atualidades

Narana Coissoró

Advogado e político português (1931-2026)

4 min de leitura30/08/2026
Anúncio

Narana Sinai Coissoró (1931–2026) foi uma figura multifacetada que deixou marcas profundas no Direito, na política e na cultura portuguesa, especialmente entre as comunidades lusas de origem goesa. Nascido em Goa, então território português na Índia, ele chegou a Portugal aos 18 anos para estudar Direito em Coimbra, onde não apenas formou-se como advogado, mas também se tornou um acadêmico de renome. Sua trajetória, que se estendeu por décadas, é um exemplo de como a formação jurídica pode transcender fron­teiras e influenciar políticas públicas, especialmente em um país que, como Portugal, vivenciou transformações profundas após a Revolução dos Cravos.

Coissoró dedicou-se ao estudo do direito ultramarino e costumeiro, temas que refletiam sua origem e experiência pessoal. Goa, território que pertenceu ao Império Português até 1961, era um ponto de confluência de culturas e sistemas jurídicos, e foi justamente esse contexto que moldou grande parte de sua produção intelectual. Autor de obras como "Os princípios fundamentais do direito ultramarino português" e "As instituições de direito costumeiro negro-africano", ele contribuiu para a compreensão de sistemas legais que, embora ignorados ou marginalizados, eram essenciais para a administração colonial e, depois, para a descolonização. Essa abordagem rigorosa e ao mesmo tempo sensível às nuances culturais fez dele uma voz respeitada nos círculos jurídicos e políticos.

Sua carreira política, marcada pela militância no Centro Democrático Social (CDS), um partido de matriz democrata-cristã, foi igualmente notável. Elegeu-se deputado pela primeira vez em 1976, ainda nos primeiros anos da democracia portuguesa, e manteve assento no Parlamento por oito legislaturas, com apenas uma interrupção. Ao longo de sua trajetória parlamentar, liderou o grupo centrista do CDS por 13 anos, um período em que o partido buscava consolidar-se como alternativa aos dois grandes partidos do pós-25 de Abril: o PS e o PSD. Sua liderança foi marcada por um estilo pragmático, mas sempre ancorado em princípios doutrinários claros, o que lhe valeu respeito até entre adversários políticos.

Coissoró também ocupou o cargo de vice-presidente da Assembleia da República entre 1999 e 2005, um posto que refletia não apenas sua experiência, mas também sua capacidade de mediar conflitos e promover o diálogo democrático. Em um Parlamento muitas vezes polarizado, sua presença era vista como um equilíbrio necessário, especialmente em temas sensíveis como a descolonização, a imigração ou a integração europeia. Seu perfil de "hindu democrata-cristão" — como ele próprio se definia — era um testemunho de que a fé e a política não precisavam ser esferas antagônicas, mas podiam se complementar em uma visão humanista da sociedade.

No campo académico, Coissoró foi professor catedrático no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), onde também presidiu o Instituto do Oriente, um centro de investigação dedicado ao estudo da Ásia. Sob sua direção, o instituto tornou-se um polo de referência em temas como a diáspora goesa, as relações luso-asiáticas e os sistemas jurídicos comparados. Em 2018, foi homenageado com o título de presidente honorário do Instituto do Oriente e a Medalha de Mérito do ISCSP, além de ter o centro de documentação da instituição rebatizado em sua homenagem. Essa homenagem não foi apenas simbólica: ela reconheceu décadas de trabalho incansável na promoção do conhecimento sobre a Ásia e na formação de gerações de estudantes e pesquisadores.

Sua ligação com a cultura goesa era visceral. Como presidente da Casa de Goa, uma associação que reúne a comunidade goesa em Lisboa, ele dedicou-se a preservar a memória histórica e cultural de seus conterrâneos, muitos dos quais haviam migrado para Portugal após a independência de Goa em 1961. Coissoró foi um defensor incansável da integração desses imigrantes, mas também de sua identidade, promovendo iniciativas que iam desde a organização de eventos culturais até a defesa de direitos sociais. Essa atuação fez dele uma ponte entre duas pátrias: a Índia de seus ancestrais e a Portugal que o acolheu.

Ao longo de sua vida, Coissoró recebeu inúmeras condecorações, entre elas a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique e da Ordem da Instrução Pública, que atestam não apenas seu mérito académico e político, mas também seu papel como construtor de pontes entre culturas. Em 2021, aos 90 anos, foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública em uma cerimônia na Casa de Goa, um reconhecimento tardio, mas simbólico, de uma carreira dedicada ao saber e à democracia. Sua trajetória é um exemplo de como a diversidade pode enriquecer a vida pública, especialmente em um país como Portugal, que é, por natureza, multicultural.

Quando Narana Coissoró faleceu em agosto de 2026, aos 94 anos, o CDS-PP publicou uma nota de pesar na qual destacou sua "dedicação à causa pública" e seu "rigor do pensamento". Para muitos, ele foi um exemplo de como a política pode ser exercida com integridade e profundidade intelectual, sem nunca perder de vista os valores humanistas. Sua vida, que começou em Goa e se desenrolou em Lisboa, é um testemunho de que as fronteiras entre culturas, religiões e sistemas jurídicos podem ser não barreiras, mas pontes para um mundo mais justo e plural.

Anúncio
Anúncio

Em breve no aplicativo World in Stories

Áudio, download offline, sem anúncios e muito mais.

Conhecer Premium

Histórias Relacionadas