tragedias

U Thant

Terceiro Secretário-Geral das Nações Unidas

4 min01/01/2024
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Num pequeno vilarejo chamado Pantanaw, na então Birmânia, nasceu em 22 de janeiro de 1909 o homem que décadas mais tarde estaria no centro das crises mais explosivas da Guerra Fria como principal representante da diplomacia multilateral mundial. Maha Thray Sithu U Thant — o título honorífico "U" é um tratamento respeitoso em birmanês, equivalente a "senhor" — cresceu numa família instruída e construiu sua formação intelectual no Colégio Nacional de sua cidade natal e na University College de Rangoon, onde absorveu os ideais de mediação e diálogo que marcariam toda a sua vida pública.

Antes de ingressar na carreira diplomática, Thant percorreu um caminho que hoje poderia parecer improvável para um futuro chefe de uma organização supranacional: foi mestre sênior e diretor do Colégio Nacional de Pantanaw, além de atuar como jornalista free-lancer. Em 1942, serviu durante alguns meses como secretário do Comitê para Reorganização da Educação da Birmânia. Em 1947, foi nomeado diretor de Imprensa do Governo, depois assumiu a chefia do broadcasting e tornou-se secretário no Ministério da Informação. Progressivamente, foi conquistando postos mais elevados: secretário de projetos no Gabinete do primeiro-ministro e secretário executivo da Junta Econômica da Birmânia, acumulando uma experiência administrativa diversificada que poucos diplomatas de sua geração possuíam.

O salto para a arena internacional veio em 1957, quando U Thant passou a representar permanentemente a Birmânia nas Nações Unidas, com status de embaixador — posto que ocupou até 1961. Nessa condição, chefiou as delegações birmanesas nas sessões da Assembleia Geral e, em 1969, serviu como vice-presidente da 14ª sessão. Sua reputação de negociador paciente, equidistante das grandes potências e genuinamente comprometido com o multilateralismo, tornou-o uma figura respeitada no cenário internacional.

Em setembro de 1961, o secretário-geral Dag Hammarskjöld morreu num acidente aéreo sobre a África enquanto tentava mediar o conflito no Congo. A Organização das Nações Unidas precisava de um sucessor capaz de navegar pelas tensões da Guerra Fria sem se tornar um joguete nas mãos das superpotências. Em 3 de novembro de 1961, U Thant foi apontado unanimemente pela Assembleia Geral, sob recomendação do Conselho de Segurança na Resolução 168, para preencher o cargo interinamente. Em 30 de novembro de 1962, foi confirmado oficialmente como secretário-geral pelo mesmo processo de unanimidade, distinção notável numa época em que soviéticos e americanos raramente concordavam sobre coisa alguma.

Seu primeiro mandato foi dominado por duas crises de enormes proporções. Na Crise dos Mísseis de Cuba, em outubro de 1962, Thant desempenhou papel mediador relevante, comunicando-se discretamente com Washington e Moscou para encontrar uma saída que evitasse a guerra nuclear. Sua intervenção foi amplamente creditada como contribuição à resolução do conflito mais perigoso da Guerra Fria. Na mesma época, supervisionou o fim da Guerra Civil do Congo, conflito que havia custado a vida a seu predecessor. Esses dois sucessos consolidaram sua autoridade moral como secretário-geral.

Em 2 de dezembro de 1966, U Thant foi reapontado para um segundo mandato. Esse período testemunhou eventos de grande magnitude: a Guerra dos Seis Dias entre Israel e os países árabes em 1967, a Primavera de Praga e a invasão soviética da Tchecoslováquia em 1968, e a Guerra Indo-Paquistanesa de 1971, durante a qual surgiu o Bangladesh como nação independente. Thant supervisionou também a entrada de dezenas de novos estados asiáticos e africanos nas Nações Unidas, reflexo do processo de descolonização então em pleno curso, e foi um firme oponente do regime do apartheid na África do Sul.

Sua relação com os Estados Unidos deteriorou-se sensivelmente quando passou a criticar publicamente a conduta americana na Guerra do Vietnã. Thant chegou a tentar, em segredo, estabelecer um canal de comunicação entre Washington e Hanói, iniciativa que foi mal recebida pela administração americana. Em 1967, sua decisão de atender ao pedido do presidente egípcio Nasser e retirar as tropas da ONU do Sinai foi duramente criticada nos Estados Unidos e em Israel, pois abriu caminho para a guerra que eclodiu semanas depois.

Durante sua gestão, Thant foi responsável pela criação de várias agências e programas de desenvolvimento e meio ambiente que transformaram a estrutura das Nações Unidas: o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a Universidade da ONU, a UNCTAD, o Instituto de Treinamento e Pesquisa da ONU (UNITAR) e o Programa Ambiental da ONU, entre outros. Essas iniciativas expandiram o mandato da organização para além da segurança coletiva, projetando-a como instrumento de cooperação para o desenvolvimento global.

Em 23 de janeiro de 1971, U Thant declarou categoricamente que não estaria disponível para um terceiro mandato "sob nenhuma circunstância". Aposentou-se ao fim de outubro de 1971, encerrando dez anos de intensa atividade diplomática. Morreu em Nova Iorque em 25 de novembro de 1974, aos 65 anos. Seu sucessor, Kurt Waldheim, assumiu após semanas de impasse no Conselho de Segurança. U Thant deixou como legado uma ONU mais estruturada e comprometida com o desenvolvimento humano, e uma demonstração de que um diplomata oriundo de um pequeno país asiático podia navegar com habilidade entre as potências da Guerra Fria sem perder a independência de julgamento.

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