tragedias

Acidente nuclear de Fukushima I

Maior acidente nuclear do século 21 e mais grave desde do desastre de Chernobyl

7 min01/01/2024
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Em 11 de março de 2011, um terremoto de magnitude 9,0 sacudiu o nordeste do Japão com uma violência devastadora, gerando um tsunami que varreu a costa da região de Tohoku e desencadeou uma série de eventos que culminariam no pior acidente nuclear desde Chernobyl. A usina nuclear de Fukushima Daiichi, operada pela Tokyo Electric Power Company, conhecida como TEPCO, possuía seis reatores nucleares e estava localizada exatamente na faixa costeira que o tsunami atingiu com força máxima. Em poucas horas, o que deveria ser uma instalação segura transformou-se no centro de uma crise nuclear que aterrorizou o Japão e o mundo.

Para compreender a magnitude do que aconteceu, é necessário entender o contexto da política energética japonesa. Desde as décadas de 1950 e 1960, o Japão havia apostado intensamente na energia nuclear como forma de garantir sua segurança energética num país com poucos recursos naturais convencionais. A primeira usina nuclear comercial do país, a de Tokai, entrou em operação em 1966, e nas décadas seguintes o número de reatores cresceu consistentemente. Em 2011, o Japão dependia de energia nuclear para cerca de 30 por cento de sua geração elétrica, com planos de ampliar essa participação. Esse histórico de décadas criou uma cultura institucional onde as pressões pela promoção da indústria frequentemente superavam as exigências de segurança.

No dia do terremoto, os três reatores em operação na usina foram desligados automaticamente como previsto pelos protocolos de emergência. Contudo, o tsunami que chegou logo em seguida, com ondas muito maiores do que as que os sistemas de proteção foram projetados para conter, inundou os geradores de emergência responsáveis por manter os sistemas de resfriamento dos reatores em funcionamento. Sem resfriamento, o calor residual do combustível nuclear continuou a aumentar a temperatura nos núcleos dos reatores. O resultado foi o derretimento do combustível nuclear em três dos seis reatores da instalação.

À medida que a temperatura aumentava, o revestimento de zircônio dos elementos combustíveis se degradava termicamente, liberando hidrogênio. Esse hidrogênio acumulou-se nos edifícios dos reatores e explodiu. A primeira explosão ocorreu em 12 de março de 2011 no reator 1, destruindo parte do edifício. Em 14 de março, uma segunda explosão atingiu o reator 3. O reator 4, que estava parado para manutenção mas tinha combustível armazenado em piscinas de resfriamento, também apresentou incêndios causados por vazamento de hidrogênio do reator vizinho. As imagens das explosões, transmitidas ao vivo para o mundo inteiro, desencadearam pânico tanto no Japão quanto internacionalmente.

A resposta imediata envolveu a evacuação de cerca de 164 mil residentes das áreas circundantes à usina, num raio de aproximadamente 20 quilômetros. Essa evacuação, realizada em meio ao caos causado pelo próprio terremoto e tsunami, resultou em pelo menos 51 mortes diretamente atribuídas ao processo, além de inúmeras outras causadas pelo estresse e pelas condições precárias a que os evacuados foram submetidos. A zona de exclusão estabelecida impediu o retorno de milhares de pessoas a suas casas por anos, e em algumas áreas a proibição continua vigente até hoje.

Em julho de 2012, a Comissão de Investigação Independente de Acidentes Nucleares do Japão publicou um relatório devastador, concluindo que as causas do acidente eram previsíveis e que a TEPCO havia falhado em cumprir requisitos básicos de segurança. A Agência Internacional de Energia Atômica também apontou negligência regulatória, indicando que o ministério responsável tanto pela regulação quanto pela promoção da indústria nuclear no Japão vivia um conflito de interesses estrutural. O acidente foi classificado no nível 7 da Escala Internacional de Acidentes Nucleares, a classificação mais grave, compartilhada apenas com Chernobyl.

As consequências ambientais foram de longa duração. Grandes quantidades de água contaminada com isótopos radioativos foram liberadas no Oceano Pacífico durante e após a crise. Estimativas científicas indicaram que 18 mil terabecquerel de césio-137 foram lançados no Pacífico durante o acidente, e ainda em 2013 cerca de 30 gigabecquerel por dia continuavam fluindo para o oceano. A TEPCO passou a usar diariamente 400 toneladas de água para resfriar os reatores danificados, gerando enormes volumes de água contaminada armazenada em mais de mil tanques no local. Em agosto de 2013, vazamentos e a ameaça de transbordo de material radioativo para o Pacífico voltaram a preocupar especialistas e governos da região.

A limpeza e o desmantelamento da usina tornaram-se um projeto de décadas. A remoção dos conjuntos de combustível das piscinas avançou ao longo dos anos 2010, mas a retirada dos detritos de combustível fundido dos reatores, tarefa muito mais complexa, tem previsão de conclusão somente entre 2040 e 2050. O programa de descontaminação das áreas afetadas continua em andamento, com a estimativa de que o processo total levará entre 30 e 40 anos desde o acidente.

O impacto na política energética japonesa foi imediato e profundo. Após o acidente, o Japão desligou progressivamente todos os seus reatores nucleares para inspeção, chegando a operar com zero energia nuclear em 2012 pela primeira vez em décadas. O país passou a investir mais intensamente em fontes de energia renovável e em medidas de eficiência energética. Embora alguns reatores tenham voltado a operar nos anos seguintes após revisões de segurança, o acidente de Fukushima alterou permanentemente a relação da sociedade japonesa com a energia nuclear, gerando um debate que continua vivo até hoje sobre os limites do risco aceitável na busca por independência energética.

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