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Tia Ciata

Mãe-de-santo e sambista brasileira

5 min de leitura01/01/2024
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Hilária Batista de Almeida nasceu em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, em 13 de janeiro de 1854, numa época em que o Brasil ainda era um país escravagista e a população negra vivia sob as mais duras restrições legais e sociais. Ela cresceria para se tornar Tia Ciata, uma das figuras mais decisivas da história cultural brasileira, mulher que ajudou a criar o samba carioca ao mesmo tempo em que preservava e transmitia as tradições religiosas afro-brasileiras num ambiente hostil.

Ainda jovem, Hilária demonstrou a vocação que marcaria toda a sua vida. Aos 16 anos, apesar da pouca idade, já participava da fundação da Irmandade da Boa Morte em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, uma associação de mulheres negras de enorme importância para a preservação das tradições afro-brasileiras e para a organização social da comunidade negra. Ao mesmo tempo, foi iniciada no candomblé por Bamboxê Obiticô, um pai de santo africano de grande prestígio, e confirmada como filha de Oxum, o orixá das águas doces, da beleza e do amor.

Aos 22 anos, Hilária embarcou na migração que transformaria sua vida e que também transformaria o Rio de Janeiro. Ela se juntou à chamada diáspora baiana, o movimento de trabalhadores e trabalhadoras negros que deixavam a Bahia para reconstruir suas vidas na capital federal, levando consigo suas crenças, suas músicas, suas culinárias e suas formas de organização comunitária. Foi ela quem transportou consigo o samba de roda, aquela forma musical circular e participativa que seria a semente do que viria a ser o samba carioca.

No Rio de Janeiro, Hilária tornou-se Tia Ciata e construiu uma vida de múltiplas dimensões. Casou-se com João Baptista da Silva, funcionário público, com quem teve 14 filhos, e o prestígio do marido lhe abriu algumas portas importantes dentro da sociedade da época. A família se estabeleceu na região da Praça Onze, conhecida como "Pequena África", o coração da comunidade negra carioca, onde as tradições baianas se misturavam com as influências da cidade e forjavam algo novo.

Para sustentar a família, Tia Ciata trabalhou como quituteira, uma prática que ela elevou à condição de arte e de resistência cultural. Paramentada com turbantes brancos e vestidos volumosos brancos, ela vendia em tabuleiros bolos, manjares, cocadas e outros doces da tradição baiana. Aqueles alimentos não eram apenas comida: eram parte de um universo ritual e simbólico que conectava a comunidade negra às suas raízes africanas. As quituteiras como Tia Ciata foram fundamentais para manter viva a cultura popular trazida da Bahia num contexto em que ela era sistematicamente perseguida e marginalizada.

No campo do candomblé, Tia Ciata tornou-se uma liderança de primeira importância. No Rio, tornou-se filha-de-santo de João Alabá, de Omulu, cuja casa era considerada uma extensão carioca de uma tradição religiosa originada em Salvador. Antes de ter sua própria casa de candomblé, chegou a ocupar a posição de Mãe Pequena, a substituta imediata do babalorixá, na casa de João Alabá. Sua reputação como mãe de santo e curandeira era tão grande que lhe conferia uma proteção informal, já que as reuniões que aconteciam em sua casa raramente eram perturbadas pela polícia que perseguia as práticas religiosas afro-brasileiras em outras localidades.

Consta que essa proteção tinha também uma dimensão política concreta. Segundo registros da época, Tia Ciata teria providenciado o tratamento de uma ferida na perna do presidente Venceslau Brás, que, em gratidão, atendeu ao seu pedido de garantir um emprego ao seu marido no gabinete do chefe de polícia. Se a história é precisa ou apócrifa é difícil de determinar, mas ela revela algo real sobre a posição que Tia Ciata ocupava: uma mulher negra, ex-escravizada ou filha de escravizados, que transitava entre os mundos e conseguia articular proteção para sua comunidade.

A casa da Rua Visconde de Itaúna, próxima à Praça Onze, tornou-se o centro nervoso do samba carioca nascente. Ali se reuniam os maiores nomes do que seria a primeira geração do samba: Pixinguinha, Donga, Heitor dos Prazeres, Sinhô e João da Baiana eram presença constante naqueles encontros. As "rodas de samba" seguiam uma organização informal mas consistente: os mais experientes ficavam na sala principal, cantando em voz alta; os mais jovens se espalhavam pelos outros cômodos com o samba corrido; e no pátio ficavam os percussionistas. Tia Ciata participava ativamente, liderando o partido-alto com autoridade e dominando o miudinho, uma variante do samba executada com os pés muito juntos, na qual era reconhecida como mestra.

Foi nessa casa, entre o final de 1916 e o começo de 1917, que foi composto o samba "Pelo Telefone", de autoria de Donga e Mauro de Almeida, considerado o primeiro samba gravado em disco no Brasil. A gravação aconteceu em 1917, e o fato de a composição ter nascido nos encontros da casa de Tia Ciata é uma confirmação simbólica do papel central que ela desempenhou no surgimento do gênero musical mais identificado com a cultura brasileira.

Seu marido João Baptista da Silva morreu em julho de 1907, deixando-a viúva com filhos e com toda a responsabilidade de manter a casa. Durante o Carnaval, ela armava anualmente uma barraca na Praça Onze, onde eram lançadas marchinhas que se tornavam sucesso nas ruas do Rio. Tia Ciata faleceu em 10 de abril de 1924, aos 70 anos, e foi sepultada no cemitério de São Francisco Xavier, no bairro do Caju. Em 1996, um monumento criado pelo escultor Humberto Cozzo foi inaugurado na Praça Onze em sua homenagem, mostrando-a a tocar pandeiro entre outros músicos, restituindo-lhe visibilidade no mesmo espaço onde ela havia construído sua história.

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