Susana Paula de Jesus Feitor nasceu em 28 de janeiro de 1975, em Alcobertas, no município de Rio Maior, e cresceu ao lado do clube local que moldaria toda a sua trajetória esportiva. Ainda menina, sua preferência natural era pela corrida, mas foi a marcha atlética, também praticada no CN Rio Maior, que a conquistou de forma definitiva. A guinada aconteceu quando, com apenas 12 anos ainda no escalão de iniciados, ela se destacou surpreendentemente em uma prova para atletas mais velhas. A experiência aguçou o interesse do seu treinador, que a convenceu a tentar o campeonato nacional de juniores dos 5 km marcha no Porto, mesmo sendo anos mais nova que as demais concorrentes. O resultado foi um notável terceiro lugar entre marchadores de 18 e 19 anos, e a partir daquele momento Susana Feitor sabia que a marcha atlética seria o seu destino.
A jovem de Rio Maior estreou-se nas grandes competições internacionais em 1990, aos 15 anos, trazendo um detalhe que se tornaria marca registrada: o característico boné na cabeça, usado em homenagem à maratonista suíça Gabriela Andersen-Schiess, que havia entrado cambaleante na pista dos Jogos Olímpicos de 1984 em estado de desidratação severa. Em Plovdiv, naquele mesmo ano, Susana sagrou-se campeã do mundo nos 5 km marcha no escalão de juniores, batendo o recorde dos campeonatos com o tempo de 21 minutos e 44,30 segundos. A margem de vitória foi de 22 segundos em relação à segunda classificada, uma demonstração cristalina de seu potencial fora do comum.
A sequência de conquistas não tardou. Em 1991, na cidade de Salónica, conquistou a medalha de prata nos Europeus de juniores, e nesse mesmo ano se estreou em competições seniores em Tóquio, alcançando um meritório décimo sétimo lugar com apenas 16 anos. A imprensa esportiva portuguesa já a chamava de "menina-prodígio" do atletismo nacional. Em 1993, adicionou ao seu palmarès o título de campeã da Europa de juniores, conquistado em San Sebastián, completando assim o par continental e mundial. Naquele mesmo ano, nos Mundiais de Stuttgart, terminou em décimo lugar na prova sênior, melhorando em sete posições o resultado obtido dois anos antes. Em 1994, desta vez a marchar em casa, no Estádio Universitário de Lisboa, finalizou em segundo lugar nos Mundiais de juniores com o tempo de 21 minutos e 12,87 segundos, ficando atrás apenas da russa Irina Stankina. Ao todo, foram quatro medalhas no escalão de juniores, um currículo que raras vezes se vê no atletismo português.
A transição definitiva para a categoria sênior aconteceu em 1994, ano em que Susana Feitor passou a disputar a prova dos 10 km marcha. Nos Europeus de Helsínquia, alcançou o oitavo lugar, numa prova que foi vencida pela finlandesa Sari Essayah na frente de seu próprio público. O ano de 1995 ficou aquém das expectativas nos Mundiais de Gotemburgo, mas foi um pequeno percalço antes de um momento histórico. Nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, a marchadora portuguesa atingiu sua melhor classificação olímpica até então ao terminar em décimo terceiro lugar. A atleta sentia que poderia ter feito ainda melhor, e provou estar certa em 1997, ao conquistar a medalha de bronze nos Europeus sub-23 em Turku, na Finlândia.
O período entre 1998 e 1999 seria o mais glorioso da carreira de Susana Feitor até aquele ponto. Nos Europeus de Budapeste de 1998, na capital húngara, viveu uma das suas atuações mais completas. Com uma marcha tecnicamente impecável, bateu o recorde nacional de Portugal com o tempo de 42 minutos e 55 segundos nos 10 km. A prova foi extraordinariamente equilibrada: Susana ficou a apenas seis segundos da medalha de ouro e a um segundo da prata, conquistando o bronze com quatro segundos de vantagem sobre a húngara Mária Urbanik, que terminou logo atrás. Por esse desempenho e pela sua contribuição ao atletismo português, foi feita Dama da Ordem do Infante Dom Henrique a 6 de outubro daquele ano.
No ano seguinte, nos Mundiais de Sevilha de 1999, Susana Feitor voltou a roçar o pódio com impressionante regularidade. Nos 20 km marcha, manteve-se sempre próxima dos lugares medalháveis e terminou em quarto lugar, a apenas cinco segundos da medalha de bronze, que acabou indo para a australiana Kerry Saxby-Junna. Aquele quarto lugar foi, naqueles campeonatos, a melhor classificação de toda a delegação portuguesa, empatado com o resultado de Luís Novo na maratona. Era um sinal claro de quanto Susana carregava nos ombros as esperanças do atletismo nacional.
A terceira participação olímpica veio em Sydney no ano 2000, onde a prova dos 20 km marcha foi marcada pelo recorde olímpico da chinesa Wang Liping. Susana Feitor cruzou a linha de chegada quatro minutos depois, em 1 hora, 33 minutos e 53 segundos, num resultado que ganhou contexto quando se soube que a atleta portuguesa havia competido com a coxa esquerda ligada devido a problemas musculares que a atormentavam desde os dias anteriores à prova. A lesão que a acompanhou em Sydney se tornaria uma presença constante e indesejada nos anos seguintes.
Em 2001, nos Mundiais de Edmonton, havia grande expectativa em torno de Susana Feitor porque, um mês antes, ela havia batido o recorde mundial dos 20 km marcha em pista. Contudo, os problemas físicos continuavam a sabotá-la, e a atleta acabou desclassificada a sete quilômetros do final da prova, num desfecho amargo que contrastava com as esperanças depositadas nela. Ainda naquele mesmo mês de agosto, na Universíada de Pequim, Susana migrou para a prova dos 10 km marcha e conquistou a medalha de prata, dominando nos primeiros sete quilômetros antes de ceder à favorita local Hongmiao Gao nos vinte segundos finais. No ano seguinte, nos Europeus de Munique de 2002, nova frustração quando a atleta teve de abandonar a prova a meio percurso por não conseguir superar as limitações físicas.
A recuperação veio em 2003, com Susana a terminar novamente os Mundiais de Paris. Em 2004, disputou seus quartos Jogos Olímpicos em Atenas. O grande momento de redenção chegaria em 2005, nos Mundiais de Helsínquia, onde conquistou a medalha de bronze nos 20 km marcha, tornando-se a primeira atleta portuguesa a medalhar numa grande prova internacional de marcha. Foi a consolidação de uma carreira que resistiu a quedas, lesões e desclassificações com uma tenacidade admirável.
Além das conquistas desportivas, Susana Feitor também se destacou no campo da representatividade atlética. Entre 2002 e 2005 presidiu a Comissão de Atletas Olímpicos, mostrando que a sua liderança ia além da pista de competição. Durante sete anos seguidos foi a recordista nacional dos 20 km marcha, marca que só seria superada por Ana Cabecinha nos Jogos Olímpicos de 2008. A sua carreira abarcou cinco participações olímpicas, uma trajetória de mais de quinze anos no alto nível que poucos atletas portugueses conseguiram igualar, tornando Susana Feitor uma das figuras mais marcantes do atletismo português contemporâneo.