No início de 1979, enquanto a Guerra Fria dividia o mundo em blocos de influência, dois países que compartilhavam uma fronteira e uma história milenar de tensões entraram em conflito aberto. A Guerra Sino-Vietnamita, ocorrida entre 17 de fevereiro e 16 de março de 1979, foi um dos episódios mais reveladores das contradições internas do campo comunista. Ao contrário do que a lógica ideológica sugeria, a China e o Vietnã, duas nações governadas por partidos comunistas, digladiaram-se num conflito que durou pouco mais de um mês mas deixou marcas profundas nas relações bilaterais e no equilíbrio geopolítico do sudeste asiático.
A centelha imediata do conflito foi a invasão vietnamita do Camboja em dezembro de 1978. O Vietnã invadiu o país vizinho para derrubar o regime do Khmer Vermelho, que havia instalado um governo de terror responsável pela morte de uma fração assombrosa da população cambojana. O Khmer Vermelho tinha estreitos laços com Pequim, e a China via a derrubada de Pol Pot como uma afronta direta à sua esfera de influência na região. Para Deng Xiaoping, que havia recentemente consolidado seu poder na China, a ousadia vietnamita exigia uma resposta que demonstrasse os limites da proteção soviética ao Vietnã. O conflito, portanto, não era apenas entre Hanói e Pequim, mas também uma mensagem endereçada a Moscou.
Em 17 de fevereiro de 1979, o Exército Popular de Libertação chinês lançou uma invasão surpresa do norte do Vietnã, cruzando a fronteira em vários pontos simultâneos. As forças chinesas eram numericamente superiores, mobilizando contingentes das Regiões Militares de Kunming, Chengdu, Wuhan e Guangzhou. A frente leste, direcionada pela Região Militar de Guangzhou a partir de Nanning, era comandada pelo general Xu Shiyou. A frente oeste, coordenada pela Região Militar de Kunming a partir de Kaiyuan, ficou sob o comando do general Yang Dezhi. Dezenas de divisões de infantaria, unidades de artilharia antiaérea, regimentos de tanques e forças de apoio foram mobilizados para a operação.
Apesar da superioridade numérica chinesa, o desempenho do Exército Popular de Libertação revelou sérias deficiências. As forças vietnamitas que se opuseram à invasão eram em grande parte milícias locais e forças de segurança de fronteira, pois as unidades regulares mais experientes do exército vietnamita estavam no Camboja. Mesmo assim, os vietnamitas resistiram com eficácia, usando o terreno acidentado do norte do país para impor pesadas baixas aos atacantes. A falta de coordenação entre as unidades chinesas, a rigidez tática e o equipamento desatualizado ficaram expostos durante os combates. Estima-se que as perdas chinesas foram proporcionalmente muito maiores do que as vietnamitas, embora os números exatos permaneçam disputados.
Em 6 de março de 1979, a China declarou que o "portão para Hanói" havia sido aberto e que sua missão punitiva estava cumprida. A proclamação tinha um sabor claramente propagandístico, pois as forças chinesas estavam longe de Hanói e jamais ameaçaram seriamente a capital. Em seguida, iniciou-se a retirada das tropas, concluída até 16 de março. A China havia capturado várias cidades próximas à fronteira e destruído infraestruturas vietnamitas, mas não havia conseguido seu objetivo declarado de forçar o Vietnã a retirar suas tropas do Camboja.
O Vietnã de fato continuou sua ocupação do Camboja até 1989, uma década depois do conflito com a China. Isso demonstrava que a operação punitiva chinesa havia sido, em termos estratégicos, um fracasso. O Vietnã não recuou de suas posições no Camboja, e o regime apoiado pelos vietnamitas permaneceu em Phnom Penh. Contudo, a China obteve um resultado mais sutil: forçou o Vietnã a desviar algumas unidades militares experientes, como o 2º Corpo, das operações cambojanas para reforçar a defesa do norte do país, enfraquecendo marginalmente a capacidade vietnamita de consolidar sua posição no Camboja.
O conflito também revelou a fragilidade da aliança soviético-vietnamita aos olhos de Pequim e do mundo. A União Soviética, que havia firmado um tratado de amizade e cooperação com o Vietnã em novembro de 1978, não interveio militarmente em defesa de seu aliado. Limitou-se a enviar suprimentos e a fazer declarações diplomáticas. Para a China, essa passividade soviética confirmava que Moscou não estava disposta a arriscar um confronto direto com Pequim para defender o Vietnã, o que era exatamente a mensagem que Deng Xiaoping queria transmitir ao mundo.
As consequências do conflito se estenderam por muito tempo. As relações diplomáticas entre China e Vietnã, já deterioradas desde os anos 1970, não foram plenamente restauradas até 1991, após a dissolução da União Soviética. Nesse mesmo ano, a fronteira sino-vietnamita foi oficialmente delimitada, encerrando uma fonte perene de disputas. Durante os anos 1980, escaramuças e conflitos de menor escala continuaram ocorrendo ao longo da fronteira, mantendo a tensão acesa. A guerra de 1979 deixou uma cicatriz profunda na memória coletiva dos dois países e complicou por décadas as relações entre as duas maiores potências comunistas do leste asiático.
