Lima Duarte é um dos nomes mais emblemáticos da história do entretenimento brasileiro, um artista cuja trajetória se confunde com os primórdios da televisão no país. Nascido Ariclenes Venâncio Martins em Sacramento, Minas Gerais, em 1930, ele carregou desde a infância a influência das artes que moldaram sua personalidade e sua arte. Filha de um boiadeiro e de uma artista circense, América Martins, Lima cresceu no interior mineiro, em um povoado chamado Desemboque, onde o circo-teatro era um ponto de encontro da comunidade. Essa vivência, marcada pela oralidade, pela música e pela performance, seria fundamental para sua formação. Anos depois, ele próprio atribuiria a essas memórias de infância a riqueza de detalhes que daria vida a personagens inesquecíveis, como se cada papel fosse um pedaço de sua própria história.
A vinda para São Paulo em 1946, aos 16 anos, foi um marco decisivo. Viajando de carona em um caminhão de frutas, Lima chegou à capital sem recursos, mas com a determinação de quem buscava uma nova realidade. Seu primeiro emprego foi no Mercado Municipal, onde exerceu funções braçais até ingressar no rádio, naquela época o grande veículo de comunicação popular. Começou como operador de som e sonoplasta, mas rapidamente descobriu seu dom para a locução e a atuação. Foi nesse ambiente que adotou o nome artístico Lima Duarte, uma homenagem sugerida por sua mãe, espírita, que acreditava que o nome traria proteção e orientação. A escolha não poderia ter sido mais acertada: o nome se tornaria sinônimo de excelência e versatilidade no mundo das artes.
A estreia na televisão aconteceu em 1950, quando a TV Tupi iniciou suas transmissões. Lima já era um profissional do rádio, mas a televisão representava um novo desafio. Ele esteve presente na cerimônia inaugural e, desde então, nunca mais saiu dos holofotes. Na emissora, atuou como ator, diretor e até mesmo como escritor, ajudando a construir as bases da teledramaturgia brasileira. Participou da primeira telenovela do país, *Sua Vida Me Pertence*, e logo se tornou um dos principais nomes do gênero. Sua habilidade para transitar entre diferentes funções — da atuação à direção — mostrava um talento raro, capaz de entender o processo criativo por completo. Na TV Tupi, ele também dirigiu novelas de sucesso nos anos 1960, como *O Direito de Nascer* e *Beto Rockfeller*, que o credenciaram para dar o grande salto em sua carreira.
O reconhecimento nacional, no entanto, veio com a televisão aberta. Em 1973, ao interpretar Zeca Diabo em *O Bem-Amado*, novela de Dias Gomes, Lima conquistou o país com sua interpretação marcante. O personagem, um matador de aluguel com uma voz fina e afeminada, foi um fenômeno de audiência e crítica. A performance inovadora, que misturava humor e dramaticidade, mostrou sua capacidade de criar figuras complexas e memoráveis. Dois anos depois, em *Pecado Capital*, ele novamente surpreendeu ao viver Salviano Lisboa, um empresário da moda que se apaixonava por uma operária humilde. Esses papéis consolidaram sua imagem como um ator de grande profundidade, capaz de humanizar personagens aparentemente distantes da realidade comum.
A década de 1980 marcou outra fase importante em sua carreira. Na Rede Globo, ele não apenas continuou atuando, mas também se tornou um dos apresentadores do programa *Som Brasil*, onde não só comandava o programa, mas também contava histórias e fazia reflexões pessoais. O programa, exibido aos domingos, se tornou um marco da televisão brasileira, e Lima trouxe para ele a mesma paixão que dedicava aos seus personagens. Foi também nessa época que ele viveu Sinhozinho Malta, em *Roque Santeiro*, uma figura autoritária e carismática que se tornou um dos vilões mais icônicos da teledramaturgia. O personagem, com sua personalidade forte e diálogos afiados, mostrou a habilidade de Lima para equilibrar o cômico e o dramático.
Ao longo de sua trajetória, Lima Duarte construiu uma filmografia impressionante no cinema, participando de produções que vão do drama ao humor, passando pelo suspense. Filmes como *Guerra Conjugal*, de 1974, *O Crime do Zé Bigorna*, de 1977, e *Os 7 Gatinhos*, de 1980, mostram sua versatilidade em diferentes gêneros. Em *O Auto da Compadecida*, de 2000, ele viveu o Padre João, um personagem que exigia tanto a seriedade quanto a ironia características de sua atuação. Já em *Eu, Tu, Eles*, de 2000, ele interpretou um homem simples e bondoso, mostrando que seu talento não se limitava aos papéis mais complexos. Essa diversidade é um dos pilares de sua carreira, que transita com naturalidade entre a televisão e o cinema, sempre deixando sua marca.
Sua influência na cultura brasileira vai além das telas. Lima foi um dos atores que participou do Teatro de Arena, em São Paulo, um dos principais redutos do teatro de protesto na década de 1960. Lá, atuou em peças como *Arena conta Zumbi*, de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, que abordavam temas sociais e políticos. Essa experiência no teatro contribuiu para enriquecer sua capacidade de criar personagens autênticos e socialmente engajados. Além disso, ele também se dedicou à dublagem, emprestando sua voz a personagens de desenhos animados como Manda-Chuva, da Hanna-Barbera, e Wally Gator. Essas participações, embora menos conhecidas do grande público, mostram sua versatilidade e sua paixão pelo ofício de ator.
Reconhecido como um dos maiores atores brasileiros de todos os tempos, Lima Duarte colecionou prêmios e honrarias ao longo de sua carreira. Seis Troféus Imprensa, seis Prêmios APCA e dois Troféus Roquette Pinto são apenas alguns dos reconhecimentos que atestam sua importância. Em 2006, ele foi agraciado com o Troféu Mário Lago pelo conjunto da obra, um prêmio que celebra sua trajetória e seu impacto na cultura brasileira. Esses reconhecimentos não são apenas um reflexo de seu talento, mas também do respeito que conquistou junto ao público e aos colegas de profissão. Lima é um exemplo de como a dedicação e a paixão pelo que se faz podem transcender gerações.
Mesmo após mais de sete décadas de carreira, Lima Duarte continua ativo e relevante. Seus personagens mais recentes, como Josafá em *O Outro Lado do Paraíso*, de 2017, mostram que sua capacidade de interpretação permanece intacta. Ele é um dos poucos artistas capazes de se reinventar constantemente sem perder a essência de seu estilo. Sua trajetória é um testemunho de como a arte pode ser um veículo de transformação, tanto para quem a pratica quanto para quem a consome. Lima Duarte não é apenas um ator; ele é um pedaço da história da televisão brasileira, um contador de histórias que soube transformar sua vida em arte e sua arte em legado.