O ano de 1978 inscreveu-se na memória coletiva como um período de profundas transformações políticas, religiosas e geopolíticas, marcado por eventos que alterariam o curso do século XX. Iniciado num domingo conforme o calendário gregoriano, correspondia ao ano do Cavalo no horóscopo chinês e foi solenemente declarado pela Organização das Nações Unidas como o Ano Internacional Antiapartheid, evidenciando a crescente pressão internacional sobre o regime segregacionista sul-africano.
Na América do Sul, o mês de junho trouxe euforia continental com a conquista do título mundial de futebol pela seleção argentina, que em 25 de junho derrotou a Holanda na grande final disputada em Buenos Aires. A vitória não foi apenas esportiva: ocorreu no contexto da ditadura militar liderada por Jorge Rafael Videla, e o governo aproveitou o êxito do torneio para projetar uma imagem de normalidade ao mundo, enquanto a repressão política continuava nos porões do regime.
No campo religioso, 1978 seria recordado como o Ano dos Três Papas. Em 6 de agosto, falecia o Papa Paulo VI após quinze anos de pontificado, um papado que vira o Concílio Vaticano II mudar a face da Igreja Católica. Vinte dias depois, em 26 de agosto, o cardeal Albino Luciani era eleito como seu sucessor, tomando o nome de João Paulo I. Sua eleição trouxe esperança e simpatia ao mundo católico — o homem era modesto, sorria com naturalidade e parecia representar uma nova humanidade no trono de São Pedro.
Trinta e três dias depois de eleito, o Papa João Paulo I foi encontrado morto em seus aposentos, em 28 de setembro, numa das mortes mais enigmáticas da história da Igreja. A brevidade de seu pontificado e as circunstâncias pouco esclarecidas de seu falecimento alimentaram décadas de especulação e debate. Em apenas pouco mais de um mês, a Igreja havia perdido dois pontífices.
Menos de três semanas após a morte de João Paulo I, em 16 de outubro, o conclave elegeu o cardeal polonês Karol Józef Wojtyła como o novo papa. Ele assumia o nome de João Paulo II, tornando-se o primeiro pontífice não italiano em mais de quatrocentos anos. A escolha de um papa da Polônia comunista enviou um sinal poderoso ao mundo, especialmente às nações sob domínio soviético, e inauguraria um pontificado que transformaria a geopolítica global nas décadas seguintes.
No cenário político, vários países vivenciaram mudanças de governo ou passos em direção à autonomia. Em 1 de julho, a Austrália concedeu autogoverno ao Território do Norte, enquanto em 7 de julho as Ilhas Salomão proclamavam sua independência. Em 1 de outubro, Tuvalu tornava-se nação soberana e em 3 de novembro era a vez da Dominica. Cada uma dessas independências representava o desfecho de processos históricos ligados à descolonização britânica no Pacífico e no Caribe.
No Brasil, o ano carregava uma simbologia especial no contexto da abertura política gradual. Em 31 de dezembro, o presidente Ernesto Geisel enviou ao Congresso uma emenda para extinguir o Ato Institucional nº 5, o famigerado AI-5, instrumento de repressão que vigorava desde dezembro de 1968. Esse gesto, ainda que tardio e controlado pelo próprio regime militar, sinalizava que a distensão não era apenas retórica — havia um calendário real para o retorno à legalidade democrática.
Em Portugal, a instabilidade política da Primeira República continuava a eclodir mesmo décadas depois de seu ocaso. Em 28 de agosto, Alfredo Nobre da Costa substituía Mário Soares na chefia do governo, numa das muitas trocas de primeiro-ministro que marcaram o período pós-Revolução dos Cravos. E em 1 de fevereiro nascia a Academia da Força Aérea portuguesa, instituição que consolidaria a formação de oficiais aviadores do país.
Fatos inusitados também marcaram 1978. Em 16 de maio, a imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, sofreu um atentado que chocou a população católica do país. Em 5 de junho, encerrava-se oficialmente a chamada Guerra dos Chimpanzés de Gombe, um conflito entre grupos de chimpanzés estudados por Jane Goodall na Tanzânia que demonstrou, de forma perturbadora, a capacidade de primatas não humanos para violência organizada e territorial.
Entre os que deixaram o mundo em 1978, destacam-se o músico britânico Keith Moon, baterista do The Who, falecido em 7 de setembro aos 32 anos em circunstâncias ligadas ao abuso de substâncias, e Jim Jones, líder da seita Templo do Povo, morto em 18 de novembro após ordenar o suicídio em massa de mais de novecentos seguidores em Jonestown, na Guiana — um dos episódios mais macabros da história das religiões modernas. O Prêmio Nobel da Paz foi dividido entre o egípcio Mohamed Anwar Al-Sadat e o israelense Menachem Begin, reconhecendo os Acordos de Camp David que prometiam uma paz histórica no Oriente Médio.
Entre os nascidos em 1978 figuram nomes que marcariam o entretenimento global nas décadas seguintes: Ashton Kutcher, nascido em 7 de fevereiro; Paulo Gustavo, o grande humorista brasileiro, nascido em 30 de outubro; e Rachel McAdams, atriz canadense nascida em 17 de novembro. São figuras que cresceram neste ano de múltiplas crises e recomeços, carregando em si, sem o saber, a memória de um tempo que não parava de se reinventar.


