Na segunda metade do século XVII, a disputa entre Portugal e Espanha pelo controle das vastas regiões ao sul da América colonial atingiu um novo capítulo decisivo. O Rio da Prata, que tanto os portugueses como os espanhóis cobiçavam como fronteira natural e rota comercial, tornou-se o palco de uma das fundações mais estratégicas e conturbadas do período colonial americano. Séculos antes, uma expedição comandada por Martim Afonso de Sousa já havia tentado colocar marcos de posse portuguesa na margem esquerda da foz daquele rio, missão frustrada pelo naufrágio de sua embarcação.
Em 1678, a Coroa Portuguesa voltou a demonstrar seu interesse em estender as fronteiras meridionais de sua colônia americana até ao Rio da Prata. O governador e capitão-mor da capitania do Rio de Janeiro, D. Manuel Lobo, recebeu a incumbência de fundar uma fortificação na margem esquerda do rio, em frente a Buenos Aires. A iniciativa contava com o entusiasmado apoio dos comerciantes fluminenses, que já mantinham expressivos negócios com a América Espanhola e desejavam consolidar aquelas rotas. A expedição de Lobo partiu de Santos no final de 1679, alcançou a bacia do Prata em janeiro do ano seguinte e, em 22 de janeiro de 1680, deu início ao estabelecimento da Colônia do Santíssimo Sacramento.
A resposta espanhola foi imediata e violenta. O governador de Buenos Aires, Vera Mujica, não tolerou a presença portuguesa a tiro de canhão de sua cidade. Em pouco tempo, tropas espanholas e indígenas atacaram o núcleo recém-fundado e o conquistaram. Diplomacia substituiu as armas: pelo Tratado Provisional de Lisboa, assinado em 7 de maio de 1681, a posse da Colônia foi devolvida a Portugal, embora com restrições severas — ficavam proibidas a construção de novas fortalezas e de edificações permanentes em pedra ou taipa. Em 23 de janeiro de 1683, uma nova esquadra portuguesa retomou formalmente o controle da Fortaleza de São Gabriel, inaugurando um período de presença ininterrupta que duraria até 1705.
Frequentemente lembrada apenas como peça estratégica da disputa de fronteiras, Colônia do Sacramento exercia uma função muito mais complexa e lucrativa do que a meramente militar. Ela se tornara um dinâmico centro de contrabando anglo-português. Desde que o monopólio lusitano de fornecimento de escravos africanos à América Espanhola foi suprimido em 1640, Portugal perdera o acesso privilegiado às riquezas da América hispânica. Colônia do Sacramento reabriu esse canal: por seus portos fluíam escravizados africanos vendidos aos espanhóis, além de açúcar, tabaco, algodão e manufaturas europeias, em troca da prata peruana que financiava o comércio atlântico. A fundação da cidade também impulsionou o desenvolvimento da pecuária na Capitania do Rio Grande de São Pedro, ao criar um mercado consumidor de gado, couro e carne salgada nas vizinhas Minas Gerais.
Entre as décadas de 1730 e 1750, a Colônia abrigava um grupo de mais de cem comerciantes, entre eles numerosos traficantes de escravos. Esses homens, embora com atividades mal vistas na metrópole, conquistaram postos de destaque na sociedade colonial e integraram a elite local. Forjavam suas redes de influência por meio de relações comerciais com outras praças lusas — Rio de Janeiro e Bahia — e pelo sistema de compadrio: era prática comum que traficantes escolhessem como padrinhos de seus filhos governadores da própria Colônia ou comerciantes de praças distantes, tecendo alianças que transcendiam os negócios e conferiam prestígio social. Luiz Garcia de Bivar, por exemplo, foi padrinho de filhos de mais de um traficante, e Manuel Coelho Rosa mantinha laços com o traficante baiano Luiz Coelho Ferreira, que além de fornecer escravos tornara-se padrinho de uma de suas filhas.
No contexto da Guerra de Sucessão Espanhola, entre 1701 e 1713, Portugal aderiu à Grande Aliança contra a Espanha e a França. A fortificação de Sacramento foi reconstruída com planta abaluartada a partir de 1704, mas foi atacada pelos espanhóis de Buenos Aires ainda naquele ano e conquistada em 1705 por forças sob o comando de Afonso Valdez. Só seria devolvida aos portugueses pelo segundo Tratado de Utrecht, em 6 de fevereiro de 1715, com a peculiar cláusula da chamada "política do tiro de canhão": o território português não deveria se estender além do alcance de um projétil disparado dos muros da fortaleza, limitação que revelava quanto o conflito havia se tornado uma questão de metros tanto quanto de tratados.
As disputas não cessaram. Ao longo do século XVIII, a Colônia mudou de mãos diversas vezes, alternando entre domínio português e espanhol conforme os ventos das guerras europeias sopravam de um lado ou do outro. Cada troca de mãos deixava marcas na malha urbana, nos costumes e na memória de seus habitantes. Com a criação do Vice-Reino do Rio da Prata em 1776 e o Tratado de Santo Ildefonso em 1777, Portugal finalmente cedeu Sacramento à Espanha em troca de outras concessões territoriais na América do Sul.
Hoje, Colônia do Sacramento é a capital do departamento de Colônia, no Uruguai, e seu centro histórico é reconhecido pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade. As ruas de paralelepípedo, os fragmentos de muralhas, o farol colonial e as ruínas de igrejas narram em silêncio três séculos de disputas imperiais, contrabando atlântico e convivência forçada entre dois impérios que jamais chegaram a um acordo definitivo sobre onde uma América terminava e a outra começava.


