civilizacoes perdidas

Prestes Maia

Engenheiro civil, arquiteto e político brasileiro

4 min01/01/2024
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Francisco Prestes Maia foi o homem que desenhou o futuro de São Paulo. Nascido em Amparo, no interior paulista, em 19 de março de 1896, e morto na capital em 26 de abril de 1965, engenheiro civil, arquiteto, urbanista e duas vezes prefeito, deixou impressa na paisagem urbana da maior cidade da América do Sul uma marca tão profunda que ainda é possível percorrê-la nas avenidas que cortam o centro de São Paulo.

Filho de Manuel Azevedo Maia e de Carolina Prestes, Prestes Maia se mudou com a família para São Paulo aos onze anos de idade. Estudou no tradicional Colégio São Bento e, aos quinze anos, ingressou na Escola Politécnica da USP, onde se formou em Engenharia e Arquitetura em 1917. Era um estudante precoce cuja inteligência prática e visão espacial logo se revelaram nas oportunidades que surgiam. Anos depois, voltaria à mesma instituição como professor, lecionando por uma década disciplinas como desenho geométrico, arquitetônico e de perspectiva.

Logo após a formatura, Prestes Maia foi nomeado Diretor de Obras Públicas na Secretaria de Viação e Obras Públicas do governo estadual. Nessa função, coordenou projetos de grande visibilidade para as comemorações do centenário da independência do Brasil, em 1922, entre eles a Avenida da Independência, atual Dom Pedro I, o paisagismo do entorno do Museu do Ipiranga, a construção do monumento à Independência e a retificação do córrego do Ipiranga. Eram obras que misturavam o gesto cívico com a ambição urbanística, sinalizando o tipo de intervenção em grande escala que definiria sua carreira.

Em 1922, abriu um escritório de engenharia em parceria com colegas como Mário Whately, Modesto Costa Ferreira e Antônio Smith Bayma. O escritório realizou projetos significativos para São Paulo, incluindo reformas de residências e intervenções como o Viaduto do Chá. Nesse período, Prestes Maia construía não apenas obras físicas, mas também a reputação de um profissional capaz de pensar a cidade em suas múltiplas dimensões.

O convite mais decisivo de sua carreira veio durante a gestão do prefeito José Pires do Rio, entre 1926 e 1930. Prestes Maia foi encarregado, junto com o engenheiro João Florêncio de Ulhoa Cintra, de elaborar um novo plano urbanístico para São Paulo. O resultado foi o Estudo de um Plano de Avenidas para a Cidade de São Paulo, apresentado em 1930 no 4º Congresso Pan-Americano de Arquitetos, realizado no Rio de Janeiro, onde foi premiado. O documento de 365 páginas, publicado pela editora Melhoramentos com fotos e desenhos, era algo sem precedente no urbanismo brasileiro.

O Plano de Avenidas era revolucionário em sua concepção. Pela primeira vez, São Paulo era pensada como um todo orgânico, não apenas em seu centro, mas incluindo as áreas periféricas que a cidade em rápido crescimento já começava a alcançar. O plano previa a abertura de avenidas com 35 a 50 metros de largura no centro urbano, como as avenidas Mercúrio, Senador Queirós, Ipiranga e São Luís, além das praças Clóvis Bevilacqua e João Mendes. Havia ainda previsões para as marginais dos rios Tietê e Pinheiros e para o remanejamento das linhas ferroviárias para a margem direita do Tietê, onde hoje se localiza o Terminal Rodoviário Tietê. Esse último objetivo não chegou a ser executado conforme o planejado, mas a visão geral do sistema viário moldou São Paulo por décadas.

O plano também era corajoso em sua posição política: defendia que os recursos para as obras deveriam vir de fundos públicos, excluindo a iniciativa privada, e sustentava a intervenção do Estado tanto no uso comum quanto no uso privado da cidade, inclusive mediante desapropriações. Era uma visão de planejamento urbano que colocava o interesse coletivo acima dos interesses particulares, algo politicamente audacioso para a elite paulistana da época.

Para articular seu projeto com a sociedade civil, Prestes Maia participou da fundação da Sociedade Amigos da Cidade em 1934, da qual foi o primeiro presidente. Essa entidade, formada pela elite paulista política, econômica e intelectual, funcionava como intermediária entre os cidadãos e o poder público, levando reivindicações à prefeitura e abrindo espaço para a criação de uma Comissão do Plano Geral da Cidade que viabilizaria a implementação do Plano de Avenidas. Foi também no seio da Sociedade que Prestes Maia construiu as relações políticas que o levariam ao poder.

Em 1938, foi nomeado prefeito de São Paulo pelo interventor federal, cargo que ocupou até 1945. Nesse primeiro mandato, transformou a capital paulista com uma intensidade que poucas cidades brasileiras haviam experimentado. Avenidas foram abertas, córregos canalizados, o centro remodelado segundo os princípios que ele próprio havia formulado. São Paulo vivia o começo de sua transformação de cidade provinciana em metrópole industrial, e Prestes Maia estava no centro desse processo. Retornaria à prefeitura entre 1961 e 1965, desta vez eleito pelo voto popular, completando sua visão para a cidade e encerrando sua vida pública como figura indissociável da história urbana de São Paulo.

Prestes Maia foi também membro da Sociedade de Arquitetura de Lisboa e da Sociedade de Arquitetos do Uruguai, instituições que refletiam o reconhecimento internacional de seu trabalho. Seu Plano de Avenidas, concebido em 1930, é até hoje considerado um dos documentos fundamentais do urbanismo brasileiro, capaz de definir os padrões de expansão da cidade por mais de meio século. Seu legado está gravado no traçado das ruas de São Paulo: cada avenida que corta o centro, cada marginal que acompanha os rios, cada interseção urbana que ordena o caos do tráfego — tudo isso carrega, de alguma forma, a marca do engenheiro que primeiro ousou pensar São Paulo como uma cidade feita para o futuro.

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