Jüri Uluots foi uma das figuras mais notáveis da resistência estónia à ocupação estrangeira na primeira metade do século XX, transitando com rara dignidade entre os papéis de jurista, professor, jornalista, parlamentar e estadista. Nascido em 13 de janeiro de 1890, em Kirbla, na região de Läänemaa, morreu no exílio em Estocolmo em 9 de janeiro de 1945, às vésperas do fim da guerra que transformara seu país em território disputado entre dois regimes totalitários.
A formação de Uluots foi profundamente marcada pelo Direito. Entre 1910 e 1918, estudou na Universidade de São Petersburgo, em plena era czarista, absorvendo os fundamentos jurídicos que o acompanhariam por toda a vida. Com a independência da Estónia em 1918, voltou ao seu país e passou a ensinar Direito Romano e Direito Estoniano na Universidade de Tartu, onde se tornaria decano da Faculdade de Direito — uma posição que lhe conferia enorme prestígio intelectual e autoridade moral na jovem república.
Ao lado da carreira acadêmica, Uluots também se dedicou ao jornalismo. Entre 1919 e 1920, atuou como editor do jornal Kaja; entre 1937 e 1938, foi editor-chefe do Postimees, um dos mais importantes periódicos estonios. Sua presença no espaço público era, portanto, múltipla e influente: professor formador de gerações de juristas, intelectual com voz nos debates nacionais e político de carreira.
No parlamento estoniano, Uluots representou seus eleitores em dois mandatos: de 1920 a 1926 e de 1929 a 1932. Mais tarde, entre abril de 1938 e outubro de 1939, presidiu a câmara baixa do parlamento. Em 1939, foi nomeado primeiro-ministro — cargo que exerceria num dos períodos mais críticos da história estónia. A paz que reinara na Europa desde o fim da Primeira Guerra havia se estilhaçado com a ascensão do nazismo e os pactos secretos que dividiram o continente em zonas de influência.
Em junho de 1940, as tropas soviéticas invadiram a Estónia, instalando um governo fantoche liderado por Johannes Vares. O governo constitucional de Uluots foi forçado à clandestinidade. Os Estados Unidos, o Reino Unido e outras potências ocidentais recusaram-se a reconhecer a legalidade da anexação soviética, considerando-a uma ocupação ilegal — posição que persistiria formalmente por décadas. Quando o presidente Konstantin Päts foi preso e deportado para a Rússia em julho de 1940, coube a Uluots, conforme determinava a constituição estónia, assumir as funções do presidente.
Com a invasão nazista da Estónia em 1941, o governo fantoche soviético foi derrubado, mas a Estónia passou de uma ocupação a outra. Uluots recusou categoricamente a oferta alemã para chefiar um governo colaboracionista, optando por integrar a resistência clandestina contra o nazismo. A recusa foi um gesto de integridade notável, considerando os riscos envolvidos.
Em março de 1944, enquanto o Exército Vermelho avançava pelo leste, o Comitê Nacional da República da Estónia foi formado pelos grupos de resistência. Em abril do mesmo ano, grande parte de seus membros foi presa pelas autoridades alemãs. O objetivo do comitê era proclamar um governo provisório legítimo no intervalo entre a retirada alemã e a chegada soviética. Em 20 de abril de 1944, o comitê declarou oficialmente que a nomeação soviética de Vares havia sido ilegal e que Uluots detinha, desde 21 de junho de 1940, as funções presidenciais por força da constituição.
Em janeiro de 1944, antes de todos esses eventos, Uluots havia feito um discurso radiofônico chamando todos os homens nascidos a partir de 1904 a se apresentarem para o serviço militar. A resposta foi surpreendente: 38 mil recrutas compareceram aos centros de registro. Milhares de estônios que serviam no exército finlandês atravessaram o Golfo da Finlândia para integrar a recém-formada Força de Defesa Territorial. A estratégia era clara: ao lutar contra a URSS, a Estónia esperava atrair o apoio ocidental e, por essa via, recuperar sua independência.
Em setembro de 1944, diante da retirada alemã, Uluots nomeou Otto Tief para liderar um novo governo. Em 20 de setembro, o Governo Nacional da Estónia foi solenemente proclamado. A Força de Defesa ocupou edifícios governamentais e hasteou a bandeira azul-negra-branca no alto da Torre Pikk Hermann em Tallinn — um ato carregado de enorme significado simbólico. O poder durou apenas alguns dias antes de ser esmagado pela nova invasão soviética.
A maioria dos membros do gabinete acabou presa e enviada para campos de trabalho na Sibéria. O restante do governo fugiu para Estocolmo, onde continuou operando no exílio até 1992, quando o então primeiro-ministro em funções de presidente apresentou suas credenciais ao novo presidente eleito Lennart Meri, com a restauração plena da República da Estónia. Uluots não viveu para ver esse dia: morreu pouco depois de chegar à Suécia em 1945. Mas seu nome e o breve hastear da bandeira estónia em Tallinn negaram para sempre à historiografia soviética o direito de chamar a invasão de "libertação".

