civilizacoes perdidas

Recife

Município brasileiro e a capital do estado brasileiro de Pernambuco

7 min01/01/2024
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Recife, capital do estado de Pernambuco, surgiu como uma das mais complexas e fascinantes cidades do Brasil colonial, construída sobre uma planície aluvial recortada por rios, estuários e manguezais que lhe conferem uma geografia única entre as metrópoles brasileiras. Com área territorial de aproximadamente 218 quilômetros quadrados, a cidade não cresce para o interior como a maioria dos grandes centros urbanos, mas se estende sobre ilhas e penínsulas que o mar e os rios moldam continuamente. Essa característica geográfica rendeu-lhe o apelido de Veneza Brasileira, embora o romancista francês Albert Camus, que a visitou em 1949, a tenha comparado a Florença ao descrevê-la como a Florença dos Trópicos.

O nome da cidade vem do árabe ár-raçif, que significa calçada, cais ou paredão, uma referência direta aos recifes de coral e arenito que protegem a costa e tornaram o local um ancoradouro natural privilegiado. A palavra já aparecia na forma arcaica "arracefe" no português do século XIII, segundo registros lexicográficos. O topônimo como referência ao porto aparece pela primeira vez no diário de Pero Lopes de Sousa, em 1532, quando ele chamou o local de "Barra dos Arrecifes". No Foral de Olinda de 1537, o primeiro donatário Duarte Coelho referia-se ao lugar como "ribeiro do mar dos Arrecifes dos Navios". O nome definitivo como Vila de Santo Antônio do Recife veio em 1709, e cidade do Recife apenas em 1823.

A região metropolitana do Recife é palco de alguns dos primeiros eventos documentados do Novo Mundo em território que viria a ser o Brasil. No Cabo de Santo Agostinho, em 26 de janeiro de 1500, o navegador espanhol Vicente Yáñez Pinzón avistou e pisou em terra brasileira antes da chegada de Pedro Álvares Cabral, tornando aquele ponto costeiro o primeiro do continente sul-americano a ser alcançado por europeus na era das grandes navegações. Na Ilha de Itamaracá, em 1516, estabeleceu-se Pero Capico como primeiro governador das Partes do Brasil, e ali foi construído o que se considera o primeiro engenho de açúcar da América portuguesa.

A cidade propriamente dita emergiu em 1537 na principal área portuária da Capitania de Pernambuco, a mais rica do Brasil Colonial. O açúcar pernambucano e o pau-brasil, chamado também de pau-de-pernambuco, eram mercadorias cobiçadas nos mercados europeus, e o porto do Recife funcionava como a porta pela qual a riqueza da capitania se escoava para a metrópole. Por volta do ano 1000, a região era habitada por índios tapuias, que foram expulsos para o interior por povos tupis vindos da Amazônia. Quando os portugueses chegaram no século XVI, encontraram o território ocupado pelos caetés, povo tupi que dominava a costa pernambucana.

O episódio mais dramático da história colonial recifense foi a ocupação holandesa, que durou vinte e quatro anos no século XVII. A Companhia das Índias Ocidentais dos Países Baixos tomou Pernambuco em 1630 e transformou o Recife na sede de Nova Holanda, a colônia que os neerlandeses tentaram construir no Nordeste brasileiro. O período mais célebre dessa ocupação foi o governo do conde João Maurício de Nassau, de 1637 a 1644, quando o Recife viveu uma espécie de florescimento cultural e urbano incomum para a época. Nassau trouxe cientistas, pintores e cartógrafos que documentaram a natureza e os povos do Nordeste com rigor inédito. A cidade foi urbanizada, pontes foram construídas, jardins foram criados. Mas a administração holandesa em seu conjunto foi marcada por tensões econômicas e religiosas que acabaram por unir portugueses, luso-brasileiros e indígenas numa resistência que culminou na Insurreição Pernambucana e na expulsão definitiva dos neerlandeses em 1654.

Após a saída dos holandeses, o Recife emergiu como a cidade mais importante de Pernambuco, com uma vocação comercial fortemente influenciada pelos comerciantes portugueses conhecidos como mascates. A tensão entre esses mascates, que controlavam o comércio no Recife, e a aristocracia rural de Olinda chegou ao ponto de ruptura na Guerra dos Mascates, no início do século XVIII, um conflito que refletia as contradições internas da colônia portuguesa muito antes que os movimentos de independência tomassem forma no continente.

O Recife do século XIX e XX cresceu como metrópole regional de alcance irradiador. Hoje é a quarta capital brasileira na hierarquia da gestão federal, após Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, e possui o quinto maior aglomerado urbano do país, com 3,7 milhões de habitantes em 2022. A cidade sedia a Sudene, a Eletrobras Chesf, o Comando Militar do Nordeste e o maior número de consulados estrangeiros fora do eixo Rio-São Paulo, incluindo os dos Estados Unidos, China, Alemanha, França e Reino Unido. Sua região metropolitana agrega 71 municípios com um PIB combinado de 135 bilhões de reais.

O patrimônio histórico e cultural do Recife é reconhecido internacionalmente. O Centro Histórico, em conjunto com os sítios de Olinda, Igarassu e Jaboatão dos Guararapes, forma um dos mais valiosos conjuntos barrocos do Brasil. A cidade integra a Rede de Cidades Criativas da UNESCO como Cidade da Música, reconhecimento que remete a uma tradição musical profunda que engloba o frevo, o maracatu, o coco e inúmeras outras formas de expressão cultural nascidas no encontro de raízes africanas, indígenas e europeias naquele pedaço específico do Nordeste. Na gramática própria da cidade, o nome correto é sempre "o Recife", com artigo masculino, como defendia o historiador José Antônio Gonsalves de Mello: o nome vem de um acidente geográfico, e o artigo definido é parte inseparável da identidade do lugar.

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