João Agripino Filho nasceu em 1º de março de 1914, na pequena cidade de Brejo do Cruz, no sertão da Paraíba, com o nome de João Mariz Maia. Filho de João Agripino Maia de Vasconcelos II e de Angelina Mariz Maia, ele era herdeiro de duas das mais poderosas tradições políticas do Nordeste brasileiro: os Maia, oriundos de Catolé do Rocha com ramificações no Rio Grande do Norte, e os Mariz, família enraizada na cidade de Sousa. Crescer nesse ambiente de influência e prestígio regional moldou desde cedo a vocação pública que definiria toda a sua trajetória.
Sua formação intelectual caminhou pelas principais instituições do Nordeste. Começou seus estudos na Escola Dom Higina, em sua cidade natal, e depois seguiu para João Pessoa, onde cursou o Liceu Paraibano. Ao ingressar na Faculdade de Direito do Recife, uma das mais tradicionais escolas jurídicas do país, João Agripino revelou também sua veia combativa: tornou-se líder estudantil e integrou o grupo que se opunha ao integralismo e ao nazismo, movimentos que ganhavam força na Europa e tinham eco no Brasil dos anos 1930. Formado bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, retornou ao Nordeste para exercer a advocacia em favor de pequenos camponeses, trabalhou como professor primário e atuou como promotor público tanto no Rio Grande do Norte quanto na Paraíba.
A rede de parentesco que cercava João Agripino era de uma extensão extraordinária, mesmo para os padrões de uma política nordestina marcada historicamente pelos laços familiares. Era irmão de Tarcísio Maia, que governaria o Rio Grande do Norte entre 1975 e 1979. Era primo de Lavosier Maia, governador do mesmo estado entre 1979 e 1982. Era tio do senador José Agripino Maia, que foi prefeito de Natal e duas vezes governador do Rio Grande do Norte. Tinha ainda parentesco com o governador Antônio Mariz, com César Maia e Rodrigo Maia. Ao mesmo tempo primo e cunhado do coronel José Sergio Maia de Vasconcelos, chefe político de Catolé do Rocha e prefeito daquela cidade por quatro mandatos, João Agripino era, portanto, um nó central numa teia de poder que estendia seus tentáculos por dois estados.
Antes de ingressar formalmente na política eletiva, João Agripino exerceu o cargo de procurador da prefeitura de Brejo do Cruz e de promotor público em Jardim do Seridó, acumulando experiência institucional que lhe seria útil mais tarde. Em 1945, participou da fundação da União Democrática Nacional, o partido que reunia grande parte das oposições ao Estado Novo de Getúlio Vargas e que se tornaria uma das principais forças da política brasileira na chamada experiência democrática de 1946 a 1964. Pela UDN, candidatou-se e foi eleito deputado federal pela Paraíba em 1946, cumprindo mandatos sucessivos por mais de uma década, tornando-se uma voz respeitada nos debates do Congresso Nacional.
O auge de sua projeção nacional no período democrático chegou em 1961, quando o presidente Jânio Quadros o nomeou para chefia do recém-criado Ministério de Minas e Energia. João Agripino tornou-se assim o primeiro titular da pasta, de 31 de janeiro a 25 de agosto de 1961, período que coincidiu exatamente com o breve e conturbado governo Jânio, encerrado com a surpreendente renúncia do presidente. Com a saída de Jânio, João Agripino retornou ao Congresso e, em 1962, elegeu-se senador pelo estado da Paraíba, consolidando sua posição de liderança regional.
O movimento militar de 1964, que derrubou o presidente João Goulart, contou com o apoio de João Agripino, como ocorreu com boa parte dos políticos da UDN. Com a implantação do bipartidarismo determinado pelos militares, filiou-se à Aliança Renovadora Nacional, o partido de sustentação do regime. Em 31 de janeiro de 1966, tomou posse como governador da Paraíba, sucedendo Pedro Gondim e inaugurando sua gestão mais longa no Poder Executivo estadual. Governou por cinco anos, até 15 de março de 1971, sendo sucedido por Ernâni Sátiro por meio de eleição indireta, o mecanismo que os governos militares utilizavam para controlar as escolhas nas unidades da federação.
Durante seu período como governador, João Agripino dedicou atenção ao desenvolvimento econômico da Paraíba, estado marcado pela seca e pela pobreza endêmica no sertão. Sua gestão coincidiu com a fase inicial do chamado "milagre econômico" brasileiro, que acelerava a industrialização e a infraestrutura em todo o país, ainda que os benefícios chegassem de forma desigual ao Nordeste. Ao deixar o governo estadual, passou a dirigir o Banco Industrial de Campina Grande, mostrando a diversidade de suas atuações entre o setor público e a iniciativa privada.
Em 1973, João Agripino foi nomeado ministro do Tribunal de Contas da União, a principal corte de fiscalização das contas públicas federais do país. Além de ministro, chegou a presidir o TCU, posição de grande relevância para o controle da administração pública. Nesse cargo, publicou em 1971 um extenso relatório sobre as contas do presidente da República, documento de 283 páginas que demonstrava seu rigor técnico e seu comprometimento com a transparência fiscal.
Com o processo de abertura política iniciado pelo general Ernesto Geisel e conduzido pelo general João Figueiredo, o Brasil caminhou para o pluripartidarismo a partir de 1979. João Agripino acompanhou o movimento de reorganização partidária e, em 1981, filiou-se ao Partido Popular, liderado por Tancredo Neves, que reunia políticos egressos tanto do MDB quanto da ARENA moderada. Quando o PP se fundiu ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro, em 1982, João Agripino candidatou-se pelo PMDB e foi eleito deputado federal, retornando à Câmara onde havia iniciado sua carreira política décadas antes.
Nos últimos anos de vida, João Agripino manteve-se ativo intelectualmente e publicou em 1985 o livro "O Brasil em Desordem", pela Câmara dos Deputados, no qual registrou suas reflexões sobre a crise política e econômica do país naquele período conturbado de transição democrática. Faleceu em João Pessoa em 6 de fevereiro de 1988, aos 73 anos, deixando um legado construído ao longo de décadas de serviço público em múltiplas esferas: legislativa, executiva, judiciária e de controle. Sua trajetória é indissociável da história política do Nordeste brasileiro no século XX, um período marcado pela tensão entre os interesses regionais, os arranjos oligárquicos e as transformações que o país atravessou entre a República Velha e a redemocratização.
