biografias

1967

Ano

4 min01/01/2024
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O ano de 1967 pertence àquela categoria de anos que parecem condensar em seus doze meses uma quantidade desproporcional de acontecimentos transformadores. Começado num domingo segundo o calendário gregoriano e correspondente ao ano da Cabra no horóscopo chinês, foi declarado pela ONU como o Ano Internacional do Turismo — ironia para um ano em que o mundo se mostrava tão convulsionado pela violência política e pelas transformações culturais.

Na América Latina, o episódio mais dramático do ano se desenrolou nas montanhas da Bolívia. Ernesto Che Guevara, o médico argentino que se tornara ícone da revolução cubana e símbolo da luta armada em todo o mundo, tentava replicar na Bolívia o modelo guerrilheiro que havia triunfado em Cuba. Em 8 de outubro, ele e seus companheiros foram capturados pelas forças bolivianas auxiliadas pela CIA nas proximidades de La Higuera. No dia seguinte, 9 de outubro, Guevara era executado. Tinha 39 anos. Sua morte, longe de apagar sua influência, transformou-o num mártir cujo rosto estampado em boinas vermelhas circularia pelas décadas seguintes em cartazes de movimentos sociais nos cinco continentes.

Na Europa, o mês de abril trouxe uma sombra sobre a Grécia. Em 21 de abril, um grupo de militares chefiados por George Papadopoulos deu um golpe de Estado e instalou uma ditadura que obrigou o rei Constantino II a fugir do país. O regime dos coronéis, como ficou conhecido, duraria até 1974, suspendendo as liberdades civis e transformando a Grécia numa anomalia dentro do bloco ocidental num período de Guerra Fria em que a retórica democrática dos aliados soava particularmente dissonante.

No Oriente Médio, em 5 de junho, Israel lançou ataques simultâneos contra o Egito, a Síria e a Jordânia, dando início à chamada Guerra dos Seis Dias. O conflito terminou com uma vitória israelense esmagadora: em apenas seis dias, Israel ocupou a Península do Sinai, a Faixa de Gaza, a Cisjordânia, Jerusalém Oriental e as Colinas de Golã. O resultado daquela guerra moldaria a geografia política do Oriente Médio por décadas e continua a ser um nó irresolúvel nos esforços de paz na região.

No continente africano, o Togo assistia à ascensão de Gnassingbé Eyadéma ao poder após um golpe de Estado em 14 de abril, iniciando um dos regimes mais longos da história africana — Eyadéma governaria o país até sua morte em 2005. No Brasil, 15 de março marcou uma mudança constitucional relevante: a República dos Estados Unidos do Brasil passou a se chamar formalmente República Federativa do Brasil, nome que o país carrega até hoje. Em dezembro do mesmo ano, foi criada a FUNAI, Fundação Nacional do Índio, órgão destinado a proteger e promover os direitos dos povos indígenas brasileiros.

No campo cultural, 1967 ficou para sempre associado ao lançamento, em 1º de junho, do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band dos Beatles, considerado por críticos e historiadores um dos marcos da história da música popular. O disco representou uma ruptura com o conceito tradicional de álbum, explorando novas técnicas de estúdio e temáticas que iam muito além do universo do pop convencional. Lançado no auge do movimento contracultural, tornou-se uma espécie de trilha sonora de uma geração que questionava as estruturas políticas e sociais estabelecidas.

As perdas de 1967 foram igualmente significativas. Em 17 de julho, morreu John Coltrane, um dos maiores saxofonistas da história do jazz, cuja exploração harmônica e espiritual havia redefinido as possibilidades do gênero. Em 18 de julho, falecia o presidente Castello Branco, que havia liderado o Brasil nos primeiros anos do regime militar instaurado em 1964. Em 19 de novembro, o mundo da literatura perdia João Guimarães Rosa, o mineiro de Cordisburgo que com Grande Sertão: Veredas havia transformado a língua portuguesa e cuja morte privou o mundo de um possível Prêmio Nobel que muitos consideravam inevitável. Em outubro, morria Puyi, o último imperador da China, que havia ascendido ao trono com apenas dois anos de idade em 1908.

Entre os nascidos em 1967 estão nomes que marcariam a cultura das décadas seguintes. Em 20 de fevereiro, nasceu Kurt Cobain, o vocalista do Nirvana cuja voz e cuja angústia definiram uma geração. Em 20 de junho, veio ao mundo Nicole Kidman, que se tornaria uma das atrizes mais premiadas do cinema mundial. Em 7 de novembro nasceu David Guetta, o produtor e DJ francês que décadas mais tarde dominaria as pistas de dança de todo o planeta. O Nobel da Paz não foi concedido naquele ano, uma abstenção que o comitê norueguês às vezes usa para expressar a dificuldade de distinguir o mérito num mundo em conflito.

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