A voz de Jorge Goulart foi um dos sons mais reconhecíveis do rádio e da música popular brasileira no período de ouro que se estende dos anos 1940 até a chegada do rock e da bossa nova. Nascido no Rio de Janeiro, em 16 de janeiro de 1926, com o nome Jorge Neves Bastos, ele construiu uma carreira que atravessou o samba, o teatro de revista, o cinema e a carreira internacional, tornando-se uma figura central da música urbana carioca de sua geração. Morreu na mesma cidade em que nasceu, no dia 17 de março de 2012, aos 86 anos.
A infância de Jorge transcorreu no bairro do Andaraí, em uma família ligada às letras e ao mundo dos espetáculos. Seu pai, Iberê Bastos, era jornalista e escrevia sobre o universo artístico, o que colocava o jovem Jorge em contato precoce com cantores, compositores e artistas que circulavam pela boêmia carioca. Por volta dos doze anos, o menino assistiu a um episódio marcante: viu seu professor José Oiticica ser preso dentro do Colégio Pedro II por uma tropa do Estado Novo, episódio que deixou nele uma marca profunda de repúdio à opressão política que ecoaria ao longo de toda a sua vida.
O interesse pela música era anterior a qualquer influência externa deliberada. Sua mãe estudava canto e piano, e Jorge acompanhou as aulas de música clássica na infância. Aos dezessete anos, por intermédio do pai, conheceu Custódio Mesquita, um dos mais respeitados compositores e diretores musicais da época, que logo reconheceu o talento do jovem e o sugeriu para um teste na RCA Victor. Antes mesmo do teste formal, Jorge já realizava serestas pelo Andaraí e cantava em um circo, demonstrando a iniciativa e a vocação de quem sabe que nasceu para o palco.
O nome artístico Jorge Goulart surgiu nesse período inicial da carreira, por sugestão do próprio Custódio Mesquita, que havia ouvido a atriz Heloísa Helena repetir o anúncio de um elixir de Inhame Goulart. O nome soava melhor para a carreira artística do que Jorge Neves Bastos, e assim nasceu o cantor. A morte repentina de Custódio em março de 1945 adiou os planos de lançamento do primeiro disco, mas a RCA acabou autorizando a gravação no mesmo mês, com resultados modestos em vendas. A carreira precisou buscar outros caminhos para se firmar.
O teatro de revista, modalidade de espetáculo de enorme popularidade no Rio de Janeiro da segunda metade dos anos 1940, ofereceu a Jorge Goulart um palco e uma audiência. Sua estreia em Um Milhão de Mulheres, ao lado de artistas como Grande Otelo e Virgínia Lane, foi um sucesso que chamou a atenção de crítica e público. As turnês que se seguiram, incluindo uma aventura atribulada pelo Rio Grande do Sul, quando o empresário contratante desapareceu sem pagar os artistas, revelaram a precariedade e a aventura da vida artística naquela época. Foi numa dessas peregrinações que Jorge conheceu Lupicínio Rodrigues em Porto Alegre, amizade que simbolizava a circulação de talentos que atravessava o país.
Nos anos 1950, a carreira de Jorge Goulart atingiu seu ponto mais alto. Em 1952, recebeu o título de Rei do Rádio, distinção que naquele tempo equivalia ao mais alto reconhecimento popular que um cantor poderia receber no Brasil. O rádio era o meio de comunicação de massa por excelência, o espaço onde os artistas conquistavam o coração da nação, e ser aclamado como seu rei significava uma penetração cultural que poucos conseguiam. Suas gravações de músicas juninas e sambas tornaram-se trilha sonora das festas e das noites cariocas da época.
Em 1958, Juscelino Kubitschek convidou Jorge Goulart para encabeçar uma caravana artística ao exterior, integrando comitiva que incluía Nora Ney, Paulo Moura, Dolores Duran e o Conjunto Farroupilha. A missão era cultural e diplomática ao mesmo tempo, preparando o terreno para uma reaproximação do Brasil com a União Soviética e a China. A turnê foi um sucesso e resultou em viagens repetidas àquelas regiões ao longo dos dez anos seguintes. Era a música popular brasileira cruzando fronteiras em um momento em que o país projetava internacionalmente a imagem de uma nação jovem, criativa e em ascensão.
O envolvimento político de Jorge Goulart, cujas simpatias o aproximavam das ideias de esquerda que circulavam amplamente nos meios artísticos e intelectuais brasileiros dos anos 1950 e início dos 1960, tornou sua situação delicada após o golpe militar de 1964. Como tantos artistas e intelectuais de sua geração, ele foi forçado ao exílio, experiência que o afastou temporariamente do país onde havia construído sua carreira e conquistado o coração do público. Jorge Goulart deixou uma obra que captura com fidelidade o espírito de uma época em que o Rio de Janeiro era o centro pulsante da música popular brasileira, e sua voz permanece como documento vivo daquele tempo irrecuperável.

