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Francisco José I da Áustria

Imperador da Áustria e Rei da Hungria (1830-1916)

7 min de leitura01/01/2024
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Francisco José I foi um dos monarcas que por mais tempo governaram na história moderna da Europa. Do trono do Império Austríaco ao crepúsculo da Primeira Guerra Mundial, seu reinado de 67 anos atravessou eras, acompanhou a ascensão e a queda de impérios e foi marcado por tragédias pessoais que pareciam ter sido especialmente destinadas a um homem que tanto prezava a ordem, o dever e a continuidade dinástica.

Nascido em 18 de agosto de 1830 no Palácio de Schönbrunn, em Viena, Francisco José Karl — para usar seu nome completo em alemão — era filho do arquiduque Francisco Carlos e da princesa Sofia da Baviera. Seu tio, o imperador Fernando I, era incapacitado por convulsões e não exercia o poder com plena autoridade, o que tornava o jovem Francisco José o herdeiro mais promissor da Casa de Habsburgo. Sua mãe, Sofia, mulher de forte temperamento e ambição política, tratou de prepará-lo metodicamente para o trono desde a infância, inculcando nele os valores de devoção religiosa, responsabilidade dinástica e senso de dever que marcariam toda a sua vida.

A educação do jovem arquiduque foi rigorosa até a exaustão. As aulas semanais, que começavam com 18 horas por semana, chegaram a 50 horas semanais quando ele completou 16 anos. Além das línguas clássicas — francês, latim e grego antigo —, Francisco José aprendeu húngaro, tcheco, italiano e polonês, os principais idiomas dos povos que um dia governaria. Matemática, física, história, direito e ciência política complementavam um currículo que não deixava espaço para a infância propriamente dita. Aos 13 anos, foi nomeado coronel-inhaber de um regimento de dragões, e a partir daí o uniforme militar tornou-se sua vestimenta preferida — pelo restante da vida, ele raramente apareceria em trajes civis.

Em 1848, as Revoluções que varreram a Europa chegaram também ao Império Austríaco. O chanceler Klemens von Metternich, símbolo da ordem conservadora europeia, renunciou diante da pressão das ruas. Francisco José, com apenas 17 anos, foi enviado à frente de batalha na Itália, onde se juntou ao marechal Radetzky em plena campanha. Em 5 de maio de 1848, recebeu seu batismo de fogo em Santa Lucia, suportando a experiência com a calma e a dignidade que os relatos da época descrevem. No mesmo período, a família imperial fugia da Viena revolucionária para a tranquilidade de Innsbruck, no Tirol. Em dezembro daquele ano, numa manobra politicamente calculada pelo ministro-presidente Felix zu Schwarzenberg, o tio Fernando I abdicou em Olomouc. Francisco José, então com 18 anos, subiu ao trono sem ter sido eleito, sem ter sido coroado, mas com autoridade plena para governar.

O início de seu reinado foi marcado pela reação conservadora. Francisco José resistiu sistematicamente ao constitucionalismo, acreditando — como lhe ensinaram os tutores — que o poder imperial emanava de Deus e não necessitava da aprovação de parlamentos. Porém, a realidade política da Europa do século XIX mostrou-se mais teimosa do que os princípios dinásticos. Em 1854, casou-se com sua prima Isabel da Bavária — a famosa Sissi —, com quem teria quatro filhos: Sofia, Gisela, Rodolfo e Maria Valéria. O casamento, inicialmente apaixonado, foi gradualmente corroído pelas exigências do protocolo de corte e pelas tragédias que se acumulariam.

No plano externo, Francisco José conheceu derrotas militares que redefiniram o mapa da Europa Central. A Segunda Guerra de Independência Italiana, em 1859, forçou a Áustria a ceder a maior parte de sua reivindicação sobre a Lombardia ao Reino da Sardenha. A Terceira Guerra de Independência Italiana, em 1866, resultou na perda da Venécia. Mais grave ainda foi a derrota na Guerra Austro-Prussiana, em 1866: embora Francisco José não tenha cedido território à Prússia, a Paz de Praga reconheceu a supremacia prussiana na questão alemã, sepultando definitivamente qualquer esperança de que a unificação da Alemanha ocorresse sob a liderança dos Habsburgos. Bismarck ganhou o grande jogo.

Para absorver o impacto dessas perdas e reorganizar o império, Francisco José negociou o Compromisso Austro-Húngaro de 1867, que transformou o Império Austríaco numa monarquia dual — a chamada Áustria-Hungria. A Hungria obteve ampla autonomia interna, com seu próprio parlamento e governo, embora os assuntos de defesa, relações exteriores e finanças comuns permanecessem centralizados. Francisco José seria dali em diante simultaneamente Imperador da Áustria e Rei da Hungria. O compromisso foi uma solução engenhosa para o problema do nacionalismo magiar, mas abriu precedentes que as demais nationalidades do império — tchecos, croatas, eslovenos, poloneses, ucranianos — não tardariam em reivindicar também.

As tragédias pessoais que se abateram sobre Francisco José ao longo do reinado têm dimensões quase literárias. Em 1867, seu irmão Maximiliano foi executado no México, onde havia aceito — de forma imprudente e com apoio de Napoleão III da França — o título de imperador de um trono que nunca foi verdadeiramente seu. Em 1889, seu filho e herdeiro Rodolfo morreu num aparente suicídio em Mayerling, levando consigo a baronesa Maria Vetsera — tragédia que abalou a corte e permanece envolta em versões contraditórias. Em 1898, a imperatriz Isabel foi assassinada em Genebra por um anarquista italiano, deixando Francisco José viúvo para os últimos dezoito anos de sua vida. E em 1914, seu sobrinho e herdeiro presuntivo, o arquiduque Francisco Ferdinando, foi assassinado em Sarajevo por um jovem nacionalista sérvio-bósnio, episódio que desencadearia a Primeira Guerra Mundial.

A crise da Bósnia de 1908, resultante da anexação daquela região por Francisco José — que já a ocupava militarmente desde o Congresso de Berlim de 1878 —, havia acirrado as tensões nos Bálcãs e aumentado a hostilidade entre Áustria-Hungria e Sérvia. O assassinato de Sarajevo, em 28 de junho de 1914, foi o gatilho que Francisco José e seus ministros utilizaram para declarar guerra à Sérvia, ativando um sistema de alianças que arrastou a Europa inteira para o conflito mais devastador que o mundo já havia visto até então. O velho imperador viveria o suficiente para ver o início da carnificina, mas não seu desfecho: faleceu em 21 de novembro de 1916, após governar seus domínios por 67 anos. Foi sucedido por seu sobrinho-neto Carlos I.

Francisco José I deixou para a posteridade a imagem de um homem do dever acima de tudo — disciplinado, austero, incansável nos rituais do cargo, mas frequentemente impermeável às transformações de seu tempo. Governou em nome de uma ordem que o mundo estava abolindo à sua volta, resistindo ao constitucionalismo sem conseguir extingui-lo, preservando um império multiétnico sem conseguir dar a ele uma identidade coesa. Sua morte veio antes do colapso definitivo, poupando-o de testemunhar a dissolução de tudo que havia dedicado a vida a manter.

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