Em 13 de janeiro de 2021, apenas uma semana antes do término previsto de seu mandato, Donald Trump tornou-se o único presidente da história dos Estados Unidos a sofrer dois processos de impeachment. A Câmara dos Representantes aprovou a destituição do então presidente por 232 votos favoráveis contra 197 contrários, numa votação que transcorreu em um clima de profunda tensão política, apenas sete dias após um dos episódios mais dramáticos da história recente do país.
O pano de fundo daquele momento remontava às eleições presidenciais de novembro de 2020. Trump havia perdido a reeleição para o democrata Joe Biden, mas recusou-se a reconhecer a derrota, alegando fraude generalizada no processo eleitoral. Nos meses seguintes, sua equipe jurídica apresentou dezenas de contestações nos tribunais, todas rejeitadas por falta de provas consistentes. As alegações de irregularidades eram amplamente desmentidas pelas autoridades eleitorais dos próprios estados republicanos, mas Trump insistia na narrativa do roubo.
A crise atingiu seu ponto de ruptura em 3 de janeiro de 2021, quando veio a público uma ligação telefônica entre o presidente e Brad Raffensperger, secretário de Estado da Geórgia. Na conversa, Trump pressionava o funcionário a "encontrar" os votos necessários para reverter o resultado no estado. A gravação foi interpretada como uma tentativa direta de interferência eleitoral e gerou indignação imediata em setores do Congresso e da opinião pública.
Três dias depois, em 6 de janeiro, o Congresso se reuniria para certificar formalmente a vitória de Biden. Antes da sessão, Trump e seu advogado Rudy Giuliani discursaram para uma multidão reunida em frente à Casa Branca. Os discursos foram inflamados e convocaram os presentes a marchar até o Capitólio. O que se seguiu foi sem precedentes na história americana: uma multidão invadiu o edifício do Congresso, interrompeu o processo de certificação, causou destruição e deixou cinco pessoas mortas e dezenas de feridas. O mundo acompanhou ao vivo as cenas de caos na sede do poder legislativo dos Estados Unidos.
No dia seguinte à invasão, Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes e liderança do Partido Democrata, deu um ultimato ao vice-presidente Mike Pence: que o gabinete presidencial usasse a Vigésima Quinta Emenda à Constituição para retirar os poderes de Trump antes de 20 de janeiro, data do término natural do mandato. A emenda prevê o afastamento do presidente quando o vice-presidente e a maioria do gabinete consideram que ele está incapaz de exercer suas funções. Pence, no entanto, respondeu com uma carta aberta em 13 de janeiro, argumentando que tal medida seria inconstitucional e contrária aos interesses do país.
Com a alternativa da Emenda 25 descartada, o Partido Democrata avançou com o processo de impeachment. Em 11 de janeiro, foi introduzido um único artigo de acusação contra Trump, assinado por mais de duzentos representantes democratas. O artigo enquadrava os discursos inflamatórios do presidente antes da invasão como incitamento à insurreição — um crime grave que justificava a destituição.
A votação em 13 de janeiro confirmou o impeachment. Os 232 votos favoráveis incluíam todos os votos dos democratas presentes e dez republicanos que romperam com seu partido, um número inédito em processos similares. Entre os dissidentes republicanos estava Liz Cheney, filha do ex-vice-presidente Dick Cheney e uma das vozes mais influentes do partido. O fato de que dez membros do próprio partido do presidente votaram contra ele foi historicamente significativo e revelou o grau de fratura interna que os eventos de 6 de janeiro haviam provocado.
Com a aprovação na Câmara, o artigo de impeachment seguiu para julgamento no Senado. Mas havia uma questão constitucional em debate: era possível julgar um presidente que já havia deixado o cargo? Trump encerrou o mandato em 20 de janeiro de 2021, e Biden tomou posse naquele mesmo dia. O julgamento no Senado só ocorreu em fevereiro, com o ex-presidente já um cidadão comum.
O processo no Senado foi conduzido pela comissão de acusação liderada pelo deputado democrata Jamie Raskin. Para uma condenação, eram necessários dois terços dos cem senadores, ou seja, sessenta e sete votos. Em 13 de fevereiro, o Senado proferiu seu veredicto: Trump foi absolvido. Além dos democratas que votaram pela condenação, sete senadores republicanos romperam com o partido — Mitt Romney, Susan Collins, Lisa Murkowski, Ben Sasse, Bill Cassidy, Richard Burr e Pat Toomey. Ainda assim, os acusadores não atingiram os sessenta e sete votos necessários.
O desfecho deixou um legado ambíguo. Trump foi absolvido e, portanto, não sofreu a penalidade de ser proibido de exercer cargos públicos no futuro, o que poderia ser aplicada como sanção adicional em caso de condenação. Mas o processo expôs fissuras profundas dentro do Partido Republicano e consagrou Trump como o único presidente americano a responder por dois impeachments, e o único a ser submetido a um processo de destituição na reta final de seu mandato.
Os eventos de janeiro de 2021 e seus desdobramentos marcaram uma das fases mais turbulentas da democracia americana. A invasão do Capitólio, o segundo impeachment e a absolvição no Senado formaram um conjunto de episódios que permanecerão como referências obrigatórias em qualquer análise da política americana contemporânea.