tragedias

Erupção do Vesúvio em 79

Características da erupção do Vesúvio

6 min01/01/2024
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No sul da Itália, às margens do Golfo de Nápoles, ergue-se um estratovulcão que se tornou o mais famoso do mundo ocidental, não por sua beleza ou grandeza, mas pela tragédia que produziu num único e brutal dia do verão romano. O Monte Vesúvio entrou em erupção no ano 79 da era cristã e destruiu cidades inteiras, matando milhares de pessoas e preservando, paradoxalmente, sob camadas de cinzas e pedra-pomes, um retrato inalterável da vida cotidiana do Império Romano. Essa erupção não apenas matou, mas também conservou, tornando-se ao mesmo tempo uma catástrofe e um extraordinário arquivo arqueológico.

Os habitantes da Baía de Nápoles não chegaram à tragédia sem avisos. Em 5 de fevereiro do ano 62, um poderoso terremoto havia causado destruição generalizada na região, especialmente em Pompeia. Alguns dos danos ainda não haviam sido completamente reparados dezessete anos depois, quando o vulcão entrou em erupção. Em 64, outro terremoto ocorreu enquanto o imperador Nero se apresentava pela primeira vez num teatro público em Nápoles, evento registrado pelos historiadores Suetônio e Tácito. Nos quatro dias imediatamente anteriores à grande erupção de 79, pequenos tremores foram sentidos, mas os moradores, acostumados com a sismicidade da região, não os interpretaram como prenúncio de algo extraordinário. Plínio, o Jovem, que estava em Miseno, a 29 quilômetros do vulcão, descreveu esses tremores como não particularmente alarmantes, pois eram "frequentes na Campânia".

Por volta das 13 horas do primeiro dia, o Vesúvio rasgou o céu com uma coluna de gases e piroclastos que atingiu entre 15 e 33 quilômetros de altitude. Plínio, o Jovem, o único testemunho escrito sobrevivente dos eventos, comparou a forma da coluna a uma árvore de pinheiro-guarda-chuva, alta e espraiada no topo. Cinzas e pedra-pomes começaram a cair sobre a região, formando uma camada que em Pompeia chegaria a 2,8 metros de espessura no final da fase inicial da erupção. Sob essa chuva de material vulcânico, a população de Pompeia buscou abrigo onde pôde, enquanto alguns tentavam fugir. Um terremoto que abalou a cidade nesse período causou o colapso de vários edifícios, matando aqueles que se refugiavam em seu interior.

A noite que se seguiu ao primeiro dia de erupção foi aterrorizante. Luzes que brilhavam na montanha foram interpretadas como incêndios. Em Miseno, Plínio, o Jovem, descreveu cenas que evocavam o fim dos tempos. Seu tio, Plínio, o Velho, naturalista e almirante da frota romana estacionada em Miseno, tentou socorrer os habitantes da costa próxima ao vulcão e morreu durante a operação, provavelmente sufocado pelos gases vulcânicos que tornavam o ar irrespirável nas proximidades.

No segundo dia, os fluxos piroclásticos, massas densas e extremamente quentes de gases e fragmentos vulcânicos, desceram pelas encostas do Vesúvio a velocidades devastadoras. Estudos estratigráficos realizados ao longo do século XX revelaram que a erupção se desenvolveu em duas fases alternadas: a vesuviana, com a coluna de detritos vulcânicos na estratosfera, e a peleana, com os fluxos piroclásticos rasantes. Pelo menos seis alternâncias entre essas fases foram identificadas pelos pesquisadores. Os fluxos que chegaram a Herculano, Pompeia e Oplontis enterraram essas cidades sob depósitos de até 20 metros de profundidade, matando instantaneamente por calor e sufocamento todos os que ainda se encontravam em seus interiores. A velocidade, a temperatura e a densidade dos fluxos tornavam qualquer chance de sobrevivência nula para quem estava no caminho.

O que o Vesúvio destruiu, o tempo preservou de uma forma que o mundo moderno ainda processa com espanto. As cinzas e os depósitos piroclásticos que soterram Pompeia e Herculano criaram um invólucro hermético ao redor de tudo o que existia naquele momento: casas com afrescos intactos, panelas de barro com restos de comida, joias, moedas, graffitis nas paredes, corpos humanos que deixaram cavidades nas cinzas. No século XVIII, quando as escavações sistemáticas começaram, o arqueólogo Giuseppe Fiorelli desenvolveu a técnica de injetar gesso nas cavidades deixadas pelos corpos decompostos, produzindo réplicas tridimensionais emocionantes das vítimas em seus momentos finais.

A população total de Pompeia e Herculano somava mais de 20 mil pessoas. Os restos mortais de mais de 1.500 indivíduos foram encontrados apenas nessas duas cidades. O número total de mortos em toda a região afetada pela erupção permanece desconhecido, com estimativas que chegam a mais de 16 mil vítimas. A energia liberada pela erupção equivaleu a 100 mil vezes a energia dos bombardeamentos atômicos de Hiroshima e Nagasaki combinados, expelindo 1,5 milhão de toneladas de material por segundo no auge da atividade.

Hoje, Pompeia, Herculano e a área do Parque Nacional do Vesúvio compõem um Patrimônio Mundial da Humanidade reconhecido pela UNESCO. Mais de três milhões de turistas visitam anualmente as ruínas de Pompeia, caminhando pelas mesmas ruas de pedra que os romanos pisaram quase dois milênios atrás. O Vesúvio permanece ativo e monitorado continuamente, pois a região de Nápoles, com seus milhões de habitantes, vive à sombra de um vulcão que certamente voltará a entrar em erupção algum dia. A tragédia de 79 continua a ser estudada, escavada e revelando segredos, tornando-se um dos registros arqueológicos mais ricos e perturbadores da história humana.

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