biografias

Thami El Glaoui

Líder político marroquino

7 min de leitura01/01/2024
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Thami El Glaoui nasceu em Télouet, nas montanhas do Alto Atlas marroquino, em 1879, filho de Si Maomé ibne Hamu, caide local, e de sua concubina etíope de nome Zora. Cresceu num mundo que ainda funcionava segundo uma lógica feudal milenar, onde o sultão em Fez era simultaneamente o rei e o imame, e toda a estrutura de poder emanava de sua corte, o Makhzen, para baixo através de paxás e caides que governavam regiões vastas com autoridade quase absoluta. Esse era o mundo que Thami herdaria, transformaria e eventualmente defenderia com uma combinação de astúcia política, aliança colonial e crueldade estratégica.

Quando Si Maomé morreu em 1888, o irmão mais velho de Thami, Si el Madani, assumiu os negócios da família, e o jovem Thami passou a atuar como seu assistente. O momento decisivo na ascensão da família Glaoui veio em 1893, durante uma expedição de coleta de impostos do sultão Mulei Haçane pelas montanhas do Alto Atlas. Surpreendido por uma tempestade de neve com todo o seu exército, o sultão se viu em situação de extrema vulnerabilidade. Madani e Thami foram em seu socorro, abriram suas fortalezas e forneceram comida, abrigo e guias. Em gratidão, o sultão concedeu a Madani o controle de uma extensão considerável do território marroquino ao sul de Marraquexe e, de forma ainda mais significativa, presenteou os Glaoua com um canhão Krupp de 77 mm — a única arma de seu tipo em Marrocos que não pertencia ao exército imperial. Com esse canhão, os Glaoua teriam o instrumento necessário para subjugar rivais e consolidar seu poder regional.

Os anos seguintes foram marcados por oscilações na sorte da família, à medida que os reinados de Mulei Abdelaziz e de seu sucessor Mulei Hafid revelavam a crescente fraqueza do sultanato diante das pressões europeias. Em 1902, Madani e Thami lutaram ao lado do sultão Mulei Abdelaziz contra o pretendente ao trono Bou Hmara, mas as tropas imperiais foram derrotadas e Madani tornou-se o bode expiatório, sofrendo meses de humilhação na corte. Esse episódio convenceu Madani a articular a queda do sultão, e em 1907 ele orquestrou a subida ao trono de Mulei Abd al-Hafid. O novo sultão recompensou Madani nomeando-o grão-vizir e concedeu a Thami o título de paxá de Marraquexe.

O colapso financeiro do sultanato e a crescente desordem política levaram à intervenção francesa. Em 1912, o sultão foi obrigado a assinar o Tratado de Fez, que transformou Marrocos em protetorado francês. No final daquele ano, o pretendente ao trono Ahmed al-Hiba entrou em Marraquexe, exigindo que o paxá local entregasse todos os cidadãos cristãos como reféns. Esses estrangeiros haviam buscado refúgio na casa de Thami, que tentou, sem sucesso, conduzi-los para fora da cidade. Incapaz de escapar, Thami entregou quase todos os reféns, mas escondeu um sargento francês e manteve com ele uma linha de comunicação secreta com o exército francês que avançava para a cidade. Quando os franceses chegaram e dispersaram as forças de Al-Hiba, encontraram os reféns reunidos na casa de Thami e concluíram que ele sozinho os havia salvo. Thami foi imediatamente restituído como paxá e, compreendendo que os franceses eram agora o único poder real no país, alinhou-se definitivamente a eles.

Com a morte de Madani em 1918, os franceses escolheram Thami como novo líder dos Glaoua, preterindo os filhos legítimos do falecido irmão. Apenas com a morte do genro de Madani, Si Hammou, em 1934, Thami obteve controle total sobre o arsenal e as posses da família. A partir daí, seu poder e riqueza cresceram sem obstáculos. Sua posição de paxá lhe permitiu acumular fortunas por meios frequentemente questionáveis, explorando terras agrícolas e recursos minerais em vastas áreas sob seu controle.

Thami El Glaoui tornou-se também uma figura mundana de alcance surpreendente. Seu charme pessoal e a prodigalidade com que distribuía hospitalidade atraíram à sua corte em Marraquexe nomes como Winston Churchill, a escritora Colette, o compositor Maurice Ravel e o ator Charlie Chaplin. Viajava regularmente às capitais europeias e era recebido como estadista. Chegou a comparecer à coroação da Rainha Elizabeth II do Reino Unido em 1953 como convidado particular de Churchill, embora os presentes que levou — uma coroa cravejada de joias e um punhal decorado — tenham sido recusados pelo protocolo, pois ele não representava um governo reconhecido.

O capítulo mais sombrio de sua trajetória política foi o papel central que desempenhou no exílio forçado do sultão Maomé V em 1953. Aliado aos colonizadores franceses que desconfiavam das simpatias nacionalistas do sultão, Thami organizou e liderou o movimento de paxás e caides que pressionou pela deposição do monarca. Maomé V foi exilado primeiro para a Córsega e depois para Madagascar. A manobra gerou um contragolpe: o sultão exilado se transformou em símbolo do movimento pela independência marroquina, e a oposição à dominação francesa cresceu dramaticamente.

Em 1955, diante da impossibilidade de manter a situação, os franceses permitiram o retorno de Maomé V. Thami El Glaoui, que havia apostado sua sorte nos colonizadores, fez algo extraordinário para um homem de seu orgulho: prostrou-se diante do sultão, pediu perdão publicamente e reconheceu seu erro. O sultão, magnânimo, aceitou o gesto. Thami morreria poucos meses depois, em 13 de janeiro de 1956, em Télouet, o mesmo lugar onde havia nascido 77 anos antes. Marrocos conquistou a independência naquele mesmo ano.

O legado de Thami El Glaoui é profundamente ambíguo. Foi simultaneamente um dos mais hábeis operadores políticos da história marroquina do século XX e um colaborador do colonialismo que ajudou a perpetuar a dominação estrangeira sobre seu próprio povo. Sua figura personifica as contradições de uma era de transição entre o mundo feudal berbere e a modernidade colonial, entre a lealdade tribal e o pragmatismo político sem escrúpulos.

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