guerras

Exército de Libertação Nacional (Colômbia)

Guerrilheiros colombianos

5 min01/01/2024
Anúncio

Desde a década de 1960, a Colômbia convive com um dos conflitos armados mais duradouros do hemisfério ocidental. Dentre os grupos insurgentes que emergiu naquele período e que ainda existe, o Exército de Libertação Nacional, conhecido pela sigla ELN, ocupa um lugar singular. Fundado em 1964 por Fabio Vásquez Castaño e outros rebeldes colombianos que haviam recebido treinamento em Cuba, o ELN surgiu imbuído do entusiasmo revolucionário que a Revolução Cubana havia espalhado pela América Latina. Desde o início, o grupo se alimentou das ideias de Che Guevara e Fidel Castro, mas sua composição social o distinguia de outras guerrilhas da época: ao contrário das FARC, que tinham raízes predominantemente camponesas, o ELN reuniu inicialmente mais intelectuais urbanos, estudantes universitários e jovens ativistas.

Essa composição mais urbana e intelectualizada acabou moldando a identidade ideológica do grupo. O ELN adotou uma mistura singular de marxismo-leninismo com teologia da libertação, a corrente teológica que surgiu na Igreja Católica latino-americana nos anos 1960 e 1970 e propunha uma leitura dos Evangelhos a partir da perspectiva dos pobres. Sacerdotes católicos engajados com a causa dos mais pobres encontraram no ELN um espaço para traduzir suas convicções religiosas em ação política armada, o que conferiu ao grupo um caráter ideológico híbrido e incomum no cenário da esquerda radical latino-americana.

Ao longo das décadas, o ELN financiou suas operações principalmente por meio de extorsão e sequestro. Empresas que operavam em suas zonas de influência, especialmente no setor de petróleo e mineração, eram obrigadas a pagar o que o grupo chamava de "imposto de guerra". Civis de classe média e empresários eram frequentemente sequestrados para obtenção de resgate. Segundo a organização colombiana País Libre, entre 2000 e 2007 o ELN raptou mais de 3 mil pessoas. De acordo com a mesma fonte, 153 reféns morreram em poder do grupo nesse período. Essas práticas levaram os governos da Colômbia, dos Estados Unidos, do Canadá, da Nova Zelândia e a União Europeia a classificar o ELN como organização terrorista.

A relação do ELN com as FARC-EP, o outro grande grupo guerrilheiro colombiano, foi sempre complexa. Os dois grupos chegaram a realizar ações conjuntas ocasionais, mas a rivalidade territorial era frequente e às vezes violenta. Em meados de 2006, disputas pelo controle da região de Arauca, na fronteira com a Venezuela, transformaram-se em confrontos abertos entre membros dos dois grupos. As FARC acusaram o ELN de ataques que "só esperavam do inimigo". Em 2008, o ELN escreveu ao secretariado das FARC buscando cooperação, reconhecendo as dificuldades que ambos enfrentavam. Em 2017, as FARC se desarmaram e entregaram suas armas às Nações Unidas, deixando o ELN como a principal guerrilha ativa do país.

A expansão do ELN para a Venezuela durante os anos 1990 adicionou uma dimensão geopolítica ao conflito. O grupo gradualmente estabeleceu presença em estados fronteiriços ocidentais venezuelanos, e a relação com as autoridades de Caracas tornou-se crescentemente ambígua. Durante o governo de Hugo Chávez, o ELN encontrou uma atmosfera permissiva, e sob Nicolás Maduro a situação se aprofundou. Segundo o InSight Crime, o ELN chegou a operar em pelo menos 12 dos 23 estados venezolanos, com o governo Maduro adotando postura de tolerância ou mesmo incentivo. Em 2019, o grupo declarou apoio a Maduro durante a crise presidencial venezuelana, afirmando que lutaria contra tropas americanas caso invadissem o país. A ONG venezolana Fundación Redes chegou a relatar que militares venezuelanos possivelmente haviam armado membros do ELN.

Em 2022, negociações de paz foram retomadas entre o governo colombiano e o ELN, gerando expectativas de uma solução negociada para o conflito. Contudo, em agosto de 2024, o governo colombiano anunciou o fim de um cessar-fogo de seis meses, após o ELN retornar à prática de sequestrar civis para obter resgate. O impasse ilustrava a dificuldade de chegar a um acordo definitivo com um grupo que, apesar de décadas de pressão militar e negociações intermitentes, mantinha sua capacidade operacional e sua disposição para o conflito.

Com estimativas que em 2013 apontavam para entre 1.380 e 3 mil guerrilheiros ativos, o ELN representa mais de seis décadas de insurgência armada colombiana. Sua longevidade é ao mesmo tempo um testemunho das profundas desigualdades sociais que alimentaram o conflito colombiano e um obstáculo persistente à paz num país que, após o acordo com as FARC em 2016, ainda busca encerrar seu ciclo de violência armada.

Anúncio
Anúncio

Coming soon to the World in Stories app

Audio, offline download, no ads and more.

Learn about Premium

Related Stories