanto na política quanto na cultura e no imaginário popular de diferentes continentes.
No Brasil, as articulações políticas da Primeira República dominavam a cena. Em 1º de março, Washington Luís foi eleito presidente do país, e em 15 de novembro tomou posse, assumindo o comando de uma nação que ainda navegava nas águas turbulentas do café com leite e das oligarquias estaduais. O governo de Washington Luís seria lembrado não apenas por suas realizações, mas também pelo papel que desempenhou no acirramento das tensões que levariam à Revolução de 1930. Naquele mesmo ano, em 13 de maio, Florianópolis ganhou uma de suas marcas mais icônicas: a inauguração da Ponte Hercílio Luz, a mais antiga das três pontes que ligam a ilha ao continente e que se tornaria símbolo da capital catarinense. Ainda em agosto, a cidade de Tatuí, no interior paulista, celebrou o centenário de sua fundação, reafirmando a vitalidade do interior brasileiro como espaço de história e memória.
O mundo também registrou nascimentos que moldariam o século à frente. Em 2 de fevereiro nasceu Valéry Giscard d'Estaing, que décadas depois governaria a França entre 1974 e 1981 como um dos presidentes mais emblemáticos da Quinta República. Em 16 de março, Jerry Lewis viu a luz pela primeira vez numa família de artistas de vaudeville, e se tornaria um dos maiores comediantes do cinema americano, adorado na França com uma intensidade que jamais encontrou equivalente nos Estados Unidos.
O dia 21 de abril de 1926 foi marcado por um nascimento de consequências históricas únicas: naquela data veio ao mundo a princesa Elizabeth, que décadas depois se tornaria a Rainha Isabel II do Reino Unido, a monarca de reinado mais longo da história britânica, guiando a coroa por mais de sete décadas até sua morte em 2022. Em 3 de maio nasceu Milton Santos, geógrafo, jornalista e intelectual brasileiro que se tornaria um dos pensadores mais importantes do século XX no campo das ciências humanas. Em 8 de maio, David Attenborough entrou no mundo numa família de acadêmicos ingleses, dando início a uma vida que se tornaria sinônimo da mais refinada narração sobre a natureza e o meio ambiente.
Em junho, o mundo ganhou uma das figuras mais mitológicas da cultura popular do século XX: em 1º de junho nasceu Marilyn Monroe, cuja trajetória breve e intensa como atriz e ícone cultural deixaria uma marca indelével na história do cinema e da moda, além de simbolizar as contradições de uma era que glamourizava e consumia ao mesmo tempo. Em agosto, nasceu Fidel Castro, que tomaria o poder em Cuba em 1959 e governaria a ilha por décadas, tornando-se um dos líderes mais controversos e longevo da política mundial. No mesmo mês, nasceu Jiang Zemin, que presidiria a China entre 1993 e 2003, guiando o gigante asiático em seu processo de abertura econômica.
As perdas de 1926 foram igualmente memoráveis. Em 23 de agosto, o mundo do cinema perdeu Rodolfo Valentino, o ator italiano que havia se tornado o símbolo por excelência do galã no cinema mudo e cuja morte precoce, aos 31 anos, provocou comoção pública de proporções histéricas em cidades americanas e europeias. Centenas de pessoas desmaiaram diante de seu caixão exposto em Nova Iorque, e sua morte permanece um dos eventos mais dramaticamente documentados da história do entretenimento popular.
Em 31 de outubro, morreu Harry Houdini, o ilusionista e escapista nascido na Hungria que havia se tornado lendário ao realizar fugas impossíveis de caixas fechadas, algemas e tanques d'água. Houdini morreu de peritonite após ser golpeado no abdômen, numa história que ainda hoje é tema de debate e especulação. Sua morte encerrou a era de um dos maiores performers da história e de um dos mais incansáveis denunciadores do espiritismo charlatão.
O Prêmio Nobel daquele ano coroou figuras de primeira grandeza em suas respectivas áreas. Jean Baptiste Perrin recebeu o Nobel de Física, Theodor Svedberg levou o de Química e Johannes Fibiger foi agraciado em Medicina. A escritora sarda Grazia Deledda, primeira mulher italiana a receber o Nobel de Literatura, foi laureada com o prêmio máximo das letras. O Nobel da Paz foi dividido entre Aristide Briand e Gustav Stresemann, diplomatas cujos esforços de reconciliação franco-alemã na década de 1920 pareciam apontar para um futuro mais estável na Europa, ainda que os eventos da década seguinte viessem a desmentir amargamente esse otimismo.
1926 foi, portanto, um ano de fundações e encerramentos, de nascimentos que produziriam gigantes do século e de mortes que extinguiram figuras que já eram mitológicas em vida. Da política brasileira à coroação simbólica de uma futura rainha, do cinema mudo à ilusão encarnada numa caixa de escapismo, o mundo daquele ano não cabia numa única narrativa, mas em muitas histórias simultâneas que o tempo encarregou de reunir sob o mesmo calendário.


