O ano de 1708 correspondeu ao número MDCCVIII no sistema de numeração romana e foi registrado como ano bissexto no Calendário Gregoriano, iniciando-se em um domingo e encerrando-se em uma segunda-feira. No contexto europeu, o século XVIII avançava em meio a guerras dinásticas, rearranjos coloniais e disputas mercantis que redesenhavam continuamente as fronteiras do poder nos dois hemisférios.
No arquipélago dos Açores, então sob domínio português, setembro daquele ano foi marcado por um episódio de violência marítima que deixaria memória duradoura nas ilhas. No dia 19 daquele mês, uma esquadra naval sob o comando do pirata francês René Duguay-Trouin — composta por oito naus de linha e três navios corsários de grossa artilharia — lançou um ataque contra a vila das Velas, na ilha de São Jorge. A tentativa, porém, foi frustrada: o Sargento-Mor Amaro Teixeira de Sousa, à frente da defesa local, impediu que a esquadra inimiga entrasse no porto.
Determinado a não recuar com as mãos vazias, Duguay-Trouin retornou no dia seguinte, 20 de setembro, com as mesmas forças. Nessa segunda tentativa, os franceses lograram êxito parcial ao desembarcar mais de quinhentos homens na ilha, que então saquearam igrejas e residências da vila das Velas. O episódio evidenciava a vulnerabilidade das ilhas atlânticas portuguesas diante do corso francês em plena Guerra da Sucessão Espanhola, quando a França encontrava-se em conflito com potências rivais e seus corsários operavam com razoável impunidade nos mares.
O Forte de São Sebastião, apoiado pela artilharia da Fortaleza de São João Baptista, conseguiu, entretanto, impedir que Duguay-Trouin repetisse o feito contra Angra do Heroísmo, na ilha Terceira. A resistência organizada naquele ponto estratégico do arquipélago demonstrava que a defesa portuguesa, embora insuficiente para proteger todas as ilhas, era capaz de barrar o inimigo quando concentrava seus recursos em posições mais fortalecidas.
Em outubro de 1708, a Coroa portuguesa viveu um momento solene de natureza oposta. No dia 27, realizou-se o casamento do rei João V de Portugal com a arquiduquesa Maria Ana de Áustria. A união selava uma aliança dinástica de grande relevância geopolítica: Portugal, aliado da Inglaterra e do Sacro Império Romano-Germânico na Guerra da Sucessão Espanhola, estreitava laços com a Casa de Habsburgo. João V, então com dezoito anos, governaria Portugal por décadas, e seu reinado seria associado ao esplendor barroco financiado pelo ouro brasileiro.
Falando em Brasil, novembro de 1708 trouxe notícias alarmantes das Minas Gerais. O chamado Massacre de Ouro Preto marcou o início da Guerra dos Emboabas, conflito que eclodiu entre os pioneiros bandeirantes paulistas, que haviam descoberto e explorado as minas de ouro, e os chamados emboabas, denominação dada aos colonos vindos de Portugal e de outras regiões do Brasil que afluíam em massa para a região aurífera. A disputa pelo controle das lavras gerou violência intensa e reorganizou as relações de poder na América portuguesa, sendo um dos episódios mais significativos do ciclo do ouro colonial.
Em dezembro, a administração colonial portuguesa tomou uma medida de organização territorial nos Açores: no dia 26, foi realizada a doação da capitania da ilha Graciosa a Dom Rodrigo Sanches Farinha de Baena. A capitania era um instrumento típico da colonização lusitana, pelo qual a Coroa delegava a administração de territórios a particulares em troca de lealdade e desenvolvimento local.
No campo dos nascimentos, 1708 registrou a chegada ao mundo de figuras que marcariam décadas seguintes. Dom Frei João Evangelista Pereira da Silva, nascido em 23 de agosto, tornar-se-ia bispo de Belém do Pará. Já em 2 de outubro nasceu José de Mascarenhas da Silva, que viria a ser o Duque de Aveiro, personagem cujo destino trágico se consumaria cinquenta e um anos depois, em 1759, envolvido no célebre caso do atentado contra o rei Dom José I de Portugal. No campo das mortes, o dia 17 de novembro levou o pintor germano-neerlandês Ludolf Backhuysen, nascido em 1630, reconhecido por suas cenas navais de extraordinária vivacidade.


