Eva Miriam Hart nasceu em 31 de janeiro de 1905 em Ilford, Londres, filha única de Benjamin Hart e Esther Bloomfield. Embora a data de seu nascimento pareça um detalhe corriqueiro na história de muitas pessoas, ela carregaria consigo um peso singular: Eva Hart viveu para testemunhar, aos sete anos de idade, um dos maiores desastres marítimos de todos os tempos, e passou o restante de seus noventa e um anos sendo uma das últimas vozes capazes de descrevê-lo de dentro.
No início de 1912, o pai de Eva tomou a decisão de emigrar com a família para Winnipeg, no Canadá, onde planejava abrir uma farmácia. Haviam reservado passagens no navio Philadelphia, mas uma greve de mineiros de carvão em Southampton naquela primavera impossibilitou a viagem, e muitos passageiros, incluindo a família Hart, foram transferidos para outro navio que partia do mesmo porto: o RMS Titanic, que fazia sua viagem inaugural rumo a Nova York.
A mãe de Eva, Esther, nunca se sentiu à vontade com a embarcação. Havia algo que a perturbava profundamente na arrogância implícita em chamar um navio de inafundável, uma expressão que, em sua mente, equivalia a rir no rosto de Deus. Esse desconforto tomou a forma de uma vigília noturna: durante toda a travessia, Esther dormia apenas durante o dia e ficava acordada à noite, completamente vestida em sua cabine, como se estivesse pronta para agir a qualquer momento. Enquanto isso, a pequena Eva dormia sem saber que a intuição materna era mais perspicaz do que qualquer projeto de engenharia.
Na noite de 14 de abril de 1912, às 23h40, o Titanic colidiu com um iceberg. Eva estava dormindo quando o impacto aconteceu. Esther, como de costume, estava acordada, e sentiu o que descreveu como "um pequeno solavanco", algo aparentemente insignificante mas suficiente para despertar sua desconfiança. Ela acordou o marido, que foi investigar. Ao retornar, Benjamin confirmou a colisão e, cobrindo a pequena Eva com um cobertor, carregou a filha nos braços até o convés dos botes. Ali, colocou esposa e filha no Bote 14 e se despediu com as últimas palavras que Eva jamais ouviria de seu pai: "Seja uma boa menina e segure a mão da mamãe."
Eva e sua mãe foram resgatadas pelo navio RMS Carpathia e chegaram a Nova York em 18 de abril de 1912. Benjamin Hart não sobreviveu. Seu corpo, mesmo que tenha sido recuperado das águas geladas do Atlântico Norte, nunca foi identificado. Da segunda classe do Titanic, sobreviveu pouco mais da metade dos passageiros, uma proporção muito melhor do que a dos que viajavam na terceira classe, mas igualmente distante da quase total sobrevivência dos passageiros da primeira classe.
Mãe e filha retornaram ao Reino Unido logo após a chegada a Nova York. A vida de Eva continuou, mas marcada por pesadelos recorrentes, imagens que voltavam noite após noite com a nitidez perturbadora das memórias traumáticas de infância. Quando Esther morreu em 1928, Eva tinha vinte e três anos, e enfrentou seus medos de frente de uma forma incomum: reservou uma passagem num navio de passageiros com destino a Singapura. Nos primeiros quatro dias de viagem, trancou-se na cabine, recusando-se a sair. Foi um tripulante atencioso quem a convenceu a subir ao convés, e nesse momento algo se rompeu internamente. Os pesadelos foram gradualmente se afastando.
Ao longo das décadas seguintes, Eva Hart tornou-se uma das sobreviventes do Titanic mais dispostas a falar publicamente sobre o naufrágio. Ela rejeitava qualquer romantização do desastre e criticava com veemência quem, na época, discutia a possibilidade de resgatar o navio do fundo do oceano ou de recuperar objetos do local para exibi-los em museus. Para Eva, o local do naufrágio era um cemitério e deveria ser respeitado como tal. Essa posição a tornou uma voz incômoda mas necessária no debate público que cresceu especialmente após a localização dos destroços em 1985.
Eva Hart morreu em 14 de fevereiro de 1996, em sua casa em Chadwell Heath, duas semanas após completar noventa e um anos. Sua morte deixou apenas oito sobreviventes do Titanic ainda vivos. Ela havia recebido a Ordem do Império Britânico, a MBE, pelo trabalho de preservação da memória do desastre. Em sua homenagem, um pub em Chadwell Heath recebeu o nome de "The Eva Hart", um tributo modesto mas genuíno à menina que havia sobrevivido à noite mais fria e mais trágica da história da navegação civil e que, por noventa e um anos, carregou essa memória com dignidade e propósito.
