Rudolf-August Oetker nasceu em Bielefeld, na Alemanha, em 20 de setembro de 1916, em uma família cuja fortuna estava profundamente enraizada na indústria alimentícia alemã desde o fim do século XIX. Sua trajetória de vida abrangeu quase todo o século XX, e nela se entrelaçaram dois fios que o historiador não pode separar: o de um empresário extraordinariamente bem-sucedido que transformou uma pequena empresa familiar em um colosso industrial global, e o de um homem cuja ascensão foi em parte possibilitada pela cumplicidade com o regime nazista durante os anos mais sombrios da história alemã.
A empresa que herdaria foi fundada em 1891 por seu avô, o farmacêutico August Oetker, que começou comercializando em Bielefeld um fermento chamado Backpulver, o Bakin, vendido em pequenas embalagens acompanhadas de receitas culinárias. O sucesso foi tão arrebatador que August Oetker teve de fechar sua farmácia para se dedicar integralmente ao novo negócio. A adição de livros de receitas ao portfólio criou uma fidelização do consumidor que antecipava estratégias de marketing que só se tornariam comuns décadas depois. Quando August Oetker morreu, a empresa já era uma realidade sólida, mas o pai de Rudolf-August, Rudolf Oetker, também não chegaria a ver os anos de maior crescimento: morreu no campo de batalha de Verdun em 1916, o mesmo ano em que o filho nasceu.
Com os dois Oetkers precedentes mortos prematuramente, foram a mãe Ida e seu segundo marido, Richard Kaselowsky, quem conduziram os negócios da família pelas décadas seguintes. Kaselowsky expandiu a linha de produtos Dr. Oetker, incorporando açúcar de baunilha e pudim ao catálogo e ampliando a distribuição para mercados além da Alemanha. Quando Rudolf-August se formou na universidade, tentou iniciar um estágio bancário, mas foi recrutado pelo exército em 1936. Em 1941, como voluntário da Waffen-SS, a tropa de elite do regime nazista, ele ingressou formalmente no aparato do Terceiro Reich. Naquele período, ele e a empresa familiar se beneficiaram das políticas de expropriação de bens de proprietários judeus, acumulando patrimônio e vantagens competitivas à custa de famílias despojadas de suas posses pelo Estado nazista.
Em 1944, após a morte de sua mãe, de seu padrasto Kaselowsky e de duas irmãs em um único e trágico conjunto de circunstâncias associadas à guerra, Rudolf-August assumiu o controle da empresa com apenas 28 anos. A derrota da Alemanha e o colapso do Terceiro Reich em 1945 não impediram que ele reconstruísse o negócio familiar com uma velocidade impressionante, aproveitando o ambiente do chamado Wirtschaftswunder, o milagre econômico alemão dos anos 1950 que transformou as ruínas do pós-guerra na maior economia da Europa Ocidental.
Durante as décadas seguintes, Rudolf-August transformou a Dr. Oetker de uma empresa de ingredientes culinários em um grupo diversificado de proporções inimagináveis para seu fundador. Investiu em filmes, construção, bebidas alcoólicas e serviços financeiros, criando uma das estruturas empresariais mais diversificadas da Alemanha. Nos anos 1960, adquiriu a vinícola de espumante Söhnlein Rheingold e a fábrica de vodca Gorbatschow. Entrou no mercado cervejeiro com a compra da Brau & Brunnen. Fundou a Fundação Oetker como centro estruturador do grupo durante o milagre econômico. Quando transferiu a direção administrativa ao filho August em 1981, o grupo Oetker havia se tornado um colosso com faturamento superior a sete bilhões de euros, operando em escala global.
A vida pessoal de Rudolf-August incluiu três casamentos. O terceiro, em 1963 com Marianne, foi o mais duradouro. De suas três uniões, teve oito filhos, muitos dos quais foram incorporados à estrutura de gestão do império familiar. Em 1976, a família foi atingida por um drama que chocou a Alemanha: seu filho Richard foi sequestrado, e a libertação só ocorreu após o pagamento de um resgate equivalente a 10,5 milhões de euros. O episódio gerou enorme cobertura da imprensa e expôs ao público a extensão da riqueza da família.
Em outubro de 2013, seis anos após a morte de Rudolf-August, a família Oetker tomou a decisão incomum de encomendar e tornar público um estudo histórico independente sobre o envolvimento da empresa com o nazismo. O livro Dr. Oetker und der Nationalsozialismus, resultado de três anos de pesquisa conduzida pelo Instituto de História Contemporânea de Munique, concluiu que a família e a empresa Oetker apoiaram a sociedade nazista e obtiveram benefícios concretos de suas políticas. O próprio filho August Oetker declarou ao semanário Die Zeit que seu pai havia sido um nazista. Historiadores observaram que esse tipo de encomenda por herdeiros de fortunas construídas no período nazista pode ser em parte uma estratégia para controlar a narrativa histórica, mantendo sob o controle da família a versão definitiva do passado.
Rudolf-August Oetker faleceu em uma clínica em Hamburgo em 16 de janeiro de 2007, aos 90 anos, deixando um legado que é, ao mesmo tempo, a história de um empresário de capacidade excepcional e o retrato de como grandes fortunas europeias do século XX foram construídas sobre fundações que a memória preferia não examinar de perto.