O Brasil perdeu um de seus maiores intérpretes da irreverência e da inteligência quando Jô Soares morreu em São Paulo, em 5 de agosto de 2022. Nascido José Eugênio Soares no Rio de Janeiro, em 16 de janeiro de 1938, ele construiu ao longo de décadas uma carreira multifacetada que atravessou a televisão, o rádio, o teatro, a literatura e as artes plásticas, tornando-se uma referência cultural incontornável. Sua morte, aos 84 anos, repercutiu profundamente tanto na sociedade brasileira quanto na imprensa internacional, sinal da amplitude de um nome que extrapolou as fronteiras do país.
A formação de Jô foi eclética desde a juventude. Filho de um empresário paraibano, ele estudou no Colégio São Bento do Rio de Janeiro e depois no Colégio São José de Petrópolis, chegando a passar uma temporada em Lausana, na Suíça, onde frequentou o Lycée Jaccard com o objetivo inicial de se tornar diplomata. Na Europa, ganhou o apelido de "Joe", redutivo do inglês Joseph, e foi lá que o jovem percebeu que seu talento natural para o humor e para a comunicação o apontava para um caminho muito diferente do serviço diplomático. Voltou ao Brasil com o apelido simplificado para Jô e com a certeza de que o seu lugar era no palco e na televisão.
Sua estreia na televisão aconteceu em 1956, no elenco da Praça da Alegria, na então RecordTV, onde ficou por dez anos e construiu as bases de sua arte cômica. Em 1959, deu os primeiros passos no cinema ao lado de Oscarito no filme O Homem do Sputnik. O teatro de revista e o humor televisivo foram os espaços onde ele se revelou ao público brasileiro nas décadas seguintes. Na Record, participou da criação do humorístico Família Trapo, em 1967, onde atuou como o mordomo desajeitado Gordon, personagem que ficou na memória do público. O trabalho nessa produção exemplificava sua capacidade de criar personagens marcantes com profundidade cômica.
Na TV Globo, para onde migrou na virada para os anos 1970, Jô construiu um conjunto de programas que definiram o humor televisivo brasileiro por uma geração inteira. Satiricom, em 1973, com direção de Augusto César Vanucci, era uma sátira ao filme de Fellini e ao mundo da comunicação em tempos de expansão da televisão via satélite. Planeta dos Homens, de 1976, brincava com o universo dos filmes da série O Planeta dos Macacos. Mas foi com Viva o Gordo, em 1981, que Jô alcançou seu primeiro programa totalmente solo, onde não apenas interpretava personagens mas satirizava a política nacional com uma liberdade irônica que guardava certa audácia para os tempos da ditadura militar ainda vigente.
A transferência para o SBT, em 1988, marcou o ponto de inflexão definitivo em sua carreira. O Jô Soares Onze e Meia inaugurou no Brasil uma fórmula de talk-show noturno que o país nunca havia visto com aquela consistência. Durante onze anos, de 1988 a 1999, ele entrevistou presidentes, artistas, cientistas, esportistas e figuras polêmicas com um estilo que combinava inteligência, erudição e humor refinado. A capacidade de Jô de criar uma conversa fluida com qualquer interlocutor, independentemente do tema, transformou o programa em uma espécie de tribunal informal da cultura brasileira. Ele se tornou, sem exagero, o maior entrevistador que o país já produziu em televisão.
De volta à TV Globo em 2000, o Programa do Jô manteve o formato de entrevistas e foi ao ar por dezesseis anos, até 2016, quando ele se aposentou da televisão em definitivo. Essa longevidade extraordinária revelava a adaptabilidade de um comunicador que soube renovar-se sem perder a essência. Nas conversas com seus convidados, Jô demonstrava um domínio enciclopédico dos mais variados assuntos, fruto de uma curiosidade intelectual que o manteve lendo, estudando e aprendendo até o fim da vida. Falava cinco idiomas com diferentes graus de fluência, traduzira histórias em quadrinhos do francês e tocava jazz nas horas de folga.
Além da televisão, Jô Soares foi um escritor de fôlego. Seu romance de estreia, O Xangô de Baker Street, publicado em 1995, misturava ficção histórica com mistério policial e se tornou best-seller no Brasil, sendo traduzido para diversos idiomas. A narrativa, que inseria Sherlock Holmes no Rio de Janeiro do final do século XIX, demonstrou que seu talento para o entretenimento e para a construção de tramas era tão sólido nas páginas quanto na tela da televisão. Outros romances e textos de teatro completaram uma obra literária significativa.
Sua vida pessoal foi marcada por múltiplos casamentos, uma característica que ele próprio abordava com a ironia elegante que lhe era própria. Em 2007, admitiu publicamente sofrer de transtorno obsessivo-compulsivo, compartilhando um aspecto íntimo de sua personalidade com a mesma honestidade que caracterizava suas entrevistas. Teve um filho, Rafael, que faleceu em 2014 e que era portador de transtorno do espectro autista, uma perda que Jô carregou com discrição e dignidade. Quando faleceu em agosto de 2022, o Brasil perdeu um homem que havia sido, por quase sete décadas, um espelho luminoso e irreverente da alma nacional.



