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Adriano da Nóbrega

Adriano Magalhães da Nóbrega, conhecido como Capitão Adriano ou Gordinho, foi uma figura e

5 min de leitura30/08/2026
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Adriano Magalhães da Nóbrega, conhecido como Capitão Adriano ou Gordinho, foi uma figura emblemática e controversa da segurança pública brasileira, cujas ações entrelaçaram os meandros da polícia, do crime organizado e da política carioca. Nascido no Rio de Janeiro em 1977, ingressou na Polícia Militar em 1996, formando-se na tradicional Academia Dom João VI. Sua trajetória inicial foi marcada por cursos de elite, como sniper e operações táticas, que o tornaram um atirador exímio e um nome respeitado — ou temido — dentro da corporação. No entanto, o que começou como uma carreira promissora na PM rapidamente se converteu em um símbolo do que muitos chamam de "banda podre" da segurança fluminense.

Durante seus primeiros anos, Adriano da Nóbrega atuou como segurança de figuras ligadas ao jogo do bicho, um dos principais pilares da economia subterrânea do Rio de Janeiro. Essa proximidade com o crime organizado não foi mera coincidência, mas sim um reflexo da conivência histórica entre policiais e contraventores na cidade. Em 2003, enquanto servia no 18º Batalhão da PM em Jacarepaguá, conheceu Fabrício Queiroz, então sargento e futuro assessor parlamentar de Flávio Bolsonaro. Essa relação se tornaria crucial não apenas para a vida de Adriano, mas também para a própria trajetória política do então deputado estadual, cujas conexões com o miliciano viriam à tona anos depois.

O primeiro grande escândalo envolvendo Adriano ocorreu em 2004, quando foi acusado do assassinato de um flanelinha em Parada de Lucas. O crime teria sido uma retaliação a denúncias de extorsão praticada por policiais, mas o caso se transformou em um divisor de águas. Enquanto aguardava julgamento na prisão, o então tenente recebeu, em 2005, a Medalha Tiradentes — a maior honraria do Legislativo fluminense — das mãos de Flávio Bolsonaro. A justificativa oficial mencionava supostas ações heroicas de Adriano, mas o gesto soou como uma clara demonstração de apoio político a um acusado de homicídio. O caso, que inicialmente resultou em uma condenação de 19 anos e meio, foi anulado em 2006 após recursos, com o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro absolvendo-o por falta de provas.

A absolvição, no entanto, não encerrou sua trajetória de violência. Nos anos seguintes, Adriano da Nóbrega passou a atuar como segurança de membros de uma poderosa facção criminosa envolvida com máquinas caça-níqueis, chegando a participar, segundo investigações, de pelo menos oito homicídios entre 2006 e 2009. Em 2008, foi novamente preso, desta vez por tentativa de assassinato de um pecuarista que disputava o controle de negócios com figuras do jogo do bicho. Solto provisoriamente, voltou a ser detido em 2011, mas foi inocentado pela segunda vez em 2012, novamente por insuficiência de provas. Enquanto isso, sua relação com Flávio Bolsonaro se estreitava: a mulher de Adriano, Danielle Mendonça, foi empregada no gabinete do deputado estadual em 2007, e a mãe do miliciano também passou a trabalhar lá anos depois.

A carreira de Adriano na PM chegou ao fim em 2014, quando um processo administrativo concluiu que ele atuava como segurança de um contraventor. Embora tenha sido expulso da corporação, sua ligação com o poder público persistiu. Em 2016, Flávio Bolsonaro — já deputado federal — foi alvo de denúncias de "rachadinha", um esquema em que assessores devolviam parte de seus salários ao parlamentar. Investigações revelaram que Fabrício Queiroz, ex-assessor de Bolsonaro e amigo de Adriano, atuava como gerenciador do esquema. Segundo o Ministério Público, valores arrecadados eram repassados a Adriano, que, na época, já havia se tornado um dos principais nomes do Escritório do Crime, um grupo de extermínio composto por policiais e ex-policiais.

O Escritório do Crime, ao qual Adriano pertencia, foi descrito por autoridades como uma organização paramilitar dedicada a execuções sumárias, grilagem de terras e outras atividades criminosas. Entre suas principais áreas de atuação estava a zona oeste do Rio de Janeiro, especialmente Rio das Pedras, onde o miliciano exerceu influência. A milícia, segundo investigações, atuava como um Estado paralelo, cobrando "taxas de proteção" de moradores e comerciantes, além de praticar violência contra quem se opusesse a seus interesses. Adriano, com seu histórico de impunidade, tornou-se uma peça-chave nesse sistema, usando sua expertise como atirador e sua rede de contatos para cometer crimes sem ser incomodado.

A partir de 2019, Adriano tornou-se alvo de uma ampla operação do Ministério Público do Rio de Janeiro contra milicianos, acusado de agiotagem, grilagem de terras, pagamento de propina e construções ilegais. Para escapar da Justiça, passou a viver na clandestinidade, até que, em fevereiro de 2020, foi morto em um suposto confronto com a Polícia Militar da Bahia, na cidade de Esplanada. Sua morte gerou suspeitas, uma vez que ocorreu em circunstâncias pouco claras e em um estado distante de sua área de atuação habitual. Testemunhas relataram que o ex-capitão foi alvejado após reagir a uma abordagem policial, mas muitos questionaram a versão oficial, dado o histórico de Adriano como um homem habituado a confrontos armados.

O legado de Adriano da Nóbrega é um retrato sombrio das relações entre polícia, política e crime no Brasil. Sua trajetória expõe como estruturas de poder podem ser corrompidas, transformando agentes públicos em criminosos e milicianos em figuras influentes. As ligações com Flávio Bolsonaro — que, à época dos fatos, ainda não era presidente da República — lançam uma sombra sobre sua carreira política, levantando questões sobre o uso de cargos públicos para proteger aliados em atividades ilícitas. Para os críticos, Adriano foi um produto de um sistema que premia a violência e a impunidade; para seus defensores, foi um policial vítima de perseguição judicial.

Hoje, mais de três anos após sua morte, o nome de Adriano da Nóbrega continua a ser citado em investigações sobre milícias e esquemas de corrupção. Seu caso serve como exemplo de como a fronteira entre o legal e o ilegal pode se dissolver quando o Estado falha em fiscalizar suas próprias instituições. Enquanto o Rio de Janeiro segue lutando contra a influência das milícias, figuras como o Capitão Adriano permanecem como lembretes dolorosos de que, em muitos casos, os próprios guardiões da lei se tornam os algozes da sociedade.

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