Desde a década de 1960, a Colômbia convive com um dos conflitos armados mais duradouros do hemisfério ocidental. Dentre os grupos insurgentes que emergiu naquele período e que ainda existe, o Exército de Libertação Nacional, conhecido pela sigla ELN, ocupa um lugar singular. Fundado em 1964 por Fabio Vásquez Castaño e outros rebeldes colombianos que haviam recebido treinamento em Cuba, o ELN surgiu imbuído do entusiasmo revolucionário que a Revolução Cubana havia espalhado pela América Latina. Desde o início, o grupo se alimentou das ideias de Che Guevara e Fidel Castro, mas sua composição social o distinguia de outras guerrilhas da época: ao contrário das FARC, que tinham raízes predominantemente camponesas, o ELN reuniu inicialmente mais intelectuais urbanos, estudantes universitários e jovens ativistas.
Essa composição mais urbana e intelectualizada acabou moldando a identidade ideológica do grupo. O ELN adotou uma mistura singular de marxismo-leninismo com teologia da libertação, a corrente teológica que surgiu na Igreja Católica latino-americana nos anos 1960 e 1970 e propunha uma leitura dos Evangelhos a partir da perspectiva dos pobres. Sacerdotes católicos engajados com a causa dos mais pobres encontraram no ELN um espaço para traduzir suas convicções religiosas em ação política armada, o que conferiu ao grupo um caráter ideológico híbrido e incomum no cenário da esquerda radical latino-americana.
Ao longo das décadas, o ELN financiou suas operações principalmente por meio de extorsão e sequestro. Empresas que operavam em suas zonas de influência, especialmente no setor de petróleo e mineração, eram obrigadas a pagar o que o grupo chamava de "imposto de guerra". Civis de classe média e empresários eram frequentemente sequestrados para obtenção de resgate. Segundo a organização colombiana País Libre, entre 2000 e 2007 o ELN raptou mais de 3 mil pessoas. De acordo com a mesma fonte, 153 reféns morreram em poder do grupo nesse período. Essas práticas levaram os governos da Colômbia, dos Estados Unidos, do Canadá, da Nova Zelândia e a União Europeia a classificar o ELN como organização terrorista.
A relação do ELN com as FARC-EP, o outro grande grupo guerrilheiro colombiano, foi sempre complexa. Os dois grupos chegaram a realizar ações conjuntas ocasionais, mas a rivalidade territorial era frequente e às vezes violenta. Em meados de 2006, disputas pelo controle da região de Arauca, na fronteira com a Venezuela, transformaram-se em confrontos abertos entre membros dos dois grupos. As FARC acusaram o ELN de ataques que "só esperavam do inimigo". Em 2008, o ELN escreveu ao secretariado das FARC buscando cooperação, reconhecendo as dificuldades que ambos enfrentavam. Em 2017, as FARC se desarmaram e entregaram suas armas às Nações Unidas, deixando o ELN como a principal guerrilha ativa do país.
A expansão do ELN para a Venezuela durante os anos 1990 adicionou uma dimensão geopolítica ao conflito. O grupo gradualmente estabeleceu presença em estados fronteiriços ocidentais venezuelanos, e a relação com as autoridades de Caracas tornou-se crescentemente ambígua. Durante o governo de Hugo Chávez, o ELN encontrou uma atmosfera permissiva, e sob Nicolás Maduro a situação se aprofundou. Segundo o InSight Crime, o ELN chegou a operar em pelo menos 12 dos 23 estados venezolanos, com o governo Maduro adotando postura de tolerância ou mesmo incentivo. Em 2019, o grupo declarou apoio a Maduro durante a crise presidencial venezuelana, afirmando que lutaria contra tropas americanas caso invadissem o país. A ONG venezolana Fundación Redes chegou a relatar que militares venezuelanos possivelmente haviam armado membros do ELN.
Em 2022, negociações de paz foram retomadas entre o governo colombiano e o ELN, gerando expectativas de uma solução negociada para o conflito. Contudo, em agosto de 2024, o governo colombiano anunciou o fim de um cessar-fogo de seis meses, após o ELN retornar à prática de sequestrar civis para obter resgate. O impasse ilustrava a dificuldade de chegar a um acordo definitivo com um grupo que, apesar de décadas de pressão militar e negociações intermitentes, mantinha sua capacidade operacional e sua disposição para o conflito.
Com estimativas que em 2013 apontavam para entre 1.380 e 3 mil guerrilheiros ativos, o ELN representa mais de seis décadas de insurgência armada colombiana. Sua longevidade é ao mesmo tempo um testemunho das profundas desigualdades sociais que alimentaram o conflito colombiano e um obstáculo persistente à paz num país que, após o acordo com as FARC em 2016, ainda busca encerrar seu ciclo de violência armada.
