civilizacoes perdidas

Fundação de Roma

A Fundação de Roma é um evento ainda pesquisado por arqueólogos e historiadores, uma vez q

7 min01/01/2024
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Poucos eventos na história da civilização ocidental geraram tanta fascinação, tantas disputas e tantos estudos quanto a fundação de Roma. A cidade que dominou o mundo mediterrâneo por séculos e cujo legado jurídico, linguístico e cultural ainda pulsa na Europa contemporânea começou como um pequeno assentamento em colinas às margens do rio Tibre, mas as circunstâncias exatas de seu surgimento permanecem envoltas em névoa, divididas entre o mito e a evidência arqueológica.

As fontes literárias sobre o assunto são tardias em relação aos acontecimentos que descrevem. As obras do historiador Tito Lívio e dos poetas Virgílio e Ovídio, que registraram as tradições fundacionais mais conhecidas, foram produzidas durante o reinado do imperador Augusto, centenas de anos depois dos eventos narrados. Naquela época, o passado mítico foi reinterpretado à luz dos interesses imperiais, fundindo lendas de origens diversas em um único conto coerente que servia tanto à glória de Roma quanto à legitimidade política do novo regime augustano.

Segundo essa tradição consolidada, Roma teria sido fundada por Rômulo e Remo, gêmeos descendentes de Enéias, o herói troiano que fugira da destruição de Troia e chegara à península Itálica. Durante o reinado do imperador Augusto, o historiador Marco Terêncio Varrão, vivendo entre 116 e 27 a.C., estabeleceu a data de fundação como 21 de abril de 753 a.C., cálculo derivado de estudos astronômicos conduzidos pelo astrólogo Lúcio Tarúcio Firmano. Essa data ganhou caráter oficial e ainda hoje é celebrada no feriado romano do Natale di Roma.

A arqueologia, porém, conta uma história mais complexa e mais antiga. Pesquisas realizadas na área de Roma detectaram presença humana remontando a cerca de 14 mil anos, com restos cerâmicos, ferramentas e armas de pedra datados de aproximadamente 10 mil anos. As primeiras evidências concretas de habitação permanente nas colinas romanas são ossos de animais e fragmentos de cerâmica encontrados no Fórum Boário, na área de Santo Omobono, datados dos séculos XIV e XIII a.C. No século XI a.C. já havia construções no Fórum Romano, e uma necrópole do século X a.C. foi identificada na mesma região, com fossas de cremação características dos povos indo-europeus. No Palatino, detectaram-se habitações do século IX a.C.

Esses dados apontam para uma ocupação muito anterior ao século VIII a.C., mas a organização política que caracteriza o surgimento de uma cidade como entidade distinta parece ter se consolidado gradualmente. Antes do século VIII a.C., existiam aldeias dispersas nas colinas, habitadas principalmente por latinos, que se confederavam em momentos de perigo para enfrentar inimigos comuns. Evidências arqueológicas mostram sucessivos recintos muralhados no centro de Roma, dois dos séculos VIII e VII a.C. e outro dos séculos VII e VI a.C., indicando um processo de urbanização progressiva.

O contexto geográfico e humano em que Roma emergiu era extraordinariamente dinâmico. Os latinos e sabinos, que integravam o grupo de populações indo-europeias originárias da Europa Central, haviam chegado à península Itálica em ondas sucessivas em meados do segundo milênio a.C. Na região chamada Velho Lácio, eles conviveram e competiram com dois outros povos de grande influência: os etruscos, que floresceram ao norte de Roma na Etrúria a partir do século VIII a.C. e fundaram cidades como Tarquinia, Veios e Volterra; e os gregos, que estabeleceram colônias na chamada Magna Grécia, como Síbaris, Tarento, Crotona, Cumas e Nápoles, entre 750 e 550 a.C.

A localização geográfica escolhida pelos primeiros habitantes foi de uma inteligência estratégica notável, ainda que provavelmente resultado de fatores práticos e acumulados ao longo de gerações. Roma cresceu na margem esquerda do rio Tibre, a cerca de 25 quilômetros de sua foz, num ponto onde o rio era navegável e oferecia acesso ao mar Tirreno. As colinas ao redor criavam defesas naturais, enquanto os vales vulcânicos entre elas proporcionavam solos extremamente férteis, ricos em potássio e fosfatos. Os montes Capitólio e Palatino funcionavam como cidadelas defensáveis, e a ilha Tiberina facilitava a travessia do rio.

O maior trunfo da posição geográfica romana foi o controle sobre o tráfego comercial. As mercadorias que vinham do mar Tirreno precisavam subir pelo Tibre para alcançar tanto a Etrúria ao norte quanto a Campânia ao sul. Roma conseguiu assim se posicionar como ponto de controle e de troca na intersecção das principais rotas terrestres da península. As importantes salinas próximas à cidade transformaram-na em centro do comércio do sal, e a futura via Salária tornaria essa função ainda mais relevante. Os rebanhos também desempenhavam papel central na economia desse período formativo.

Durante muito tempo, os historiadores postularam que os verdadeiros fundadores da cidade teriam sido os etruscos, que se instalaram na região no século VI a.C. e exerceram influência decisiva sobre a organização urbana e os costumes romanos. Evidências arqueológicas recentes, contudo, questionam essa afirmação ao mostrar continuidade habitacional nas mesmas colinas muito antes da chegada etrusca, sugerindo que a contribuição etrusca foi de ordenação e sofisticação, não de criação.

A etimologia do próprio nome Roma permanece controversa. Embora a tradição a associe ao mítico Rômulo, estudiosos clássicos e modernos propuseram origens diversas, ligadas a termos latinos, etruscos e até gregos. O debate é sintomático da complexidade de uma cidade que, desde os primeiros séculos de existência, funcionou como encruzilhada de culturas, línguas e tradições. Roma não nasceu de um único ato fundador, mas de um longo processo de sedimentação humana, política e cultural que continua sendo desvendado a cada nova escavação.

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