tragedias

Grande fome de 1845–1849 na Irlanda

Fome na Irlanda entre 1845 e 1852

7 min01/01/2024
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A história da Irlanda é frequentemente dividida por seus próprios habitantes em dois períodos distintos: o tempo antes da fome e o tempo depois. Essa divisão não é apenas uma convenção historiográfica, mas o reflexo de uma catástrofe que transformou para sempre o povo irlandês, seu território, sua cultura e sua relação com a potência que os governava. Entre 1845 e os primeiros anos da década seguinte, a Irlanda viveu o que passou a ser conhecido como An Gorta Mór, a Grande Fome, um período de destruição demográfica sem precedentes na Europa entre o fim da Guerra dos Trinta Anos e o início da Primeira Guerra Mundial.

Para compreender por que a Irlanda foi tão devastada, é necessário olhar para a estrutura social e política que moldou a ilha nas décadas anteriores. Desde 1801, pelo Ato de União de 1800, a Irlanda era parte integrante do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, governada por representantes britânicos e sujeita às leis do parlamento em Westminster. Os irlandeses enviavam 105 membros à Câmara dos Comuns, mas o poder real permanecia nas mãos de uma aristocracia que, em sua maioria, sequer vivia na ilha. Entre 1832 e 1859, setenta por cento dos representantes irlandeses no parlamento eram proprietários de terras ou filhos de proprietários de terras.

A estrutura fundiária era profundamente injusta. No topo da hierarquia social estava uma classe protestante de origem inglesa e anglo-irlandesa que controlava a esmagadora maioria das terras. O Conde de Lucan, para citar apenas um exemplo, era dono de 24 mil hectares. Muitos desses proprietários viviam permanentemente na Inglaterra, sendo chamados de "aristocracia ausente", e administravam suas propriedades através de agentes locais cujo valor era medido pela capacidade de extrair o máximo de aluguel possível dos camponeses. Os lucros fluíam para a Inglaterra, enquanto a população rural irlandesa vivia em condições que uma comissão real descreveu em fevereiro de 1845 como de extrema privação: apenas batatas para comer, água para beber, barracos que mal protegiam do frio, sem camas ou cobertores.

Essa dependência quase total da batata como alimento básico de um terço da população foi o elemento que transformou uma praga agrícola numa tragédia humanitária. Em 1845, o oomiceto Phytophthora infestans, um tipo de fungo aquático, começou a contaminar as plantações de batata em toda a Europa. Porém, enquanto em outros países o impacto foi limitado, na Irlanda a concentração de trabalhadores rurais que dependiam exclusivamente do tubérculo como fonte alimentar tornou a praga uma sentença de morte coletiva. As plantações apodreciam nos campos, e as famílias que delas dependiam ficavam sem alternativa.

Durante os anos da fome, que se prolongou por variações entre 1849 e 1852 dependendo da região, estima-se que cerca de um milhão de pessoas morreram de fome e das doenças associadas à desnutrição severa, como tifo e disenteria. Mas a morte não foi a única consequência. Mais de um milhão de pessoas emigraram, principalmente para os Estados Unidos e o Canadá, em condições frequentemente terríveis. Os chamados "navios caixões" transportavam levas de emigrantes debilitados em porões superlotados e insalubres, e muitos morriam ainda na travessia. A população da Irlanda, que era de pouco mais de oito milhões de habitantes antes da fome, reduziu-se entre 20 e 25 por cento.

A resposta do governo britânico é um dos aspectos mais controversos da história irlandesa e permanece objeto de intenso debate acadêmico até os dias atuais. Enquanto os irlandeses morriam de fome, a Irlanda continuava exportando alimentos para a Grã-Bretanha, pois os latifundiários não suspenderam suas exportações de grãos e carne. As políticas de socorro britânicas foram consideradas por muitos insuficientes e tardias, quando não diretamente prejudiciais. A ideologia econômica dominante na época, o laissez-faire, desfavorecia a intervenção governamental direta, e alguns funcionários britânicos chegaram a ver na fome um mecanismo de "resolução natural" do problema do excesso de população na Irlanda.

As consequências demográficas foram permanentes e de longa duração. A emigração, iniciada como fuga emergencial durante a fome, tornou-se uma característica estrutural da sociedade irlandesa por gerações. A diáspora irlandesa nos Estados Unidos, no Canadá e na Austrália cresceu de forma explosiva nas décadas seguintes, criando comunidades que mantiveram vínculos sentimentais e políticos profundos com a terra de origem. Estima-se que hoje existam muito mais descendentes de irlandeses fora da Irlanda do que habitantes na própria ilha.

Do ponto de vista político, a Grande Fome alimentou o movimento nacionalista irlandês de uma forma que nenhum discurso ou panfleto poderia ter feito. A percepção de que o governo britânico havia sido negligente ou deliberadamente indiferente ao sofrimento irlandês tornou-se um dos pilares da identidade nacional e do argumento pela independência. Daniel O'Connell, o grande agitador político da época, havia apontado a estrutura fundiária como a causa principal dos problemas irlandeses, e os eventos da fome pareciam confirmar tragicamente sua análise.

O legado cultural da Grande Fome é igualmente profundo. Ela entrou para a memória coletiva como o trauma fundador da nação irlandesa moderna, evocado pela literatura, pela música, pela arte e pelo discurso político por mais de um século e meio. A expressão "An Gorta Mór" carrega um peso emocional que vai muito além da descrição histórica; é uma cicatriz na alma nacional, o evento que mais do que qualquer outro moldou o que significa ser irlandês no mundo contemporâneo.

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