guerras

Jerry Rawlings

Militar, Gana

4 min01/01/2024
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Jerry John Rawlings nasceu em Acra, em 22 de junho de 1947, filho de pai escocês e mãe ganesa, numa combinação que marcaria toda a sua trajetória pessoal e política. Criado numa cidade que vivia os desafios da independência recente, Rawlings cresceu observando as profundas desigualdades que atravessavam a sociedade ganesa, e foi esse olhar que moldou suas convicções antes mesmo de ele ingressar na carreira militar. Em 1968, entrou na academia militar ganesa em Teshie, e no ano seguinte tornou-se piloto da Força Aérea, sendo promovido à categoria de tenente. Era um jovem oficial em ascensão, mas ao redor dele o país afundava numa pobreza crescente, governado por um regime militar corrupto e repressivo que se arrastava desde 1966.

A insatisfação de Rawlings com a situação do Gana o levou a uma ação que poucos ousariam. Em 15 de maio de 1979, ele liderou uma primeira tentativa de golpe de Estado contra o regime do general Fred Akuffo. A tentativa falhou, e ele foi preso e condenado à morte. Parecia o fim de uma carreira breve e temerária. Mas três semanas depois, outros oficiais, entusiasmados pela coragem e pelo discurso anti-corrupção de Rawlings, o libertaram. Livre e mais determinado do que nunca, organizou um segundo golpe em 4 de junho de 1979, desta vez com êxito. O regime de Akuffo caiu, e Rawlings chegou ao poder com 31 anos de idade, tornando-se uma das figuras mais jovens a liderar um país africano.

O que surpreendeu o mundo foi o que veio a seguir. Em 24 de setembro de 1979, apenas três meses após assumir o poder, Rawlings entregou voluntariamente o controle do governo a um executivo civil eleito, liderado pelo presidente Hilla Limann. Esse gesto era raro no continente africano da época, onde militares que chegavam ao poder raramente abriam mão dele. Rawlings retornou à vida castrense, mas seu olho permaneceu voltado para Acra. A administração de Limann logo lhe pareceu tão corrupta quanto as anteriores, e em 31 de dezembro de 1981, ele conduziu um terceiro golpe, derrubando Limann e assumindo o comando do Conselho Provisório de Defesa Nacional.

O novo governo de Rawlings se definia por uma postura pragmática. Ele não se proclamava marxista nem capitalista, rejeitando os rótulos da Guerra Fria que dividiam o continente africano. Contudo, ao se deparar com uma crise econômica severa no início dos anos 1980, foi obrigado a tomar decisões difíceis. A partir de 1983, implementou um programa de ajustamento estrutural liberal negociado com o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, que concedeu empréstimos em troca de reformas de mercado. A tensão era constante: de um lado, as exigências dos credores internacionais por privatizações e redução do Estado; do outro, o compromisso de Rawlings com os mais pobres. Ele tentou desacelerar o desmonte do setor público e usou os investimentos para modernizar zonas rurais e financiar programas sociais.

Os resultados foram surpreendentes. Entre 1983 e 1993, Gana registrou uma taxa média de crescimento econômico de 5% ao ano, enquanto a inflação recuou para cerca de 10%. O país saiu da recessão e começou a ser citado como um exemplo de recuperação econômica na África Subsaariana. Esse desempenho consolidou a imagem de Rawlings como um gestor sério, capaz de tomar medidas impopulares no curto prazo em nome de resultados concretos no futuro.

No campo da política externa, Rawlings reorientou o Gana para as tradições pan-africanas do fundador da independência ganesa, Kwame Nkrumah. Aproximou-se da Cuba de Fidel Castro, da Líbia de Muammar al-Gaddafi e cultivou uma amizade próxima com Thomas Sankara, o presidente revolucionário do Burkina Faso. Essa rede de relações com líderes progressistas africanos reforçava a imagem de Rawlings como um homem comprometido com a soberania do continente diante das pressões das grandes potências. No plano interno, pronunciou-se abertamente contra práticas tradicionais prejudiciais, como a excisão feminina, adotando uma postura reformista mesmo em temas culturalmente sensíveis.

Em 1992, Rawlings tomou uma decisão que poucos esperavam de um líder militar: demitiu-se do exército, fundou o Congresso Democrático Nacional e conduziu o país a um processo de democratização. A Quarta República do Gana foi proclamada, e em 7 de dezembro de 1992 ele foi eleito presidente em eleições multipartidárias. A transição do líder golpista ao chefe de Estado democraticamente eleito era um percurso incomum, e Rawlings soube navegar essa transformação com habilidade política. Reeleito em 1996, ele governou até 2001, respeitando os limites constitucionais de mandato, outro ato incomum no contexto africano da época.

Sua presidência não foi isenta de contradições. A partir de meados dos anos 1990, Gana voltou a enfrentar dificuldades econômicas. A introdução do imposto sobre valor agregado, sob pressão do Banco Mundial, desencadeou protestos sociais intensos. Os preços subiram cerca de 60% em determinados períodos, e o padrão de vida caiu. A oposição e a imprensa tornaram-se críticos cada vez mais vocais de sua gestão. Mesmo assim, Rawlings manteve amplo apoio entre as classes mais pobres, que o viam como um líder que havia genuinamente tentado melhorar suas condições de vida.

Após deixar a presidência em 2001, Rawlings assumiu o papel de enviado especial da União Africana para a Somália e continuou sendo uma voz influente na política continental. Como presidente da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental, ele havia se envolvido diretamente na tentativa de resolução da guerra civil liberiana, angariando reputação como pacificador regional. Sua figura era vista com admiração especialmente fora do Gana, onde a distância amenizava as controvérsias de seu longo governo. Jerry John Rawlings morreu em 12 de novembro de 2020, aos 73 anos, no Hospital Universitário Korle-Bu, em Acra, deixando um legado complexo e indissociável da história moderna do Gana.

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